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Groenlândia não é delírio: é imperialismo sem disfarce

Tratar Trump como louco oculta a lógica do império: a Groenlândia expõe poder cru, geopolítica de mercado e o fim do disfarce diplomático.

As tentativas recorrentes de Donald Trump de tratar a Groenlândia como mercadoria cada vez mais são explicadas, por analistas especializados e por cidadãos comuns no mundo todo, como sintoma de desvario pessoal do atual presidente dos EUA. É bem verdade que, no comportamento de Trump, existem traços evidentes de narcisismo político patológico, culto à força e desprezo por limites institucionais. Mas é comum confundir narcisismo político com patologia. No caso de Trump, suas características são amplamente conhecidas: personalismo; busca constante por afirmação; discurso de força e dominação; baixo nível de visão do outro. Mesmo assim, seu problema é menos psicológico, e muito mais político e de obsessão por business. Trump fala de temas complexos como se fossem negócios imobiliários: países viram propriedades; alianças viram contratos; soberania vira barganha.

Isso soa como delírio, mas é, na verdade, uma forma extrema de pragmatismo imperial, sem filtros diplomáticos. Onde presidentes anteriores agiam nos bastidores, Trump fala em voz alta.

Talvez seja um erro grave – e conveniente – classificar as investidas desse líder como pura patologia. Ao se fazer isso, corre-se o risco certo de absolver o sistema que ele representa. Não, não estamos diante de um caso de distúrbio mental. Estamos diante de imperialismo afirmado aos berros.

Quando Trump fala em “comprar”, em se apoderar da Groenlândia apesar do território não estar à venda, ele não está inventando nada. Apenas abandona a liturgia diplomática e revela, sem pudores, a lógica crua do poder imperialista: território é vantagem estratégica; gelo derretendo é oportunidade; soberania alheia é detalhe negociável. Tudo isso soa como delírio, mas é, na verdade, uma forma extrema de pragmatismo imperial, sem filtros diplomáticos. Trump proclama seus desejos aos gritos.

A Groenlândia concentra tudo o que define a geopolítica do século 21: controle do Ártico; novas rotas marítimas abertas pela crise climática; grandes jazidas de minerais críticos (terras raras) para tecnologia e defesa; presença militar decisiva dos Estados Unidos.

Governantes norte-americanos anteriores pensaram exatamente o mesmo – só não disseram.

Assim, chamar Trump de “louco” significa cumprir uma função política perigosa: transforma decisão estratégica em excentricidade pessoal. Dessa forma, o problema deixa de ser o expansionismo imperialista norte-americano e passa a ser o temperamento de um indivíduo. Essa narrativa protege o império e demoniza o mensageiro.

Trump, na verdade, não rompe com a tradição imperial dos EUA; ele rompe com a hipocrisia que a encobria. Sua linguagem é a do mercado, não a da diplomacia. Países viram ativos. Alianças viram contratos. Geopolítica, imobiliária global. Não há melhor exemplo disso que seu projeto relacionado a Faixa de Gaza: transformá-la num imenso e lucrativo balneário de luxo às margens do Mediterrâneo oriental. Com os palestinos que sobraram ao massacre – e que são os legítimos donos daquelas terras – transformados em serviçais dos hóspedes dos hotéis e resorts.

O que choca não é apenas a ideia de se apoderar da propriedade alheia e ter total controle da Groenlândia: O que assusta é a naturalidade e despudor com que essa ambição é verbalizada, como se o mundo fosse um tabuleiro privado e povos inteiros, peças deslocáveis. Não, Trump não enlouqueceu o debate. Ele está expondo sua verdade de forma nua e crua.

Reduzir tudo a um suposto distúrbio mental é confortável, mas falso. A obsessão pela Groenlândia não nasce na mente de um homem – nasce na ansiedade estratégica de um império em transição, incapaz de aceitar seus novos limites num mundo que já não lhe pertence sozinho.

Não é loucura. É poder sem máscara. A obsessão com a Groenlândia diz mais sobre o declínio da diplomacia clássica, a brutalização do discurso político e a ansiedade estratégica dos EUA do que sobre a saúde mental de um indivíduo.

Não se trata de distúrbio mental. Trata-se de imperialismo explícito, linguagem primitiva de poder que quer sobreviver num mundo em que líderes já não disfarçam com verniz diplomático suas ambições desmedidas e a arrogância dos seus impulsos de poder geopolítico.

Foto:RS/Fotos Públicas

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/groenlandia-nao-e-delirio-e-imperialismo-sem-disfarce