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Entenda como a mudança de propriedade na mineradora Serra Verde impacta a geopolítica global

Venda de ativo estratégico brasileiro aos EUA insere o país na disputa por minerais críticos e amplia tensões entre grandes potências.

247 – A transferência do controle da mineradora brasileira Serra Verde para a empresa americana USA Rare Earth representa muito mais do que uma simples operação empresarial. O movimento reposiciona o Brasil no centro de uma disputa geopolítica global por minerais críticos, considerados essenciais para a indústria de alta tecnologia, a transição energética e a segurança nacional das grandes potências.

Segundo informações publicadas pelo jornal Valor Econômico, a operação envolve a mina de Pela Ema, em Goiás, uma das poucas fora da Ásia com capacidade de produção em escala de terras raras pesadas — insumos estratégicos para setores como energia limpa, indústria digital e defesa.

Minerais estratégicos no centro da disputa global

As terras raras — como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — são fundamentais para a fabricação de produtos de alto valor agregado, incluindo carros elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos militares. Hoje, a China domina amplamente essa cadeia global, o que levou os Estados Unidos a intensificarem sua estratégia para garantir fontes alternativas de suprimento.

Nesse contexto, a incorporação da Serra Verde por uma empresa americana se insere diretamente no esforço de Washington para reduzir sua dependência de Pequim e consolidar uma cadeia produtiva própria, que vá da extração ao processamento e à fabricação de componentes.

Brasil como elo estratégico da cadeia dos EUA

Um dos pontos mais sensíveis da operação é a previsão de que toda a produção da mineradora seja direcionada ao mercado norte-americano. Na prática, o Brasil passa a desempenhar o papel de fornecedor direto de matéria-prima crítica para a indústria e o setor de defesa dos Estados Unidos.

Essa dinâmica insere o país em uma engrenagem geoeconômica liderada por Washington, ao mesmo tempo em que levanta dúvidas sobre o espaço para o desenvolvimento de uma cadeia industrial nacional capaz de absorver e transformar esses recursos.

Alinhamento político e antecipação do movimento

A mudança de controle da mineradora ocorre após sinais políticos claros de aproximação com os Estados Unidos nesse setor. Um mês antes, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou um acordo com o governo norte-americano voltado à exploração de terras raras.

“Este é o momento talvez do acordo mais importante geoeconômico já assinado por um governador do Estado”, afirmou Caiado, ao destacar o potencial de transformar o estado em referência global na produção desses minerais.

Reação interna e alerta sobre soberania

A operação gerou críticas no meio político brasileiro. O deputado Carlos Zarattini (PT-SP) classificou a venda como um “crime de lesa-pátria”, ao argumentar que o país estaria abrindo mão de um ativo estratégico em um momento de crescente disputa global.

“Minerais estratégicos não podem ser tratados como mercadoria comum. Estamos falando de recursos ligados à indústria, à tecnologia e à soberania nacional”, afirmou.

A crítica reflete uma preocupação mais ampla com a ausência de uma política mineral robusta que priorize a agregação de valor e o desenvolvimento tecnológico no Brasil.

Governo Lula prepara resposta estratégica

Diante desse cenário, o governo do presidente Lula se mobiliza para estabelecer novos marcos regulatórios. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou ao Brasil 247 que será apresentada a Política Nacional de Terras Raras.

A proposta prevê a criação do Conselho Nacional de Política Mineral, com participação de 16 ministros, responsável por autorizar qualquer alienação de ativos considerados estratégicos. O objetivo é preservar a soberania nacional e estimular o processamento dessas matérias-primas no próprio país, seja por meio de desenvolvimento autóctone, seja por exigência de transferência de tecnologia.

Reconfiguração das cadeias globais

A mudança de controle da Serra Verde ocorre em um momento de reorganização das cadeias produtivas internacionais, impulsionada pela transição energética e pela rivalidade entre Estados Unidos e China. O domínio sobre minerais críticos tornou-se um dos principais instrumentos de poder no cenário global.

Nesse contexto, o Brasil passa a ocupar uma posição relevante como fornecedor de recursos estratégicos, mas também enfrenta o desafio de definir se continuará como exportador de matéria-prima ou se avançará na construção de uma base industrial capaz de disputar valor na economia do futuro.

Foto: Divulgação

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/entenda-como-a-mudanca-de-propriedade-na-mineradora-serra-verde-impacta-a-geopolitica-global