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Empresas brasileiras ampliam lobby nos EUA para conter tarifas de Trump

Setor privado do Brasil investiu US$ 8,5 milhões em atuação política em Washington desde 2022, em uma mobilização recorde para tentar reduzir os impactos das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.

247 – Empresas e entidades do setor privado brasileiro intensificaram de forma inédita sua atuação de lobby nos Estados Unidos diante da escalada tarifária promovida pelo governo de Donald Trump. Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, foram investidos US$ 8,5 milhões desde 2022 em escritórios e profissionais especializados em influenciar decisões do governo e do Congresso norte-americanos.

O movimento representa uma mudança significativa em relação à última década, período em que a presença empresarial brasileira em Washington havia se tornado mais discreta. A ameaça de novas tarifas, porém, levou companhias e associações a reforçar seus canais de diálogo com autoridades dos Estados Unidos.

Entre as empresas e entidades que passaram a contratar lobistas ou retomaram esse tipo de atuação estão a Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham Brasil, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia, a Unica, além de Embraer, Tupy, Taurus e Weg.

Tarifa de 25% provocou reação do setor privado

O principal fator por trás da mobilização foi a tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos em julho sobre parte das exportações brasileiras.

A medida decorreu de uma investigação americana que acusou o Brasil de adotar práticas comerciais consideradas desleais. Entre os temas citados no processo estavam questões relacionadas à propriedade intelectual e ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos Pix.

A decisão atingiu cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Mais de 2 mil produtos, no entanto, acabaram excluídos da sobretaxa depois de negociações e pressões realizadas por empresas, entidades setoriais e representantes do governo brasileiro.

A exclusão de parte das mercadorias reforçou entre empresários a percepção de que a presença permanente em Washington pode produzir resultados concretos.

CNI contratou escritório próximo de Trump

A Confederação Nacional da Indústria intensificou sua atuação e contratou o escritório Ballard Partners, considerado próximo do governo Trump.

O contrato, no valor de US$ 700 mil, tem como objetivo acompanhar as discussões sobre tarifas e defender os interesses da indústria brasileira perante os departamentos de Comércio e de Estado dos Estados Unidos.

A escolha de um escritório com acesso ao entorno político de Trump reflete a tentativa das entidades brasileiras de compreender e influenciar os processos decisórios da administração republicana.

Segundo Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, o setor empresarial brasileiro percebeu que precisa manter presença ativa nos Estados Unidos para evitar surpresas.

“O setor descobriu que precisa ter presença lá nos EUA, para não tomar susto”, afirmou Barral ao Estadão.

Amcham criou posição permanente em Washington

A Amcham Brasil também reforçou sua estrutura nos Estados Unidos.

A entidade desembolsou US$ 190 mil em atividades de lobby e criou uma posição fixa em Washington para acompanhar decisões políticas e comerciais que possam afetar a relação bilateral.

A estratégia indica que a mobilização não é tratada apenas como uma resposta emergencial às tarifas, mas como uma mudança mais duradoura na forma como o setor privado brasileiro se relaciona com o poder político norte-americano.

Empresas como Sylvamo e Bauducco também contrataram grupos especializados para proteger seus interesses comerciais diante da possibilidade de novas restrições.

Lobby é regulamentado e transparente nos Estados Unidos

Diferentemente do que ocorre no Brasil, onde a atividade ainda enfrenta limitações regulatórias e forte percepção negativa, o lobby é legalizado nos Estados Unidos.

Empresas, associações e escritórios precisam informar ao Congresso os valores gastos, os clientes representados e os temas sobre os quais atuam.

Esse sistema de prestação de contas permite acompanhar a movimentação de grupos econômicos junto ao governo e ao Legislativo.

Os gastos totais com lobby nos Estados Unidos chegaram a US$ 5,13 bilhões em 2022, o maior valor registrado desde o início da série histórica, em 1998.

A atuação brasileira, embora pequena diante do mercado americano como um todo, atingiu um patamar recorde em sua história recente.

Empresas buscam evitar novas barreiras

O temor do setor privado é que a tarifa de 25% seja apenas uma das etapas de uma escalada protecionista.

Uma nova rodada de sobretaxas, de 12,5%, está prevista sob a alegação de que determinados produtos brasileiros estariam associados ao uso de trabalho forçado em suas cadeias produtivas.

Caso a medida avance, novos setores poderão ser afetados, ampliando os custos das exportações e reduzindo a competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano.

As empresas tentam, portanto, fornecer informações às autoridades dos Estados Unidos, contestar acusações e demonstrar os impactos econômicos das tarifas para companhias e consumidores dos dois países.

Atuação vai além das tarifas

Embora o comércio seja hoje o principal foco, as atividades de lobby do setor privado brasileiro nos Estados Unidos envolvem também outros temas.

Empresas e entidades atuam em discussões sobre regulação bancária, produção industrial local, acesso ao mercado americano e organização de cadeias de suprimentos.

Itaú, Taurus e JBS aparecem entre as companhias envolvidas em iniciativas desse tipo, ainda que nem todas tenham detalhado publicamente seus objetivos ou comentado os contratos firmados.

A diversificação das pautas mostra que grandes grupos brasileiros passaram a enxergar Washington como um espaço permanente de defesa de seus interesses empresariais.

Presença brasileira tende a continuar

A mobilização tende a permanecer mesmo que parte das tarifas seja revista.

A imprevisibilidade da política comercial de Trump e a possibilidade de abertura de novas investigações tornaram a atuação política nos Estados Unidos uma ferramenta considerada estratégica pelas empresas.

Para o setor privado, depender apenas das negociações entre governos pode não ser suficiente em um ambiente no qual decisões comerciais são frequentemente influenciadas por pressões empresariais, regionais e eleitorais.

O recorde de US$ 8,5 milhões investidos desde 2022 revela, assim, uma nova postura das companhias brasileiras: em vez de reagir somente depois do anúncio de barreiras, elas buscam estabelecer presença contínua nos centros de poder dos Estados Unidos.

FOTO: Brasil 247 / Dall-E

FONTE: https://www.brasil247.com/economia/empresas-brasileiras-ampliam-lobby-nos-eua-para-conter-tarifas-de-trump/