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Ideias que Explicam por que Alguns Países Ficam Ricos (e Outros Não)

O Que Realmente Constrói a Riqueza das Nações?

Por que algumas nações prosperam de forma consistente enquanto outras parecem presas em ciclos de estagnação? Essa é uma das perguntas mais antigas e importantes da economia. As respostas do senso comum geralmente apontam para recursos naturais, cultura ou simplesmente “trabalhar mais”. Mas a realidade, como mostram décadas de estudos sobre desenvolvimento, é muito mais complexa e, muitas vezes, contraintuitiva.

Este artigo explora quatro ideias poderosas da economia do desenvolvimento que desafiam o pensamento convencional. Elas revelam armadilhas ocultas e estratégias surpreendentes que ajudam a explicar a grande divisão entre países ricos e pobres. Entender esses conceitos não é apenas um exercício acadêmico; é fundamental para enxergar com mais clareza os caminhos que levam à prosperidade duradoura.


  1. Ter Riqueza Natural Demais Pode Ser uma Armadilha

A primeira ideia surpreendente desafia uma das nossas intuições mais básicas: e se a maior bênção de um país, sua riqueza natural, for também a sua maior armadilha? A economia chama esse fenômeno de “Doença Holandesa”, um conceito que explica como um boom de recursos pode, paradoxalmente, sufocar o desenvolvimento industrial.

O mecanismo é simples e poderoso. A exploração de um recurso valioso, como petróleo ou minério, gera uma entrada maciça de moeda estrangeira. Esse fluxo valoriza a moeda local, tornando os produtos fabricados no país mais caros para o resto do mundo. Ao mesmo tempo, os produtos importados ficam mais baratos para os consumidores locais, minando a competitividade da indústria nacional.

O economista Max Corden descreveu dois efeitos centrais. O “efeito gasto” acontece quando a nova riqueza aumenta a demanda interna, elevando os preços de serviços que não podem ser importados (como construção) e reforçando a valorização da moeda. Já o “efeito de deslocamento de recursos” ocorre quando capital e mão de obra migram da indústria para o setor extrativo em alta, deixando a manufatura sem investimentos e talentos.

Como aponta o economista Bresser-Pereira, esse problema pode se tornar crônico e não apenas episódico. Ele é frequentemente sustentado por coalizões políticas e econômicas que se beneficiam de importações baratas, criando uma economia de “consumo forte e produção fraca”. Assim, a aparente sorte dos recursos se transforma em uma armadilha que desindustrializa a economia e aprofunda a dependência de commodities.

  1. Desindustrializar Antes da Hora é um Caminho para a Estagnação

O senso comum diz que o progresso é linear: da agricultura para a indústria e, finalmente, para os serviços. Mas o que acontece se um país “pular” a etapa mais importante desse processo? Esse é o perigo da “desindustrialização precoce”, um fenômeno que interrompe o principal motor histórico do desenvolvimento.

É crucial distinguir os dois tipos de desindustrialização. Em países ricos e maduros, a indústria perde participação para serviços sofisticados e de alta produtividade, como engenharia, software e finanças produtivas. Isso é um sinal de avanço. O problema, apontado por economistas como Rowthorn, é quando países de renda média perdem sua base industrial e a mão de obra migra para serviços de baixa produtividade, como o comércio informal. Essa é uma transição regressiva.

Outros pensadores aprofundam essa análise. José Gabriel Palma argumenta que o mundo se dividiu em trajetórias distintas: alguns países conseguem sofisticar sua indústria, enquanto outros, muitas vezes vitimados por booms de commodities, regridem. Fiona Tregenna, por sua vez, adiciona uma camada de nuance, mostrando que o importante não é apenas o “tamanho” da indústria, mas sua qualidade e densidade tecnológica.

Os gatilhos para essa armadilha costumam ser uma combinação fatal: valorização da moeda, booms de commodities e uma abertura comercial abrupta. A indústria local, ainda em desenvolvimento, não consegue competir e encolhe. O país perde complexidade, capacidade de inovar e de exportar bens de maior valor, ficando preso em uma trajetória de baixo dinamismo.

  1. O Segredo Não é Produzir Mais, e Sim Coisas Mais Complexas

Imaginamos o desenvolvimento como um processo de simplesmente produzir mais. Mas uma ideia revolucionária de Ricardo Hausmann e César Hidalgo vira essa lógica de cabeça para baixo: o que realmente importa é a “complexidade econômica”. A prosperidade não está ligada à quantidade, mas à sofisticação do que um país consegue fazer.

A premissa é que a cesta de produtos que uma nação exporta funciona como um espelho de seu conhecimento produtivo coletivo — o “saber fazer”. Uma economia complexa não é apenas diversificada (produz muitas coisas), mas também sofisticada (produz coisas que poucos países conseguem fazer).

Para entender por que isso é tão difícil, Hausmann e Hidalgo usam uma poderosa metáfora visual: a estrutura produtiva de um país é como uma “árvore”. Cada produto é uma folha, e os produtos que exigem capacidades semelhantes ficam em galhos próximos. Países que já sabem fazer certos produtos conseguem se mover mais facilmente para os “vizinhos”, mais complexos. Aqueles com poucas capacidades ficam presos em galhos isolados, com poucas opções de avanço.

Esse conhecimento produtivo é em grande parte tácito: não está em manuais, mas nas rotinas das empresas e na experiência dos trabalhadores. Ele precisa ser construído com tempo e estratégia. Essa ideia muda o objetivo do desenvolvimento: em vez de “crescer a qualquer custo”, o foco deve ser “construir capacidades produtivas sofisticadas e diversificadas”.

  1. O “Milagre” Não é Mágico: a Diferença Entre Sucesso e Fracasso é a Estratégia

O contraste entre o “Milagre do Sudeste Asiático” e o “Atraso da América Latina” no pós-guerra oferece a lição mais contundente: o desenvolvimento não é fruto de sorte ou recursos naturais, mas de estratégia deliberada e consistente.

Enquanto os países asiáticos impunham uma disciplina de exportação para forçar a eficiência e o aprendizado tecnológico, a América Latina sofria com políticas industriais frágeis e descontínuas, que mudavam a cada ciclo político e não conseguiam construir capacidades de forma sistemática.

Enquanto a Ásia praticava uma gestão cambial pragmática para manter a competitividade e evitar a apreciação da moeda, a América Latina era repetidamente vitimada pela valorização cambial causada pelos ciclos de commodities, um sintoma crônico da doença holandesa que sabotava a indústria.

E enquanto os países asiáticos contavam com um Estado ativo e pragmático que coordenava o processo e investia massivamente em capital humano, a América Latina convivia com uma instabilidade macroeconômica crônica, com crises de dívida e inflação que destruíam a previsibilidade para investimentos de longo prazo.

A lição é clara. O sucesso asiático não foi um acidente, assim como o atraso latino-americano não foi um destino. Como resume a análise comparada, a dificuldade da América Latina em convergir resulta da combinação de instabilidade macroeconômica, volatilidade externa, políticas industriais frágeis e dependência de commodities. O desenvolvimento é uma construção deliberada.


Conclusão: Um Novo Mapa para a Prosperidade

O caminho para a riqueza das nações é muito mais sinuoso e cheio de armadilhas do que parece. A prosperidade não brota espontaneamente de recursos naturais nem de uma simples abertura de mercados. Ela é construída sobre alicerces sólidos de conhecimento produtivo, estratégia industrial e instituições eficazes.

Entender por que a abundância pode ser uma maldição, por que perder a indústria cedo demais é perigoso e por que a complexidade é mais importante que o volume é crucial para desenhar políticas públicas que realmente funcionem. Essas ideias nos oferecem um mapa mais preciso para navegar os desafios do desenvolvimento.

Diante dessas lições, qual caminho nosso país está realmente seguindo e o que podemos fazer para mudar o rumo?

FONTE: https://www.paulogala.com.br/ideias-que-explicam-por-que-alguns-paises-ficam-ricos-e-outros-nao/