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Equipe de Lula se prepara para ‘surpresas’ de Trump em encontro na Casa Branca

Histórico recente de reuniões na Casa Branca acende alerta, mas experiência de Lula é vista como trunfo.

247 – O Palácio do Planalto deu início aos preparativos para a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Washington, onde deverá se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um encontro cercado de expectativas e cautela. A equipe de assessoria internacional trabalha para preparar o presidente brasileiro tanto para um roteiro considerado “tranquilo” quanto para situações “inesperadas”, diante do histórico recente de Trump em reuniões diplomáticas, relata o Valor Econômico.

A previsão do governo é que a visita ocorra na primeira quinzena de março, embora a data ainda não esteja confirmada. Nos bastidores, auxiliares de Lula admitem que o encontro pode ocorrer em clima amigável, mas também avaliam a possibilidade de uma recepção hostil ou marcada por constrangimentos. A preocupação se baseia no comportamento recente de Trump, que, neste segundo mandato, já protagonizou episódios em que teria usado reuniões oficiais para expor ou desqualificar líderes estrangeiros, como ocorreu com os presidentes Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul.

Segundo fontes do governo, o Planalto reconhece que a relação construída entre Lula e Trump nos últimos meses reduziu a margem para provocações, mas ainda assim a orientação interna é manter atenção máxima. O entendimento é que, mesmo com sinais de uma “química” diplomática mais estável, o presidente dos Estados Unidos mantém um padrão imprevisível, sobretudo em aparições públicas no Salão Oval.

A experiência anterior de Lula em encontros com líderes americanos é considerada um trunfo pela equipe presidencial. O presidente brasileiro já esteve na Casa Branca durante os mandatos de George W. Bush, Barack Obama e Joe Biden, o que, segundo aliados, lhe dá maior familiaridade com os protocolos e com possíveis improvisos em compromissos oficiais. Além disso, auxiliares lembram que Lula historicamente demonstrou maior afinidade com Bush, do Partido Republicano — mesma legenda de Trump.

Mesmo assim, a diplomacia brasileira considera que ainda há um ponto sensível: os Estados Unidos não definiram qual será o formato do encontro. O governo brasileiro ainda não sabe se Lula será recebido em uma visita de chefe de Estado, com rituais formais e cerimônias específicas, ou se será apenas um encontro bilateral mais simples, com menor carga protocolar. A indefinição preocupa o Planalto, já que o formato pode influenciar o grau de exposição pública do presidente brasileiro.

A equipe de Lula também leva em conta episódios anteriores envolvendo a organização americana. Na primeira reunião entre Lula e Trump, realizada na Malásia no ano passado, houve mudanças inesperadas no roteiro acertado entre os diplomatas dos dois países. Na ocasião, auxiliares do presidente dos Estados Unidos decidiram convidar jornalistas credenciados pelo Departamento de Estado para entrarem na sala e fazerem perguntas antes do início da conversa reservada, alterando o combinado previamente.

Apesar disso, integrantes do governo avaliam que Lula tem condições de administrar imprevistos desse tipo. A estratégia atual do Planalto é planejar respostas e comportamentos para múltiplos cenários, incluindo situações potencialmente desconfortáveis diante da imprensa internacional.

No governo brasileiro, há também um sinal de otimismo moderado: o encontro recente entre Trump e o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, não terminou em choque político, mesmo após semanas de críticas públicas entre os dois líderes. Para interlocutores do Planalto, o episódio reforça que, apesar do estilo agressivo de Trump, reuniões oficiais podem transcorrer sem incidentes, dependendo do contexto e do formato definido pela Casa Branca.

Além da agenda comercial e diplomática, a visita deve incluir um esforço político mais delicado: estabelecer “linhas vermelhas” em função da proximidade do calendário eleitoral brasileiro. O governo pretende sinalizar à equipe americana, de forma diplomática, que assim como Lula não interfere em temas internos dos Estados Unidos — citando como exemplo a crise em Minnesota — o Brasil espera que Trump respeite a soberania nacional.

A preocupação central do Planalto é evitar que Trump volte a atacar publicamente a democracia brasileira, em um movimento que, na avaliação do governo, poderia ser explorado politicamente para enfraquecer Lula na corrida presidencial. A intenção seria antecipar esse risco e tentar estabelecer limites claros, ainda que em linguagem cuidadosa e indireta.

Do ponto de vista econômico, o governo brasileiro pretende retornar de Washington com algum avanço concreto sobre o tarifaço imposto a produtos nacionais, que ainda permanece parcialmente em vigor. Lula deve sustentar que os fundamentos políticos que embasaram parte das sanções teriam perdido força, citando como exemplo o argumento americano relacionado a supostas perseguições políticas contra Jair Bolsonaro (PL).

Outro tema central será a tentativa de firmar um acordo de cooperação na área de combate ao crime organizado. O Planalto considera esse ponto estratégico, inclusive por seu impacto no debate político interno. A avaliação é que uma parceria com os Estados Unidos nessa área pode reforçar a imagem do governo federal e neutralizar críticas de governadores alinhados à direita, que acusam a gestão petista de negligência no enfrentamento da criminalidade.

Assim, a viagem de Lula aos Estados Unidos é planejada como um movimento de alto risco e alto impacto, combinando interesses econômicos, segurança pública e posicionamento político internacional, em um cenário marcado pela imprevisibilidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pela necessidade do governo brasileiro de evitar constrangimentos que possam reverberar no ambiente eleitoral.

Foto: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/equipe-de-lula-se-prepara-para-surpresas-de-trump-em-encontro-na-casa-branca