Um terceiro navio petroleiro ligado à Venezuela foi interceptado hoje pelos Estados Unidos, elevando as tensões entre o presidente americano, Donald Trump, e o ditador venezuelano, Nicolás Maduro.
O que aconteceu
O petroleiro Bella 1, de bandeira panamenha, foi interceptado enquanto rumava para a Venezuela para carregar. A informação é da agência internacional Bloomberg, que consultou fontes sobre a nova intervenção.
A ocorrência também foi confirmada pela agência Reuters e pela CNN americana. Os oficiais do governo dos EUA, que falaram sob condição de anonimato, não informaram o local específico da operação.
Procurada, a Casa Branca ainda não confirmou a interceptação. Nenhuma autoridade do governo Trump se manifestou sobre o caso até o momento.
Hoje, Maduro comparou a atuação dos EUA a corsários. “Os piratas eram grupos privados que se dedicavam aos mares do mundo para roubar”, diz ele, em vídeo compartilhado em suas redes sociais. “Os corsários são piratas contratados por um estado imperial.”
Trata-se do terceiro bloqueio americano a embarcações venezuelanas. Ontem pela manhã, os EUA bloquearam o superpetroleiro Centuries; no dia 10 de dezembro foi a vez do petroleiro Skipper. O diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, Kevin Hassett, afirmou que os dois primeiros navios operavam no mercado negro fornecendo petróleo a países sancionados.
Nem todos os embarques da Venezuela estão sob sanção. Embora muitos navios que operam na Venezuela estejam na mira, outros não são atingidos pelas medidas, incluindo embarcações que transportam petróleo venezuelano e cargas vindas do Irã e da Rússia. Empresas como a americana Chevron utilizam navios próprios e autorizados.
Petroleiro interceptado ontem tinha a China como destino. Segundo documentos aos quais a Reuters teve acesso, o petróleo bruto foi comprado pela Satau Tijana Oil Trading, uma das muitas intermediárias envolvidas nas vendas da PDVSA para refinarias independentes chinesas.
A China é a principal compradora do petróleo venezuelano. O produto representa cerca de 4% das importações chinesas, algo em torno de 600 mil barris por dia embarcados somente em dezembro.
Trump x Maduro
Trump pressiona o regime de Maduro ao tentar sufocar a principal fonte de receita da Venezuela. Se a Venezuela não puder exportar petróleo, seus tanques de armazenamento terão excedente, e a estatal Petróleos de Venezuela SA, ou PDVSA, precisará fechar poços de petróleo, dizem especialistas do setor.
O republicano também classificou o governo rival de organização terrorista estrangeira, ao acusar o suposto envolvimento com o narcotráfico. A abordagem de ontem surpreendeu especialistas porque o superpetroleiro Centuries não constava da lista pública de sanções dos EUA. Embora a bandeira da embarcação fosse panamenha, o petróleo pertencia a uma empresa chinesa.
Já Maduro disse que a Venezuela vem sofrendo de “terrorismo psicológico a pirataria dos corsários que assaltam petróleo”. Declarou que “há 25 semanas” estão denunciando, “enfrentando e derrotando uma campanha de agressão”.
“Estamos preparados para acelerar a marcha de uma revolução profunda que dê poder ao povo completa e definitivamente.”
Nicolás Maduro
Maduro acusa Trump de tentar derrubá-lo. O ditador venezuelano afirma que o aumento da presença militar dos EUA tem como objetivo tirá-lo do poder para assumir o controle das reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo. Trump já declarou que ataques terrestres americanos ao país podem começar em breve.
Lula x Milei
No Mercosul, os presidentes Lula e Milei discordaram sobre a ação dos EUA contra a Venezuela. A portas fechadas na cúpula, ontem, o presidente da Argentina, Javier Milei, defendeu a pressão do governo Trump contra o regime Maduro e defendeu que os demais países do bloco apoiem a ação norte-americana, segundo a colunista do UOL Thais Bilenky.
A fala de Milei foi no sentido oposto à de Lula. “Passadas mais de quatro décadas desde a Guerra das Malvinas, o continente sul-americano volta a ser assombrado pela presença militar de uma potência extrarregional”, afirmou o presidente.
A tensão entre EUA e Venezuela e a possibilidade de Trump enviar tropas ao país preocupa o Brasil. Lula tem sido crítico à postura norte-americana e tenta ser um interlocutor. No início de dezembro, conversou com os dois por telefone e procurou pregar a paz para que o conflito não escale para uma guerra.
Gasolina ficará mais cara?
Diretor na Casa Branca afirmou que a natureza supostamente ilegal do comércio venezuelano de petróleo não ameaça os preços do combustível no mercado americano. “Não acho que as pessoas aqui nos EUA precisem se preocupar com o aumento dos preços devido à apreensão desses navios”, disse Hassett. “São apenas alguns, e eram navios do mercado negro.”
Mas um operador de petróleo disse que as apreensões aumentam as tensões geopolíticas na região. Essa instabilidade pode elevar os preços dos combustíveis. Apesar de o mercado global estar bem abastecido, analistas avaliam que a perda de quase 1 milhão de barris por dia, caso o embargo se prolongue, tende a pressionar os preços para cima. Por outro lado, a proximidade do fim da guerra na Ucrânia pode ajudar a conter a alta dos preços, uma vez que a Rússia é outra importante exportadora.
Frota fantasma
Sanções impulsionaram o uso de navios ocultos. Desde 2019, quando os EUA impuseram sanções ao setor de energia da Venezuela, traders e refinarias passaram a recorrer a uma “frota fantasma”, composta por navios que ocultam sua localização ou já foram sancionados por transportar petróleo do Irã ou da Rússia.
Grande parte da frota está sob sanções. De mais de 70 navios desse grupo em águas venezuelanas, cerca de 38 estão sancionados pelo Tesouro americano. Pelo menos 15 deles estão carregados com petróleo e combustíveis, segundo a TankerTrackers.com.
Após as primeiras apreensões de petroleiro, o Irã declarou “plena solidariedade” à Venezuela. O país do Oriente Médio ofereceu cooperação para enfrentar o que chamou de atos ilegais dos EUA.
Foto: Divulgação I Logan Goins/Marinha dos Estados Unidos
FONTE: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/12/21/venezuela-eua-intervencao-bloqueio-navio-petroleo.htm