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Hegemonia predatória e América Latina: a erosão do discurso democrático americano

Como a atuação dos EUA na América Latina revela contradições entre discurso democrático e práticas de poder assimétricas.

A hegemonia predatória — a exploração sistemática de instituições globais, normas e parcerias por um Estado dominante para extrair vantagens unilaterais — há muito molda a arquitetura da ordem internacional. Longe de sustentar uma cooperação genuína, essa forma de poder subordina a soberania e aprofunda desigualdades estruturais, deixando os Estados periféricos a navegar em um sistema desenhado contra seus próprios interesses.

Uma de suas expressões mais duradouras é o neoextrativismo: o impulso incessante de potências externas para se apropriar das riquezas naturais do Sul Global — minerais críticos, terras raras, recursos energéticos estratégicos — sem permitir que o valor seja retido, processado ou transformado nos territórios que os detêm.

Ao discursar na 10ª Cúpula da CELAC, em Bogotá, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu voz a essa queixa estrutural com notável franqueza: “Estão tentando nos colonizar novamente?” — uma pergunta que reformula a disputa pelos recursos da América Latina não como investimento, mas como a continuidade de padrões históricos de extração e espoliação.

É por meio dessa lente que o Sul Global passou a reinterpretar antigas assimetrias de poder, recorrendo ao pensamento pós-colonial para expor os padrões de dominação entrelaçados na política mundial. Em um mundo cada vez mais multipolar, esse acerto de contas já não é apenas acadêmico — trata-se de um chamado para reimaginar os termos pelos quais as nações se engajam, resistem e, em última instância, reformulam a ordem que governa a todos.

Por dois séculos, a política dos Estados Unidos em relação à América Latina contradisse sua retórica democrática ao subordinar a soberania regional a interesses estratégicos. O conceito de “hegemonia predatória”, de Stephen Walt, descreve como Washington passou a tratar aliados e rivais como instrumentos para vantagens de curto prazo, em vez de parceiros em uma ordem internacional cooperativa.

Historicamente, a liderança dos EUA evoluiu por fases. Durante a Guerra Fria, Washington apoiou a reconstrução europeia ao mesmo tempo em que sustentava regimes autoritários na América Latina — incluindo o golpe de 1964 no Brasil e a Operação Condor —, revelando como cálculos geopolíticos se sobrepunham a princípios democráticos. Filmes brasileiros como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto continuam a retratar essas contradições.

Posteriormente, os Estados Unidos estruturaram a globalização por meio de instituições e mecanismos financeiros que reforçaram a centralidade do dólar. Essa dominância monetária tem raízes no sistema do petrodólar dos anos 1970, quando o comércio de petróleo passou a ser denominado majoritariamente em moeda americana, criando uma demanda global sustentada por dólares e ampliando a alavancagem financeira de Washington. Após a Guerra Fria, esse arcabouço se expandiu por meio de instituições financeiras internacionais e regras de comércio que apresentavam o sistema como uma ordem multilateral.

Dentro dessa estrutura, o Consenso de Washington promoveu reformas neoliberais na América Latina, incentivando a liberalização de mercados e privatizações, ao mesmo tempo em que aprofundava assimetrias econômicas. Muitos países permaneceram como fornecedores de matérias-primas, enquanto o valor tecnológico e financeiro se concentrava em economias avançadas integradas ao sistema centrado no dólar.

Nos últimos anos, contudo, esse modelo assumiu um caráter mais explicitamente predatório. Em vez de reforçar regras compartilhadas, a política dos EUA passou a instrumentalizar normas internacionais para avançar objetivos unilaterais. Regimes comerciais, mecanismos de sanções e estruturas de segurança são aplicados de forma seletiva, transformando aquilo que antes era apresentado como bens públicos globais em ferramentas estratégicas de influência.

A América Latina oferece vários exemplos contemporâneos dessa dinâmica. Um episódio recente envolveu um enviado norte-americano que viajou ao Brasil e sinalizou apoio a atores políticos alinhados às preferências de Washington durante um período eleitoral sensível, levantando preocupações sobre interferência em processos democráticos internos. Seja interpretado como diplomacia ou pressão, o episódio evidencia a linha tênue entre parceria e intervenção sob a hegemonia predatória.

Da mesma forma, a persistência do embargo dos EUA contra Cuba — mantido apesar de décadas de condenação quase unânime nas Nações Unidas — ilustra como a pressão econômica unilateral pode se sobrepor ao consenso multilateral, aplicando regras internacionais de acordo com alinhamentos geopolíticos.

A cooperação militar também amplia essa presença estratégica. Acordos que permitem o deslocamento de tropas no Paraguai e a formulação de crises regionais sob narrativas de “narcoterrorismo”, como na recente escalada de segurança no Equador, correm o risco de normalizar a expansão de estruturas de segurança externas sob o pretexto de preocupações legítimas.

Em conjunto, esses casos demonstram como o uso estratégico das regras existentes por Washington transforma normas globais em instrumentos de vantagem unilateral. A hegemonia predatória opera não apenas por coerção direta, mas também por influência estrutural sobre marcos políticos, econômicos e de segurança.

Pressões diplomáticas, regimes de sanções e parcerias militares criam uma rede na qual a soberania formal coexiste com assimetrias de poder subjacentes — reforçando a influência dos EUA no hemisfério ao mesmo tempo em que erodem gradualmente a ordem internacional cooperativa que o país outrora afirmou liderar.

A consequência mais ampla é a erosão gradual da legitimidade da ordem internacional. Quando o arquiteto das instituições globais aplica regras de forma seletiva para obter vantagens unilaterais, a confiança nesses marcos se enfraquece — transformando estruturas concebidas para cooperação em mecanismos de instabilidade e desconfiança.

Para a América Latina, o desafio, portanto, não é apenas de alinhamento geopolítico, mas de defesa da autonomia de políticas públicas em um sistema internacional cada vez mais contestado. À medida que os países diversificam parcerias e fortalecem a cooperação regional, a sustentabilidade de longo prazo da governança global dependerá de esses marcos permanecerem genuinamente multilaterais ou se tornarem instrumentos de poder hegemônico.

Em última instância, a hegemonia predatória contém as sementes de seu próprio declínio. Ao priorizar vantagens de curto prazo em detrimento de regras compartilhadas, Washington acelera a diversificação e a autonomia estratégica que busca evitar — confirmando o alerta de Walt de que tal influência pode se erodir gradualmente e, depois, de forma súbita.

Foto: Embaixada dos EUA/Divulgação

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/hegemonia-predatoria-e-america-latina-a-erosao-do-discurso-democratico-americano