As duas últimas grandes operações militares dos EUA miraram na Venezuela e no Irã, mas tiveram como consequência secundária a China, maior rival dos norte-americanos nos campos econômico e militar.
Os chineses são os maiores importadores mundiais de petróleo, com 11 milhões de barris consumidos por dia, e o fechamento do Estreito de Ormuz, na costa iraniana, cortou uma artéria vital de suprimento para a segunda maior economia do mundo. Além disso, a paralisação dos voos comerciais na região do Golfo Pérsico —especialmente nos hubs de Doha e Dubai— está deixando a China parcialmente isolada do Hemisfério Ocidental, por tempo indeterminado.
No caso da aviação comercial, o prejuízo não é apenas das companhias aéreas, mas de todas as empresas chinesas que dependem desses hubs aeronáuticos para suas transações comerciais com o restante do mundo. No caso do petróleo, o que preocupa não é só o risco de escassez do produto, mas também seu valor no mercado internacional.
Os ataques norte-americanos a Teerã prejudicam a própria economia iraniana, em primeiro lugar. Por causa de seu programa atômico, o país persa já estava há anos sob forte embargo imposto pela Europa e pelos EUA, o que restringiu drasticamente suas possibilidades de trocas comerciais com o restante do mundo. Esse garrote fez com que o regime dos aiatolás tivesse de se voltar quase exclusivamente para a Rússia e a China, com grande parte dessas transações sendo feitas pelo que os norte-americanos e europeus passaram a chamar de “frota fantasma” —navios que furam o bloqueio comercial para escoar a produção iraniana.
Do total de petróleo exportado pelo Irã, 80% vai para o mercado chinês. Isso representa apenas 13,4% de todo o petróleo que a China importa. Não é muito, individualmente, só que os iranianos controlam o Estreito de Ormuz, por onde passa também o petróleo da Arábia Saudita, segundo maior provedor para o mercado chinês, atrás apenas da Rússia; assim como do Iraque e dos Emirados Árabes Unidos. Ao todo, 20% da produção mundial e metade de todo o petróleo consumido pelos chineses passa pelo Estreito de Ormuz.
O ministro chinês de Comércio Exterior, Wang Yi, classificou como “inaceitável” o ataque e disse que é pior ainda “assassinar o dirigente de um país soberano para provocar uma mudança de regime”, referindo-se à morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, que foi morto em um bombardeio, no sábado (28). Mas não há nada que Pequim possa fazer no curto prazo para impedir essas ações de força unilaterais dos Estados Unidos.
A ação acontece apenas dois meses depois de Donald Trump ter ordenado o ataque contra o maior aliado político-militar dos chineses em outra região estratégica, a América Latina. A invasão a Caracas e a captura de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, já havia sido um primeiro baque no leque de parceiros de Pequim. A China era a maior compradora do petróleo venezuelano, que, depois da queda de Maduro, passou a ser direcionado prioritariamente para o mercado norte-americano.
O efeito dessas duas ações sobre a China “é inegável, mesmo que não tenha sido de caso pensado”, disse ao UOL Maurício Santoro, pesquisador do Centro de Estudos Políticos e Estratégicos da Marinha do Brasil, no Rio. Para ele, esse “é um início de ano com duas importantes derrotas para Pequim”, na medida em que dois dos maiores parceiros dos chineses na América Latina e no Oriente Médio são fustigados por essas ações violentas ordenadas por Trump.
Outra consequência desses dois eventos foi demonstrar que, ao contrário do que muitos pensavam, chineses e russos ainda não dispõem da capacidade e ainda não demonstram a intenção de mobilizar suas Forças Armadas para fazer frente a essas ações. “A ideia de uma China como potência global de intervenção não é verdadeira. Suas ações estão restritas hoje sobretudo ao espaço da Ásia/Pacífico”, afirmou.
Embora não mobilize tropas, a China subvenciona seus aliados com informações e equipamentos militares. O jornal The Wall Street Journal revelou que, em novembro de 2025, militares norte-americanos apreenderam, na costa do Sri Lanka, um navio com carregamento de equipamentos militares chineses que tinham Teerã como destino. O material serviria para reforçar o estoque de foguetes e mísseis do regime. Além disso, Pequim forneceria o perclorato de sódio utilizado como combustível de propulsão da artilharia de Teerã.
Perguntado sobre se as relações do Brasil com a China também colocariam o país na mira das preocupações militares norte-americanas, Santoro disse que “não, pois as trocas brasileiras com Pequim estão no campo comercial, não militar”. De acordo com ele, o Brasil é visto como um parceiro moderado que mantém participação, por exemplo, no grupo dos Brics – do qual fazem parte China, Rússia e Irã—, mas que celebra acordos importantes com o Ocidente, como é o caso do acordo Mercosul/União Europeia.
*João Paulo Charleaux é jornalista e autor do livro “As Regras da Guerra”, da Zahar Editora
FOTO: The White House
FONTE: https://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2026/03/03/eua-dao-no-logistico-na-china-ao-atacar-venezuela-e-ira.htm