Recursos destinados pelo senador financiaram contratos com empresas investigadas pela PF e instituto considerado inexistente pela Receita Federal.
247 – Flávio Bolsonaro (PL), senador e candidato à Presidência da República, destinou emendas parlamentares que acabaram utilizadas no pagamento de empresas investigadas por suspeita de formação de cartel, de uma organização considerada inexistente pela Receita Federal e de entidades envolvidas em outras suspeitas de irregularidades. Os repasses fazem parte de um conjunto de recursos federais direcionados pelo parlamentar a municípios e órgãos públicos, principalmente no Rio de Janeiro.
Levantamento publicado pelo UOL identificou os destinatários finais de parte das emendas do senador, que teve mais de R$ 300 milhões reservados no Orçamento da União desde 2020. Entre os casos estão pagamentos a fornecedores investigados pela Polícia Federal por possíveis fraudes em licitações de equipamentos de proteção balística, contratos com uma organização sob investigação do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) e recursos destinados a um instituto cuja indicação teve participação de um miliciano condenado.
As descobertas levantam questionamentos sobre a aplicação de verbas públicas direcionadas pelo parlamentar. Flávio Bolsonaro nega interferência na escolha das empresas contratadas pelos beneficiários das emendas e afirma que eventuais irregularidades devem ser investigadas pelos órgãos competentes.
Instituto considerado inexistente recebeu recursos de emenda
Um dos casos mais relevantes envolve o Instituto de Medicina e Projeto (IMP), organização contratada para administrar serviços públicos de saúde em municípios fluminenses. Em 2024, Flávio Bolsonaro destinou R$ 3,1 milhões à atenção básica de saúde de Mesquita, município governado pelo PL. Desse montante, R$ 666 mil foram utilizados para pagamentos ao instituto em agosto de 2025.
Em junho de 2026, a Receita Federal classificou o IMP como “inexistente de fato”. O órgão identificou indícios de que a entidade teria sido estruturada para cometer irregularidades tributárias. Segundo documento da Receita, existem “razões que evidenciam que a empresa foi constituída para prática de fraude fiscal, inclusive em proveito de terceiras empresas”.
A organização já estava sob investigação do TCE-RJ desde 2024. Documentos examinados pelo UOL mostram que a Prefeitura de Mesquita firmou contratos superiores a R$ 580 milhões com o instituto entre 2019 e o encerramento de 2024.
Apesar da dimensão financeira dessas contratações, o IMP apresentava dificuldades de localização e comunicação. A entidade estava sem site desde 2021, os endereços eletrônicos informados nos contratos não funcionavam e o telefone cadastrado na Receita Federal não atendia às chamadas.
Reportagem publicada pelo g1 em 2023 também revelou que o presidente da organização era um idoso beneficiário de programa social que vivia em imóvel cedido por terceiros.
Tribunal de Contas identificou suspeitas de conluio e documentos assinados por morto
As investigações sobre o IMP apontaram problemas que vão além das condições de funcionamento da entidade. Em decisão de 2025, o TCE-RJ identificou indícios de irregularidades no processo de contratação da organização pela Prefeitura de Mesquita.
Entre os problemas estavam a ausência de estudos técnicos prévios que justificassem a transferência da gestão dos serviços municipais de saúde e suspeitas de combinação entre participantes da concorrência vencida pelo instituto.
Os auditores também identificaram documentos da entidade assinados em nome de uma pessoa que havia morrido em 2017. A descoberta levou a administração municipal a instaurar procedimento administrativo contra o IMP.
Em abril de 2026, a Prefeitura de Mesquita determinou que a organização ficaria impedida de celebrar novos contratos com o município durante dois anos. No processo, o instituto não apresentou defesa formal nem constituiu advogado.
Outra apuração do TCE-RJ constatou o pagamento de uma margem de lucro de 9% ao IMP, considerada irregular pelo tribunal. Os conselheiros também questionaram a modalidade de licitação utilizada para contratar os serviços de saúde.
Como consequência, o tribunal determinou a devolução de R$ 32 milhões pelo ex-prefeito Jorge Miranda (PL), pelo ex-secretário municipal de Saúde e pelo próprio instituto.
A Prefeitura de Mesquita informou que rescindiu os contratos, aplicou multa de R$ 3 milhões à organização e encaminhou o caso ao Ministério Público. A administração municipal justificou a manutenção temporária dos serviços pela necessidade de evitar a interrupção do atendimento à população durante a substituição da entidade.
Empresas investigadas por cartel receberam pagamentos de emendas
Outro eixo do levantamento envolve recursos destinados por Flávio Bolsonaro à modernização da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Duas empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeitas de fraudes em licitações de equipamentos de proteção balística receberam pagamentos vinculados a convênios financiados com emendas do senador.
A Glágio do Brasil recebeu R$ 569 mil entre maio e junho de 2026. Parte significativa desses recursos foi movimentada por meio de um convênio que também contou com emendas dos parlamentares Daniela do Waguinho (Republicanos) e Hélio Lopes (PL).
A Inbra-Tecnologia, pertencente a outro grupo empresarial citado nas investigações, recebeu R$ 1,1 milhão no mesmo convênio. Uma nota de empenho do Ministério da Justiça relaciona uma emenda de Flávio Bolsonaro à aquisição de 342 capacetes balísticos fornecidos pela empresa.
As duas empresas estão associadas à Operação Perfídia, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2023. Na ocasião, investigadores apuraram suspeitas de que fornecedores de equipamentos balísticos combinavam a divisão de contratos públicos, alternando vencedores conforme as regiões do país e as características dos produtos adquiridos.
A investigação também examinou contratos celebrados durante a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, em 2018, quando empresas dos dois grupos forneceram coletes à Polícia Militar e ao sistema penitenciário estadual.
Investigação sobre coletes também mencionou Braga Netto
Durante a apuração das suspeitas de fraude nas compras de equipamentos de proteção, a Polícia Federal encontrou uma mensagem enviada por um representante da Glágio que mencionava o general Walter Braga Netto.
Segundo o conteúdo identificado pelos investigadores, Braga Netto “prometeu interferir” para viabilizar uma aquisição de coletes que enfrentava obstáculos administrativos.
O autor da mensagem era um militar da reserva que, conforme a investigação, havia sido contratado em 2019 para “fazer lobby junto ao alto escalão do Governo” e tentar reverter a suspensão do processo de compra.
Braga Netto ocupou cargos ministeriais durante o governo Jair Bolsonaro e integrou a chapa presidencial do ex-presidente em 2022, como candidato a vice. Atualmente, está preso após condenação por tentativa de golpe de Estado.
O procedimento policial envolvendo as empresas fornecedoras de equipamentos balísticos tramita sob sigilo. A Glágio e o grupo Inbra não responderam aos questionamentos encaminhados pelo UOL. A Polícia Militar do Rio de Janeiro também não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
A existência de investigações sobre os fornecedores não significa, por si só, que o senador tenha participado das supostas fraudes nas licitações.
Emenda de R$ 4 milhões para projeto ligado ao Vasco entrou na mira da CGU
Além dos contratos na saúde e na segurança pública, recursos destinados pelo senador a iniciativas esportivas também passaram a ser questionados.
Uma emenda de R$ 4 milhões, apresentada por Flávio Bolsonaro em 2025 para financiar um projeto relacionado ao Vasco da Gama, entrou no radar da Controladoria-Geral da União (CGU), conforme revelou o jornalista Juca Kfouri, do UOL.
A apuração identificou que R$ 684 mil, correspondentes a 93% das despesas realizadas no projeto no período examinado, foram direcionados a um único fornecedor.
Os pagamentos foram destinados à microempresa Luiz Armando Marcondes de Oliveira ME, registrada em uma sala comercial no bairro de Sapopemba, na zona leste de São Paulo.
Os desembolsos ocorreram entre março e maio de 2026 e foram justificados como despesas com aquisição de materiais esportivos.
A concentração dos pagamentos em um único fornecedor passou a integrar os questionamentos sobre a execução dos recursos públicos destinados à iniciativa.
Miliciano condenado no caso Marielle participou de tratativas sobre emenda
Outra destinação de recursos envolve o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), beneficiado com R$ 200 mil de uma emenda de Flávio Bolsonaro para um projeto esportivo em Taquara, na zona oeste do Rio de Janeiro.
O UOL já havia identificado indícios de irregularidades nessa destinação em setembro de 2025.
Posteriormente, mensagens divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo revelaram que Robson Calixto, conhecido como Peixe, participou de tratativas sobre a liberação dos recursos com uma assessora do gabinete do senador.
Calixto é apontado como miliciano e foi condenado no processo relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco.
As mensagens colocaram em evidência a participação de um integrante da milícia em conversas sobre recursos federais destinados a um projeto social.
Empresa contratada com emenda teve máquinas flagradas em propriedade de amigo
Também há questionamentos envolvendo recursos enviados ao município de Resende, no sul do estado do Rio de Janeiro.
Uma emenda parlamentar de Flávio Bolsonaro financiou despesas de revitalização do aeroporto municipal. A empresa Valle Sul recebeu nove pagamentos que somaram R$ 6,61 milhões.
Reportagem da revista piauí revelou que máquinas pertencentes à empresa foram flagradas trabalhando dentro de uma propriedade privada de Renato Araújo, identificado como amigo do senador.
O episódio levantou dúvidas sobre a utilização dos equipamentos da contratada em uma área particular, embora o levantamento apresentado não estabeleça que os recursos da emenda tenham financiado diretamente os serviços realizados na propriedade.
Flávio Bolsonaro nega participação na escolha de fornecedores
Procurado pelo UOL, Flávio Bolsonaro afirmou que a responsabilidade pelas contratações é dos órgãos e entidades que recebem as emendas parlamentares.
Em nota, o senador declarou:
“Sobre a destinação de emendas parlamentares, nem o senador ou qualquer assessor do gabinete indicam empresas para os beneficiários. A atuação do gabinete limita-se às atribuições institucionais relacionadas à indicação das emendas, de acordo com a legislação e critérios de cada ministério. As decisões e procedimentos relativos à contratação são de responsabilidade dos respectivos beneficiários, observadas as normas legais e os procedimentos aplicáveis. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei.”
A Prefeitura de Mesquita apresentou justificativa semelhante ao explicar os pagamentos realizados ao IMP. Segundo a administração municipal, as emendas destinadas à saúde são depositadas no Fundo Municipal de Saúde, cabendo ao município decidir como executar os serviços.
A prefeitura ressaltou ainda que parlamentares de diferentes partidos destinaram recursos para despesas dessa natureza, citando, entre outros, Lindbergh Farias, Enfermeira Rejane, Daniel Soranz, Laura Carneiro, Marcos Soares e Dimas Gadelha.
A administração informou que os contratos com o IMP foram encerrados após a identificação das irregularidades e que os dados relativos às despesas estão disponíveis no Portal da Transparência.
Os diferentes episódios revelados pelo levantamento envolvem situações distintas, desde suspeitas de cartel e irregularidades contratuais até questionamentos sobre a destinação final de recursos públicos. Embora não demonstrem participação direta de Flávio Bolsonaro nos ilícitos investigados, os casos colocam sob escrutínio os beneficiários e a fiscalização das emendas reservadas ao senador ao longo dos últimos anos.
FOTO: Carlos Moura/Agência Senado
FONTE: https://www.brasil247.com/sudeste/emendas-de-flavio-bolsonaro-abastecem-empresas-suspeitas-de-cartel/