Mudanças propostas pelo governo dos EUA preocupam especialistas, que alertam para impactos no tráfico internacional de armas e no fortalecimento de facções criminosas.
247 – A revisão das regras para o comércio de armas promovida pelo governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, pode ter reflexos além das fronteiras americanas. Segundo reportagem da BBC News Brasil, especialistas afirmam que a flexibilização da compra e da venda de armamentos poderá facilitar o abastecimento de organizações criminosas internacionais, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
O Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) apresentou, no fim de abril, 34 propostas para rever a regulamentação do setor. Entre elas está a possibilidade de liberar a venda online de armas com entrega direta ao comprador, eliminando a exigência de comparecimento presencial para a verificação de antecedentes criminais, que passaria a ser feita apenas digitalmente.
Críticos afirmam que a medida pode aumentar tanto a violência interna nos Estados Unidos quanto o tráfico internacional de armas. Em maio, o governo Trump classificou PCC e CV como organizações terroristas, decisão contestada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que defende o combate às facções sem esse enquadramento jurídico.
Mercado americano preocupa especialistas
Os Estados Unidos seguem entre as principais origens dos fuzis utilizados por organizações criminosas brasileiras. Uma das formas de tráfico consiste na compra legal de armas em território americano e seu envio clandestino ao Brasil escondidas em cargas comerciais.
John Lindsay-Poland, coordenador do projeto Stop US Arms to Mexico, avalia que as mudanças propostas podem agravar esse cenário.
“As mudanças na regulamentação de armas que o governo Trump está promovendo podem, sim, afetar o tráfico internacional”, afirmou à BBC News Brasil.
Ele destaca como especialmente preocupante a proposta de permitir a entrega de armas pelos Correios sem contato presencial entre vendedor e comprador.
“Pela nossa análise, o principal problema é o tamanho, a permissividade e o caráter militarizado do mercado civil de armas nos Estados Unidos”, acrescentou, defendendo mudanças na legislação do varejo de armas, e não apenas a classificação de facções como organizações terroristas.
Classificação de facções gera dúvidas
Para Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, ainda não está claro se a decisão de classificar PCC e CV como grupos terroristas terá impacto prático.
“Será que, dentro desse esforço de classificação de organizações terroristas, haverá sanções a essas lojas da Flórida que aparecem com frequência em rastreamentos de armas que terminam no Brasil?”, questionou.
Segundo ele, “se não tiver sanção para esses grandes players, vai ficar muito claro que essa é uma medida mais de interesse político-eleitoral do que de fato interessada em enfraquecer essas organizações criminosas.”
Já Matt Schroeder, pesquisador da ONG Small Arms Survey, explica que organizações criminosas costumam recrutar pessoas sem antecedentes criminais para comprar armas legalmente nos EUA e depois exportá-las de forma clandestina. Para ele, embora as novas regras talvez não alterem significativamente esse mercado ilegal, o afrouxamento dos controles sobre exportações legais pode aumentar o risco de desvio de armamentos.
Apreensões crescem e produção clandestina avança
Dados do Instituto Sou da Paz mostram que as apreensões de fuzis no Brasil cresceram 167% entre 2021 e 2025, chegando a 2.152 unidades no ano passado. Entre os armamentos cuja origem foi identificada entre 2019 e 2023, os Estados Unidos aparecem como principal fabricante, à frente do Brasil.
Especialistas observam, porém, que a fabricação clandestina de fuzis dentro do país vem crescendo rapidamente. Para a diretora de Ensino e Pesquisa da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), Michele dos Ramos, esse fenômeno representa atualmente “a principal dor de cabeça” das autoridades.
“Essas armas ainda têm uma qualidade muito menor do que um fuzil importado dos Estados Unidos, mas a qualidade já aumentou muito nos últimos cinco anos”, afirmou.
Ela acrescenta que o custo de produzir esses armamentos clandestinamente já é menor do que o de importá-los ilegalmente, tornando essa alternativa cada vez mais atraente para as facções criminosas.
FOTO: The White House
FONTE: https://www.brasil247.com/brasil/facilitacao-da-venda-de-armas-por-trump-pode-ampliar-acesso-do-pcc-e-cv-a-fuzis/