Washington mira cabos submarinos, portos, minerais críticos e cibersegurança em ofensiva geopolítica contra Pequim.
247 – O governo de Donald Trump prepara uma ampliação de centenas de milhões de dólares em programas voltados a conter a influência da China em diferentes regiões do mundo, segundo documentos obtidos pela Associated Press e divulgados pela PBS NewsHour. A iniciativa ocorre depois de a própria administração ter interrompido, no ano passado, parte dessas ações em meio a cortes orçamentários e de pessoal.
O governo informou ao Congresso, no fim da semana passada, que pretende destinar US$ 175,8 milhões para substituir cabos submarinos de telecomunicações considerados antigos no Caribe e na América Central. O objetivo declarado é impedir que a China ocupe espaço nesse setor estratégico.
A medida integra uma ofensiva mais ampla de Washington contra a presença chinesa em infraestrutura, tecnologia, portos, cibersegurança e minerais críticos. O governo Trump tem demonstrado preocupação com investimentos chineses no Hemisfério Ocidental, incluindo a participação de empresas ligadas à China em portos nas duas extremidades do Canal do Panamá, projetos da iniciativa Cinturão e Rota e aportes no setor de telecomunicações.
Um funcionário do Departamento de Estado, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizado a se manifestar publicamente, afirmou que as atividades econômicas chinesas no Hemisfério Ocidental representam riscos à segurança nacional e à prosperidade dos Estados Unidos. Segundo ele, as ofertas da China podem parecer mais baratas inicialmente, mas acabam se tornando mais caras por causa de estouros de custos, taxas ocultas de manutenção e baixo desempenho.
O projeto apresentado ao Congresso foi batizado de “Countering CCP Control of Caribbean and Central America Undersea Cables”, em referência ao Partido Comunista Chinês. A proposta prevê financiar a instalação de infraestrutura de cabos submarinos “estrategicamente selecionada” e apoiar governos estrangeiros na contratação de empresas privadas do setor.
Segundo a notificação enviada ao Congresso, os recursos servirão para “apoiar a substituição de cabos submarinos de telecomunicações obsoletos na região do Caribe e da América Central por alternativas seguras, dos Estados Unidos e de parceiros confiáveis”. Os projetos devem beneficiar El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Haiti. No caso da Nicarágua, porém, os EUA não trabalhariam diretamente com o governo local, com o qual mantêm relações frágeis.
A iniciativa ocorre em meio a um esforço mais amplo do Departamento de Estado para retomar programas de contenção à influência chinesa. Um documento interno obtido pela AP indica que Washington avalia gastar quase meio bilhão de dólares adicionais em ações voltadas ao Hemisfério Ocidental, à África e à Ásia.
“O Estados Unidos devem responder à crescente influência econômica, tecnológica e diplomática do PCC ao redor do mundo, que mina nossos interesses nacionais”, diz o documento, usando a sigla para Partido Comunista Chinês.
Muitos dos programas em análise buscam “recuperar influência diplomática” em áreas onde os Estados Unidos já investiam, mas deixaram de atuar após cortes conduzidos pelo Departamento de Eficiência Governamental, o DOGE, liderado por Elon Musk. Essas reduções desmantelaram a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, a Usaid, e eliminaram centenas de postos diplomáticos no exterior, afetando inclusive projetos já aprovados para enfrentar a influência chinesa.
Um alto funcionário do governo norte-americano, também sob condição de anonimato, confirmou à AP a intenção da administração Trump de ampliar os recursos destinados a iniciativas contra a China. Ele afirmou, porém, que muitos projetos de grande escala ainda estão em fase de discussão.
Pequim reagiu às informações por meio do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian. Ele afirmou que a cooperação chinesa com outras regiões “não se trata de conquistar ou rivalizar com ninguém, mas de salvaguardar a paz mundial, promover o desenvolvimento global, defender a ordem internacional e construir uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade”.
Sobre os cabos submarinos, Lin disse que a infraestrutura beneficia populações em todo o mundo e que a China está disposta a cooperar com outros países para promover sua construção e proteção. “Transformar isso em uma questão política ou de segurança apenas perturbará as regras do mercado internacional e ameaçará a conectividade digital global e a cibersegurança, o que não atende aos interesses de ninguém”, afirmou.
Além do projeto dos cabos submarinos, o Departamento de Estado elaborou planos para aplicar mais de US$ 340 milhões em mais de 50 iniciativas específicas contra a China em diferentes países. Muitas delas estão concentradas no Hemisfério Ocidental, segundo o documento interno citado pela AP.
Entre as propostas está a criação de centros de operações de segurança na Argentina e em Belize para monitorar supostas ameaças chinesas à infraestrutura crítica e a plataformas cibernéticas na região. Também estão previstas iniciativas para proteger Equador, Jamaica, México, Paraguai, Peru e Uruguai de alegadas tentativas chinesas de se infiltrar em operações portuárias e explorar ilegalmente pesca offshore e extração de minerais críticos.
O plano também menciona ações mais amplas, como combater a influência chinesa no processo de escolha do sucessor do Dalai Lama, por meio do desenvolvimento de tecnologia própria para garantir comunicações seguras e coleta de informações. O documento cita ainda esforços para enfrentar o apoio internacional ao programa espacial chinês e resistir à exportação, por empresas chinesas, de tecnologias de vigilância e censura.
A movimentação ocorre apesar da demonstração pública de cooperação entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping. O líder chinês deve visitar os Estados Unidos no outono do Hemisfério Norte, e Trump é esperado para um encontro com Xi em setembro, durante o período da Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
Na preparação para essa possível reunião, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, encontrou-se na semana passada com o chanceler chinês, Wang Yi, durante uma conferência regional de segurança nas Filipinas.
Segundo a AP, Trump tem oscilado entre críticas e gestos de aproximação a Xi, a quem tenta cultivar como aliado, mesmo enquanto a China persegue objetivos contrários a prioridades de sua administração. O impacto real dos novos programas, caso sejam implementados, só deverá ser percebido ao longo de meses ou anos.
Foto: Bao Dandan/Xinhua
FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/eua-preparam-aporte-milionario-para-conter-avanco-da-china-no-exterior/