Economista critica ameaças sobre a Groenlândia e afirma que Europa só reagiu quando a pressão virou contra o próprio continente.
247 – O economista Jeffrey Sachs afirmou que os Estados Unidos passaram a atuar “fora da lei” no cenário internacional desde a criação da CIA, em 1947, e disse que a escalada recente de ameaças e intimidações atribuídas ao governo de Donald Trump, atual presidente dos EUA, é apenas mais um capítulo de uma trajetória marcada por guerras, golpes e operações de mudança de regime.
As declarações foram feitas em entrevista ao programa Judging Freedom, apresentado pelo juiz Andrew Napolitano, em edição exibida no YouTube em 21 de janeiro de 2026. No diálogo, Sachs comenta o que chamou de “diplomacia por insulto” e reage a trechos de uma mensagem atribuída a Trump que envolve a Groenlândia e pressões sobre países europeus.
“Não há autoridade legal”: ruptura com a Carta da ONU e o “direito do mais forte”
Provocado por Napolitano sobre que base jurídica permitiria a um chefe de Estado exigir a remoção do líder de outro país que não represente ameaça à segurança nacional, Sachs respondeu de modo categórico: “Nenhuma”. Em seguida, lembrou que a Carta das Nações Unidas veda o uso da força — ou a ameaça do uso da força — contra outros países e afirmou que o atual governo em Washington teria rompido com esse princípio.
“Temos um tratado, a Carta da ONU, que explicitamente rejeita o uso da força ou a ameaça do uso da força contra outro país. Esse é o cerne do direito internacional, que, claro, nosso presidente repudiou completa e explicitamente”, disse. Para Sachs, a lógica que se impõe é a do “mais forte”, como se os EUA não estivessem “vinculados” a normas, tratados ou padrões mínimos de decência institucional.
A mensagem atribuída a Trump e a Groenlândia como instrumento de chantagem
Na entrevista, Napolitano exibe um texto apresentado como um e-mail de Trump ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas, e lê o trecho inicial: “Querido Jonas, considerando que seu país decidiu não me dar o Prêmio Nobel da Paz por ter parado oito guerras ou mais, não sinto mais obrigação de pensar na paz”. O texto prossegue com menção à Groenlândia e com a alegação de que a Dinamarca não seria capaz de “proteger aquela terra” de Rússia ou China.
Sachs reage apontando que o episódio reforça o caráter errático e agressivo da política externa do governo norte-americano. Ele diz que o mundo já sabia que os EUA “cronicamente” se envolvem em derrubadas de governos e guerras com pretextos falsos e que Trump é um presidente dado a ameaças repetidas. O que teria mudado, segundo ele, é a percepção de que há algo além do padrão histórico: “algo rachou?”, questiona, sugerindo que as últimas semanas teriam sido “completamente descontroladas”, com bravatas, tarifas “selvagens” e insistência em dizer que “a Groenlândia é nossa”.
“Gângster internacional”: reação britânica e a crítica à hipocrisia europeia
Napolitano também reproduz a fala de um parlamentar britânico, exibida na Câmara dos Comuns, que acusa Trump de agir como “um gângster internacional”, dizendo que o presidente ameaça a soberania de aliados, flerta com o fim da OTAN e tenta impor tarifas “ultrajantes” à Europa para “colocar as mãos na Groenlândia”.
Sachs afirma concordar “em substância” que a conduta é “repulsiva” e “grotesca”, mas faz um ataque frontal ao comportamento de governos europeus nas últimas décadas. Para ele, parte da Europa só se mobilizou agora porque a pressão passou a ser dirigida ao próprio continente. “O que energizou os europeus é que se virou contra eles”, afirma, lembrando que muitos permaneceram silenciosos diante de episódios que ele aponta como violações graves quando as vítimas eram outros países.
O economista dá um exemplo pessoal: relata ter presenciado uma reunião no Conselho de Segurança da ONU após um bombardeio ao Irã, quando, segundo ele, a representação da Dinamarca teria cobrado “moderação” dos iranianos sem sequer mencionar que o país havia sido atacado. Na sequência, Sachs diz ter questionado a embaixadora, que teria se recusado a ouvir a crítica. A conclusão do economista é que a indignação europeia, em muitos casos, teria sido seletiva e tardia.
“Desde 1947”: Sachs liga a crise atual a décadas de intervenções e golpes
Ao ampliar o quadro histórico, Sachs afirma que o comportamento “sem lei” dos EUA não começou agora. Ele aponta 1947 — ano de criação da CIA — como marco de uma era de “dezenas e dezenas” de guerras ilegais, golpes, assassinatos e operações de mudança de regime, que, segundo ele, se prolongaram até o presente.
Na avaliação do economista, não deveria ter sido necessária uma ameaça contra a Dinamarca para que a Europa refletisse sobre essa trajetória. O episódio da Groenlândia, diz, apenas evidencia o que ele entende como uma continuidade estrutural: o recurso à intimidação como instrumento de política externa, com custos crescentes para a estabilidade global.
“A ameaça à Groenlândia não é Rússia nem China”, afirma economista
Sachs insiste que a narrativa de que a Groenlândia estaria sob risco de Rússia ou China seria uma “confabulação”. “A Groenlândia não está sob ameaça alguma da Rússia, da China ou de qualquer outra pessoa. Isso é completamente inventado”, declarou. Para ele, o impulso de Trump teria menos relação com segurança e mais com ambição e vaidade, chegando a comparar o comportamento do presidente ao de uma criança “com ciúmes” do tamanho territorial da Rússia e de sua costa no Ártico.
Ele também sugere que o principal freio recente pode ter sido o mercado financeiro, não instituições políticas: especula que a queda do mercado teria levado Trump a moderar o discurso, e insinua que a riqueza pessoal do presidente seria o último “guarda-corpo” real.
Europa precisa de política externa própria, diz Sachs
No trecho final da entrevista, Sachs defende que a Europa construa uma política externa independente e menos subordinada a Washington. Ele afirma ter alertado o Parlamento Europeu, em fevereiro de 2025, de que o continente poderia enfrentar “ameaça de invasão” vinda dos EUA — e diz que a crise atual confirma a necessidade de uma estratégia própria, com diplomacia “real” e menos hipocrisia.
Para o economista, o caso da Groenlândia é um sintoma de um ambiente internacional cada vez mais perigoso, no qual o unilateralismo volta a testar os limites do sistema multilateral. A lição, em seu entendimento, é clara: quem aceita a lógica da força quando ela atinge terceiros pode acabar descobrindo tarde demais que também se tornou alvo.
Foto: Reprodução Youtube
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/eua-atuam-fora-da-lei-desde-a-criacao-da-cia-diz-jeffrey-sachs