Entre o desespero e o desafio das contas abertas, o confronto de gerações e métodos expõe o futuro do país no debate eleitoral.
Momento decisivo.
O candidato Flávio não sabe o que fazer, não teve coragem de enfrentar o desafio, ficou sorrindo para dentro, receoso de dizer qualquer coisa, porque a realidade é o seu próprio tribunal de acusação.
Construiu em torno de si o rastro da sua ficha criminal ao longo de uma existência política cercada de amigos milicianos cuja essência é a mesma dele, levantando dúvidas sobre tudo o que diz.
Temeroso de morrer como peixe, pela boca de um anzol lançado por Lula, que promete, hoje, encaminhar ao TSE sua determinação de se submeter aos juízes o seu veredito, para ser investigado pela mais alta corte eleitoral, Flávio, diante da população excitada pelo desafio presidencial, está em sinuca de bico.
Abre ou não abre sua vida para tentar chegar à vitória, alcançando-a sem a desconfiança popular que lhe pesa sobre os ombros?
A exigência surda da cobrança da população, na arquibancada da luta eleitoral, está no ar, ofegante.
Falta ele agir como quem não tem medo da verdade e expor as suas contas sobre as quais caem denúncias escabrosas.
É a hora de desmentir sua marca registrada: Rachadinha, espectro que se estende sobre todas as adjetivações sobre si mesmo.
E os R$ 134 milhões do Vorcaro, onde foram parar?
Não prometeu expor a contabilidade do produto cinematográfico que relata a vida do seu pai, alvo de tentativas de homenagens cujo teor esconde verdades inconfessáveis sobre as quais certamente não serão jamais exibidas por peças de propagandas adrede concebidas para enganar os incautos?
Sem dúvida foi o momento mais intenso do debate — debate? — de domingo, na Band, mais parecido com rinha de galos.
Um jovem, com toda a sua energia empenhada em conseguir chegar ao Planalto, a partir do ano que vem, pelo voto popular, volta a sua agressão incontida contra o senhor de 80 anos, que tenta seu quarto mandato, mas é surpreendido pela ferocidade do sociopata incontrolável, a arrastar suas esporas afiadas em ritmo frenético.
Ficou comprovado que a experiência vivida de longos anos pode ser surpreendida pela falta de escrúpulos.
O que se viu foi um Flávio inescrupuloso, sem propostas, sem programas, sem ideias, apenas disposto a ganhar no grito.
Nada tem a oferecer.
De outro, um Lula que se assustou ao se surpreender pela falta de educação e agressividade daquele que pode ser seu neto, ansioso para lhe tomar a faixa, na base da porrada.
Depois de um tempo a se arrastar pelo cansaço da paciência de quem se envolvia num espetáculo de horrores, eis que o presidente, carregando nas costas, ao longo de uma existência de luta política, uma experiência internacionalmente conhecida, perde as estribeiras e arranca do fundo da alma o argumento decisivo com o qual confronta seu desafiante: mostra suas contas e eu mostro as minhas.
Esse é o papo que domina o país, neste momento que antecede as eleições decisivas para o país, no próximo domingo.
De um lado, aquele que, durante o debate, mostrou ódio excessivo em suas gesticulações e diabruras expelidas pelos olhos inquietos da mentira incontrolável como arma que se imagina infalível.
De outro, o velho político, porém jovial, que se dispõe a continuar na luta por se sentir útil e disposto a enfrentar as dificuldades que o impediram de alcançar promessas que não conseguiu cumprir, devido às adversidades conjunturais que somente a história haverá de expor algum dia tim-tim por tim-tim, inapelavelmente.
Mas as marcas de sua trajetória não deixam dúvidas de se tratar, graças ao seu próprio roteiro histórico, de um personagem popular de alcance universal, vindo dos escombros da existência do sofrido povo brasileiro.
Esse, fundamentalmente, é o lastro que lhe deu coragem, determinação e destemor de lançar sua última cartada, no debate, sabendo, do fundo da sua consciência, o peso da verdade que o fez digno de confiança da população quanto à sua honestidade de trabalhador íntegro, capaz de representar, sem mácula, sua própria categoria social, na história cruel do capitalismo brasileiro.
É com ela que irá ao próximo debate, na sexta, na Globo, levando o recibo do tribunal quanto à solicitação que encaminhou ao adversário, como último desafio.
O rapaz que, conforme disse o presidente, nunca trabalhou, por ter nascido em berço de ouro, terá coragem de fazer o mesmo perante os juízes?
Se não o fizer, entrará no ringue já derrotado.
Lula, como Aníbal, atravessou o Rubicão, lançando sua máxima: “Alea jacta est” (A sorte está lançada!).
Flávio se encherá de coragem ou carregará nas costas o peso da desconfiança e ansiedade nacional, que espera vê-lo mostrar sua verdadeira cara?
Chegou a hora de a onça beber água.
Foto: RS/Fotos Públicas
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/hora-da-verdade-3/