A força econômica do agronegócio contrasta com sua dependência do Estado, subsídios recordes e baixa contrapartida social.
Li com atenção o artigo “O Agro é POP, o Agro Tech, Agro é tudo (as polêmicas que envolvem o agronegócio do Brasil)”, do mineiro Renato S. Borges, publicado em fevereiro de 2026. Leio-o não como panfleto ideológico, mas como um exercício raro de franqueza num debate frequentemente capturado pela publicidade e por estatísticas lançadas sem contexto. O texto de Borges cumpre o papel incômodo de desmontar a narrativa dominante segundo a qual o agronegócio brasileiro prospera essencialmente por eficiência própria, espírito empreendedor e plena inserção no mercado.
É inegável que o agro ocupa posição central na economia nacional, respondendo por algo entre 23% e 29% do PIB, a depender da metodologia. O problema começa quando esse número vira salvo-conduto moral.
O que se omite é que esse protagonismo está alicerçado numa engrenagem profundamente dependente do Estado brasileiro. Banco do Brasil, BNDES, fundos constitucionais e o Plano Safra formam um sistema em que o risco é socializado e o retorno permanece concentrado. Na safra 2025/2026, o Plano Safra destinado à agricultura empresarial alcançou R$ 516,2 bilhões, o maior volume da história, com quase 90% dos recursos direcionados à agricultura de grande escala.
A equalização de juros escancara essa assimetria estrutural. Enquanto a taxa Selic permanece em torno de 15% ao ano, produtores acessam crédito com juros fixos entre 3% e 10%, diferença assumida diretamente pelo Tesouro Nacional. Apenas na última safra, esse mecanismo custou aproximadamente R$ 13,5 bilhões aos cofres públicos.
Não se trata de incentivo pontual, mas de política recorrente. A comparação é eloquente: um cidadão comum que financia um automóvel paga juros anuais superiores a 20%; um produtor rural, financiando o mesmo bem por linhas oficiais, paga algo próximo de 6% ao ano. A economia é significativa — e a conta, coletiva.
O passivo não termina aí.
A carteira agro do Banco do Brasil enfrenta deterioração relevante, com crescimento expressivo da inadimplência e, sobretudo, do custo do crédito, que já projeta valores na casa de R$ 60 bilhões em provisões e perdas potenciais. A distinção é técnica, mas o efeito é o mesmo: quando o risco se materializa, o impacto recai sobre um banco público e, por consequência, sobre o Tesouro Nacional. A história recente ensina quem paga essa conta. Foi assim nas décadas de 1980 e 1990, quando o banco precisou ser capitalizado com dívida pública.
Não há heroísmo nesse arranjo. Há transferência regressiva de renda.
No plano produtivo, outra fissura se impõe. O agro brasileiro produz majoritariamente commodities, não alimentos voltados prioritariamente ao mercado interno. Em 2025, o país colheu cerca de 55 milhões de sacas de café, exportando aproximadamente 40 milhões — justamente as de melhor qualidade. A soja seguiu lógica semelhante: a produção ultrapassou 166 milhões de toneladas, com exportações na casa de 100 milhões de toneladas, destinadas sobretudo à ração animal no exterior. Carnes nobres deixam o país enquanto se tornam inacessíveis para parcelas crescentes da população. O Brasil saiu do Mapa da Fome em 2025, mas isso ocorreu por políticas de renda e proteção social, não pela lógica distributiva do agronegócio.
Há ainda aspectos sistematicamente silenciados.
Multas ambientais tratadas como custo operacional, estoques bilionários de autuações não quitadas, resistência histórica à rastreabilidade da produção e à transparência fundiária.
Soma-se a isso a oposição recorrente a normas de proteção ambiental e às leis trabalhistas, como se direitos sociais e preservação fossem entraves, e não pilares de uma economia minimamente sustentável e civilizada.
A evolução recente do Plano Safra ilumina uma contradição política eloquente. Em 2019/2020, o volume girava em torno de R$ 225,6 bilhões. Em 2020/2021, passou para R$ 236,3 bilhões; em 2021/2022, alcançou R$ 251,2 bilhões. A inflexão ocorre a partir de 2023/2024, quando o montante salta para R$ 364,2 bilhões. Em 2024/2025, o Plano Safra total atingiu R$ 475,5 bilhões, culminando agora nos R$ 516,2 bilhões da safra 2025/2026. Paradoxalmente, foi sob governos progressistas — tão combatidos no discurso por parte do empresariado rural — que o agronegócio recebeu o maior volume de crédito, subsídios e proteção institucional de sua história recente.
Esse paradoxo revela algo ainda mais incômodo: o slogan “o agro é pop, é tech, é tudo” já não se sustenta diante de uma leitura honesta da realidade social brasileira. Vamos lá:
O agro não é pop porque não dialoga com o cotidiano da maioria da população, que enfrenta alimentos caros e insegurança alimentar persistente. É tech apenas para poucos, concentrando tecnologia, crédito e inovação em grandes conglomerados.
E está a galáxias de distância de ser tudo, porque depende estruturalmente do Estado, amplia desigualdades, pressiona o meio ambiente e oferece contrapartidas insuficientes a uma sociedade que o financia, o sustenta e já não aceita slogans publicitários como substitutos da verdade.
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/entre-o-slogan-e-os-dados-por-que-o-agro-esta-longe-de-ser-tudo