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Esquerda prepara ofensiva digital para novo governo Lula

Presidente defende regras para plataformas, enquanto aliados planejam manter mobilização digital durante novo mandato.

247 – A mobilização nas redes sociais que contribuiu para a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições deverá continuar durante o próximo mandato. Lideranças da esquerda pretendem transformar a estrutura digital organizada na campanha em um instrumento permanente de apoio ao governo e pressão sobre o Congresso Nacional. Paralelamente, Lula e seus aliados defendem a regulamentação das grandes plataformas tecnológicas, em meio a questionamentos sobre a atuação dessas empresas durante a disputa eleitoral.

Segundo a Folha de São Paulo, o deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pela mobilização de mais de 10 milhões de pessoas no chamado “Exército do Lula”, pretende manter a organização ativa para fortalecer a capacidade de articulação política do presidente. A estratégia ganha importância diante da perspectiva de dificuldades do governo para formar maioria na Câmara dos Deputados e no Senado.

“O grande objetivo desse ‘Exército’, pós-eleição, é compensar a minoria que o presidente Lula vai ter na Câmara e no Senado, porque a extrema direita está com uma maioria esmagadora”, afirmou Janones.

O parlamentar acrescentou que “o ‘Exército do Lula’ tem como missão, a partir de agora, dar governabilidade ao presidente”.

Lula promete comunicação direta com a população

A experiência do segundo turno também deverá provocar mudanças na forma como Lula se comunica com os brasileiros. Durante a campanha, o presidente passou a utilizar com maior frequência o smartphone, depois de anos de resistência ao uso da tecnologia.

A mudança ocorreu por insistência de Janones e de outros aliados, que defendiam uma presença mais intensa do presidente nas plataformas digitais.

No discurso da vitória, Lula agradeceu publicamente ao deputado, chamou-o de general e afirmou que ele “teve um papel exponencial nessa campanha para levantar diariamente, de manhã, de tarde e de noite, a moral da nossa tropa”.

O presidente também anunciou que pretende utilizar os canais digitais para transmitir suas posições diretamente à população, reduzindo a dependência da cobertura dos meios tradicionais de comunicação.

“Já estou aprendendo a conversar com o meu general e podem ficar certos que, daqui para frente, vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente. Não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalistas com má-fé. Não vou. Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço”, disse Lula.

Regulação das plataformas entra nas prioridades do governo

Além de ampliar a presença digital, Lula sinalizou que pretende priorizar a regulamentação das redes sociais. O presidente associou a necessidade de novas regras às acusações de interferência de empresas de tecnologia no processo eleitoral.

Durante seu discurso de vitória, afirmou que a campanha precisou enfrentar a atuação de plataformas digitais e defendeu que crimes praticados no ambiente virtual recebam tratamento equivalente ao de delitos cometidos fora da internet.

“Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que um crime no mundo digital tem que ser tratado igual a um crime na vida real”, afirmou Lula.

O presidente também criticou empresas bilionárias que, segundo ele, deixam de pagar impostos enquanto tentam “direcionar o resultado eleitoral” brasileiro.

A discussão sobre a regulamentação ganhou novo impulso depois de reportagens que apontaram possíveis diferenças no tratamento dispensado pelas plataformas aos dois principais candidatos à Presidência.

Mensagens internas da Meta, responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, mostraram que funcionários da companhia reconheceram prejuízos a contas de Lula e benefícios a perfis de Flávio Bolsonaro durante a campanha.

A empresa negou ter interferido na eleição.

Testes realizados pela Folha também identificaram diferenças nas respostas de ferramentas de inteligência artificial da Meta a solicitações de criação de imagens eleitorais dos dois candidatos.

Em outra investigação, publicada durante o primeiro turno, a Folha mostrou que modelos de inteligência artificial produziam rankings entre candidatos à Presidência, em desacordo com a legislação eleitoral.

Governo tenta acelerar votação antes da posse do Congresso

A regulamentação concorrencial das grandes empresas de tecnologia deverá ser objeto de uma articulação legislativa ainda neste ano.

Integrantes do governo e parlamentares pretendem acelerar a tramitação de um projeto de lei sobre o tema para tentar aprová-lo até dezembro, antes da posse dos deputados e senadores eleitos.

A avaliação entre os defensores da proposta é que o atual Congresso oferece condições mais favoráveis à aprovação das novas regras. A composição parlamentar que assumirá no próximo ano poderá dificultar o avanço da iniciativa.

A regulamentação das plataformas já havia sido defendida por Lula na campanha presidencial de 2022. Durante o mandato, o governo trabalhou em propostas para estabelecer novas responsabilidades às empresas, mas não conseguiu avançar com a agenda.

Deputados defendem mudanças nos algoritmos

Entre os parlamentares que ganharam projeção nas redes durante o segundo turno estão os deputados federais eleitos Ana Elisa (PT-MG), Jones Manoel (Psol-PE) e Guilherme Cortez (Psol-SP).

Com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, Cortez defende que a esquerda mantenha a mobilização digital e, simultaneamente, avance na discussão sobre novas regras para as plataformas.

Na avaliação do parlamentar, o campo progressista demorou a reconhecer a importância das redes sociais para a disputa política, enquanto a direita construiu uma presença mais consolidada nesses espaços.

“A direita chegou antes, se desenvolveu nesse terreno, beneficiada por uma série de coisas, inclusive pelo algoritmo das redes sociais”, afirmou.

Cortez também atribuiu parte do desempenho da esquerda no segundo turno à mudança de postura de seus integrantes diante da comunicação digital.

“Para ganhar eleição foi preciso que a gente tomasse ofensiva nesse terreno, e conseguimos, mesmo com todas as comprovadas tentativas de boicotar nossa campanha pelos aplicativos.”

O deputado defende que a regulamentação seja discutida com diferentes setores da sociedade e menciona, entre as possibilidades, a criação de mecanismos que permitam aos usuários desativar as recomendações algorítmicas.

Nesse modelo, as pessoas poderiam optar por visualizar apenas publicações de perfis que seguem ou de seus contatos, sem a seleção automática de conteúdos feita pelas plataformas para ampliar o tempo de permanência dos usuários.

Vitória eleitoral fortaleceu estratégia digital

A decisão de manter a mobilização ocorre depois de uma eleição em que Lula conseguiu reverter a vantagem obtida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)no primeiro turno.

Na primeira etapa da disputa, o candidato do PL recebeu 47% dos votos, enquanto o petista obteve 45,2%.

No segundo turno, Lula venceu com 51,8% dos votos, contra 48,2% de Flávio, tornando-se o primeiro presidente brasileiro a conquistar a eleição depois de terminar a primeira votação em segundo lugar.

A estratégia digital organizada por Janones também despertou interesse internacional. O parlamentar recebeu convites para colaborar com campanhas de esquerda em outros países, incluindo iniciativas relacionadas à tentativa de reeleição do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez.

Durante a campanha brasileira, o parlamentar utilizou mensagens com expressões como “urgente” e “explode” para estimular o compartilhamento de conteúdos e mobilizar apoiadores.

FOTO: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/brasil/esquerda-prepara-ofensiva-digital-para-novo-governo-lula/