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Inflação americana rompe a barreira dos 4% e amarra as mãos do Fed; Brasil sente o efeito colateral

Inflação norte-americana acima de 4% pressiona o Fed, fortalece o dólar e aumenta os riscos para os juros e os preços no Brasil.

A inflação ao consumidor nos Estados Unidos voltou a acender o sinal de alerta. O CPI fechado de maio, divulgado nesta quarta-feira, veio em linha com o esperado, mas trouxe pouco alívio: alta de 0,5% na comparação mensal e de 4,2% no acumulado em doze meses. É a primeira vez em três anos que a inflação americana rompe a barreira dos 4% — o pior momento inflacionário desde a pandemia de Covid. Não por acaso, o gráfico da escalada de preços estampou a capa do New York Times, retrato do nível de preocupação que o tema voltou a despertar.

O grande vilão do mês foi a energia, refletindo a disparada do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio. O choque energético respondeu por boa parte da alta e contaminou mais de 60% dos itens do indicador, evidenciando um movimento de elevação generalizada de preços.

Houve, contudo, uma notícia positiva: o núcleo da inflação — que exclui alimentos e energia — subiu 0,2% no mês, abaixo dos 0,3% esperados, e roda entre 2,8% e 2,9% ao ano, dependendo do arredondamento. A surpresa favorável veio da queda nos preços de seguros de automóveis e da deflação em alguns bens, como medicamentos e móveis. Na contramão, o custo de habitação voltou a acelerar, puxado principalmente pelos aluguéis, que sobem cerca de 3,4% na comparação anual. O movimento de desinflação dos aluguéis que vinha sendo observado, portanto, ficou para trás.

Com os preços acelerando e os salários nominais sem acompanhar a alta de 4,2%, o salário real do trabalhador americano está sendo corroído — perda de poder de compra que tende a pesar sobre o consumo e sobre o humor político.

O dado deixa o banco central americano em situação bastante desconfortável às vésperas da reunião da semana que vem, a primeira sob a nova presidência de Kevin Warsh. Com a inflação rodando a 4,2% e estampando manchetes, está claro que não há espaço para corte de juros agora. O debate sobre o segundo semestre está aberto — e já há quem aposte em alta de juros nos Estados Unidos por conta do choque do petróleo. Donald Trump, que pressiona por juros mais baixos, dificilmente está satisfeito com o resultado de todo o desdobramento do conflito no Oriente Médio. Amanhã sai o PPI, o índice de preços ao produtor, que dará mais pistas sobre a dinâmica inflacionária americana.

Do lado de cá, o quadro não é melhor. O IPCA também acelerou e já acumula alta superior a 3% antes mesmo da metade do ano. E agora com um agravante: a volta do fortalecimento do dólar no mundo, alimentado pela perspectiva de eventual alta de juros nos Estados Unidos. O real se desvaloriza e desaparece aquela “ajudinha” que a apreciação cambial vinha dando ao Banco Central no controle da inflação.

A combinação é explosiva: economia aquecida — mais forte do que se imaginava, com crescimento de 1,1% no primeiro trimestre —, desemprego na mínima histórica de três décadas, choque do petróleo se espalhando pelas cadeias produtivas e, por cima de tudo, desvalorização cambial. O efeito sobre a inflação é evidente. Dificilmente o Brasil terá inflação abaixo de 5% neste ano — patamar que, aliás, já está incorporado nas expectativas do Relatório Focus, com as projeções para horizontes mais longos, até o fim de 2027, rodando acima da meta de 3%.

A curva de juros já precifica o fim do ciclo de corte na reunião da semana que vem. A dúvida é se vem um último ajuste de 0,25 ponto ou se a Selic para onde está. Não acredito em alta de juros no Brasil, mas o cenário mais provável é de juro parado pelo menos até o fim do ano.

Moral da história: inflação muito alta e acelerando nos Estados Unidos, com reflexos diretos sobre o Brasil. Amanhã tem PPI americano.

FOTO: MARCELLO CASAL JR / AGÊNCIA BRASIL

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/inflacao-americana-rompe-a-barreira-dos-4-e-amarra-as-maos-do-fed-brasil-sente-o-efeito-colateral