Experiência do comércio global mostra que improviso custa caro: quem dispensa inteligência estratégica perde margem de manobra e, no fim, aí Inês é morta.
Há um dado que deveria ser repetido nas salas de conselho, nos gabinetes ministeriais e nas redações: em 2024, o comércio mundial de bens e serviços alcançou US$ 32,2 trilhões, com alta de 4% em relação ao ano anterior; serviços já respondem por 27,2% desse total, a maior fatia desde 2005. Mais um pouco e teremos os dados de 2025. A economia global virou um sistema nervoso exposto: qualquer choque numa ponta — tarifa, sanção, bloqueio logístico, crise política — provoca espasmos no corpo inteiro.
É nesse terreno, mais elétrico que estável, que a inteligência estratégica deixa de ser luxo e vira equipamento de segurança.
O que ela é, afinal, fora do jargão?
Um método para transformar fatos dispersos em decisão com lastro. Inclui análise de conjuntura, leitura de cenários, levantamento de dados e indicadores, produção de conteúdo que não confunde opinião com evidência e, sobretudo, monitoramento do processo decisório — Legislativo, Executivo, reguladores. Em linguagem direta: é o que impede que organizações caminhem de olhos fechados até a beira do precipício.
Os números ajudam a entender por quê.
A Organização Mundial do Comércio projetou desaceleração do volume do comércio de mercadorias em 2025, após 2,8% em 2024; em outubro de 2025, a OMC estimou crescimento de 2,4% em 2025 e apenas 0,5% em 2026, sob o peso de tensões geoeconômicas e incertezas de política comercial. O aviso mais duro veio quando a OMC alertou que a escalada tarifária anunciada pelos EUA poderia empurrar o comércio global de mercadorias a uma contração de 1%. Em tradução livre: o mundo pode encolher por decreto.
O Brasil vive essa interdependência com a pele exposta. Em 2024, exportou US$ 337 bilhões e importou US$ 262,5 bilhões, fechando superávit de US$ 74,6 bilhões — uma fotografia de potência comercial que, ao mesmo tempo, depende de rotas, preços e regras desenhadas fora do país.
Quando o vento muda em Washington, Bruxelas (i.e., União Europeia) ou Pequim, Brasília não sente “reflexos”: sente impacto.
A temporada 2025 das tarifas de Donald Trump funcionou como laboratório desse novo tempo. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA, desde o início do segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, Trump ampliou tarifas com base em diferentes instrumentos legais, incluindo a IEEPA e a seção 232, e a reação internacional incluiu retaliações. O “reciprocal tariff” foi formalizado por ordem executiva e publicado no Federal Register em abril de 2025, explicitando a arquitetura do movimento.
Três estudos de caso mostram, com nitidez jornalística, como a inteligência estratégica decide quem atravessa a crise e quem vira estatística.
O primeiro é Pequim.
Em maio de 2025, EUA e China fecharam uma trégua temporária para reduzir tarifas por 90 dias, numa tentativa de conter a espiral de punições e contra-punições. A resposta chinesa não foi uma bravata; foi engenharia de danos. Ao mesmo tempo em que negociava alívio, reorganizava cadeias, estimulava o frontloading de embarques e acelerava o redirecionamento de fluxos para outros mercados — um tipo de diplomacia comercial que combina análise de dados, leitura de risco logístico e coordenação estatal-empresarial. Não é “resiliência” no discurso; é cálculo: reduzir dependência de um único cliente e ganhar tempo para reconfigurar produção e destinos.
O segundo caso é o Brasil, atingido pelo desenho amplo das tarifas e, em especial, pelo nó do aço e do alumínio.
O Itamaraty registrou que a elevação tarifária dos EUA sobre esses produtos teria impacto relevante, lembrando que as exportações brasileiras de aço e alumínio para o mercado americano somaram cerca de US$ 3,2 bilhões em 2024. Em fevereiro de 2025, Lula sinalizou resposta por vias comerciais, mencionando a possibilidade de acionar a OMC ou taxar importações dos EUA — uma escolha típica de quem precisa manter dois instrumentos em mãos: o jurídico e o retaliatório. Em abril, o governo promulgou uma Lei de Reciprocidade Econômica, apresentada como reação estratégica a restrições unilaterais, estabelecendo base legal para contramedidas. Em julho, diante da ameaça de tarifa de 50% sobre exportações brasileiras, a estratégia combinou negociação preventiva e preparação para reciprocidade like-for-like, com o vice-presidente Geraldo Alckmin defendendo acordo antes do prazo de entrada em vigor. Aqui, a inteligência estratégica aparece como governança: monitorar sinais, construir arcabouço legal, mapear setores vulneráveis e manter a porta do diálogo aberta sem entrar desarmado.
O terceiro caso é a União Europeia, que tratou a ofensiva tarifária como tema de soberania econômica.
Em março e abril de 2025, Bruxelas anunciou contramedidas bilionárias sobre bens americanos, calibradas para pressionar politicamente e reduzir dano interno — tarifas que miravam produtos simbólicos e setores sensíveis, em etapas. Em paralelo, cresceu o debate sobre o uso do Anti-Coercion Instrument, mecanismo em vigor desde 2023 para responder à coerção econômica com medidas que vão além de tarifas, incluindo restrições em serviços e compras públicas. E a Europa não ficou só no contra-ataque: intensificou a diversificação via acordos comerciais, acelerando frentes com a Índia e reforçando o tabuleiro de parcerias para diminuir a exposição ao risco americano.
Há um traço comum nos três: inteligência estratégica não é “achar caminhos”, é construir opções antes que a crise dite a única saída.
Ela se alimenta de dados, mas não se ajoelha diante deles; transforma números em narrativa causal, e narrativa em plano.
Num planeta em que tarifas podem reescrever cadeias produtivas de uma semana para outra, o improviso custa caro — e, quase sempre, custa em silêncio: empregos que somem, investimentos que migram, reputações que racham.
Para o Brasil, a lição é concreta. Um país que exporta US$ 337 bilhões num ano não pode tratar monitoramento institucional, análise de cenários e gestão de risco regulatório como burocracia.
Inteligência estratégica é o nome técnico do instinto de preservação — aplicado com método, ética e visão de futuro.
FOTO: Fotos Publicas
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/inteligencia-estrategica-e-o-nome-tecnico-do-instinto-de-preservacao