Manifestações organizadas pela UNE em 11 estados e no Distrito Federal também denunciaram a violência política e defenderam os direitos indígenas.
247 – Estudantes foram às ruas neste domingo (1º) em diferentes regiões do Brasil para protestar contra a postura do senador Flávio Bolsonaro (PL) após sua derrota na eleição presidencial e denunciar o que consideram uma tentativa de interferência dos Estados Unidos na política brasileira. As mobilizações, inicialmente planejadas para celebrar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), passaram a incorporar críticas à extrema-direita, à violência política e às ameaças contra comunidades indígenas.
Segundo a Folha de São Paulo, os atos foram organizados pela União Nacional dos Estudantes (UNE) em 11 estados e no Distrito Federal. A mudança no caráter das manifestações ocorreu após Flávio Bolsonaro deixar o Brasil e divulgar uma carta contestando o resultado da eleição presidencial, realizada no domingo anterior (25).
“A princípio nosso objetivo era que os atos de hoje fossem comemorativos, mas a conjuntura e os acontecimentos da semana não permitiram que tivessem estritamente esse caráter”, afirmou Bianca Borges, presidente da UNE.
O senador, derrotado por Lula no segundo turno, chegou a Miami, nos Estados Unidos, na quarta-feira (28). Posteriormente, divulgou uma carta na qual se apresentou como “verdadeiro presidente eleito”, apesar do resultado das urnas. Em uma nova versão do documento, substituiu a expressão por “líder do Brasil”, mas manteve a contestação ao processo eleitoral.
Diante desses acontecimentos, a UNE decidiu colocar a reação à postura de Flávio Bolsonaro no centro das manifestações. A mobilização, que inicialmente estava prevista para nove estados, foi ampliada para outras unidades da Federação, incluindo o Maranhão.
A programação também prevê novos protestos em Salvador, na Bahia, nesta segunda-feira (2), e em Brasília, na quarta-feira (4).
Protesto em São Paulo critica interferência americana e violência política
Na capital paulista, dezenas de manifestantes começaram a se reunir ao meio-dia na praça Roosevelt, na região central. Durante o ato, Bianca Borges criticou a possibilidade de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras e defendeu a soberania nacional.
Entre os cartazes exibidos pelos participantes, um trazia a mensagem “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, em referência à atuação americana na política nacional.
A manifestação também contou com a participação de integrantes da Liga Anti-Imperialista Internacional (LAI), que defenderam a reforma agrária e criticaram a concentração fundiária no país.
Alguns membros da organização utilizaram máscaras para preservar suas identidades. Ramon Pereira Machado, de 25 anos, explicou que a medida busca proteger os participantes diante de episódios de violência política. Segundo ele, integrantes do movimento chegaram a perder seus empregos depois de manifestarem posicionamentos políticos.
A preocupação com a violência também apareceu nos discursos da UNE, especialmente em relação às ameaças contra comunidades indígenas.
O Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso do Sul investiga denúncias de ataques e intimidações contra povos originários no estado. As apurações procuram esclarecer o aumento de episódios violentos que podem estar associados às disputas políticas durante as eleições presidenciais de 2026.
UNE cobra investimentos nas universidades e permanência estudantil
Além das críticas ao bolsonarismo, a presidente da UNE defendeu a continuidade da mobilização estudantil para pressionar o governo Lula a ampliar os investimentos na educação superior.
Bianca Borges destacou a necessidade de recompor o orçamento das universidades públicas e fortalecer as políticas de permanência, consideradas fundamentais para garantir que estudantes de baixa renda consigam concluir seus cursos.
“Nós democratizamos o acesso ao ensino superior. Só que, sem permanência estudantil, a vaga é só uma porta-giratória, uma exclusão adiada”, afirmou à Folha.
A dirigente sustentou que a ampliação do acesso às universidades precisa ser acompanhada de condições materiais que permitam aos estudantes permanecer nas instituições até a conclusão da graduação.
O ato paulista também reuniu representantes políticos ligados à esquerda. O deputado estadual eleito Eduardo Suplicy (PT) discursou em defesa da renda básica de cidadania, uma de suas principais bandeiras políticas.
O ex-presidente do PT José Genoino acompanhou a manifestação, mas não subiu ao palco. Embora tenha recusado uma entrevista à Folha, ressaltou a importância das mobilizações populares como instrumentos de participação e pressão política.
Os participantes também direcionaram críticas ao prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Durante o protesto, ele foi chamado de “corrupto e golpista”, e cartazes defenderam seu impeachment.
O pedido de afastamento foi apresentado pelo PSOL à Câmara Municipal de São Paulo sob a acusação de que o prefeito descumpriu uma determinação judicial para garantir a circulação de 100% da frota operacional de ônibus da capital durante o segundo turno das eleições.
No Rio, manifestantes chamam Flávio Bolsonaro de fujão
No Rio de Janeiro, estudantes e militantes se concentraram desde o fim da manhã em uma praça próxima à igreja da Candelária, no centro da cidade.
A manifestação reuniu principalmente jovens e teve público inferior ao registrado nos atos realizados antes do segundo turno da eleição presidencial.
Os discursos foram marcados por críticas à extrema-direita e à decisão de Flávio Bolsonaro de deixar o país após sua derrota eleitoral.
Durante uma intervenção no carro de som, um manifestante classificou a mobilização como a “missa de sétimo dia da família Bolsonaro”.
A deputada federal reeleita Jandira Feghali (PCdoB) também participou do protesto e chamou Flávio de fujão. Em seu discurso, destacou a importância da reação política brasileira à extrema-direita.
“Viramos símbolo antifascista no mundo”, declarou a parlamentar.
Os manifestantes também criticaram o governador eleito do Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL), aliado de Flávio Bolsonaro que participou da campanha presidencial do senador no estado.
A defesa dos direitos indígenas foi outro tema presente no protesto carioca. Participantes denunciaram a violência contra comunidades tradicionais e defenderam medidas para garantir a proteção desses povos.
O psicólogo Lucas de Oliveira Ribeiro, de 32 anos, afirmou que decidiu participar da manifestação por indignação com os ataques sofridos pela população indígena brasileira.
“O que me trouxe aqui foi a revolta e a indignação. Com Lula, temos maior possibilidade de enfrentamento a esse genocídio”, declarou.
FOTO: Fernando Frazão/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/brasil/estudantes-protestam-contra-flavio-bolsonaro-e-interferencia-dos-eua-nas-eleicoes/