Cientista político afirma que guerra contra o Irã enfraqueceu a posição dos EUA e ampliou o poder de negociação de Teerã.
247 – A guerra iniciada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã terminou produzindo o efeito oposto ao pretendido por Washington. Essa é a avaliação do cientista político John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, em entrevista ao programa Judging Freedom, apresentado pelo juiz Andrew Napolitano. Ao analisar os desdobramentos do conflito, Mearsheimer sustenta que o presidente Donald Trump não alcançou nenhum dos objetivos estratégicos estabelecidos no início da campanha militar e ainda deixou os Estados Unidos em uma posição mais frágil nas negociações com Teerã.
Segundo o professor, a Casa Branca entrou na guerra com quatro metas centrais: promover uma mudança de regime no Irã, interromper definitivamente o programa iraniano de enriquecimento de urânio, eliminar a capacidade de produção de mísseis de longo alcance e acabar com o apoio de Teerã a grupos como Houthis, Hezbollah e Hamas. Para Mearsheimer, nenhuma dessas metas foi atingida.
“Trump falhou em todos os seus objetivos.”
Na avaliação do acadêmico, os resultados concretos da guerra apontam justamente na direção oposta. Ele afirma que o Estreito de Ormuz passou a ser controlado pelo Irã, que bases militares americanas instaladas no Golfo sofreram danos significativos e que a estrutura de alianças construída pelos Estados Unidos com as monarquias da região foi enfraquecida. Além disso, argumenta que a continuidade do conflito aumentou os riscos para a economia internacional e desviou recursos militares que Washington pretendia utilizar em sua estratégia de contenção da China no Indo-Pacífico.
Mearsheimer afirma que a condução da guerra também deteriorou a posição diplomática dos Estados Unidos. Segundo ele, Trump desperdiçou oportunidades sucessivas para encerrar o conflito quando ainda havia margem para um acordo considerado favorável por Washington.
O professor lembra que, após um cessar-fogo ocorrido em 8 de abril, seria possível negociar um entendimento com Teerã. Em vez disso, afirma, o governo americano optou por ampliar a pressão, impondo um bloqueio poucos dias depois. Posteriormente, quando um memorando de entendimento foi firmado em 17 de junho, Mearsheimer considera que esse documento oferecia uma nova oportunidade para encerrar a crise. Entretanto, segundo sua análise, o próprio governo americano rompeu o compromisso assumido, retomando as hostilidades no início de julho.
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Na visão do especialista, esse processo alterou profundamente o equilíbrio das negociações. Quanto mais tempo o conflito se prolonga, afirma, menor se torna a capacidade dos Estados Unidos de impor condições ao Irã.
Para Mearsheimer, os dirigentes iranianos perceberam que a continuidade da guerra reduz gradualmente o poder de coerção de Washington. Por essa razão, argumenta, Teerã não teria interesse em acelerar um acordo, preferindo prolongar as negociações para ampliar suas vantagens.
“Quanto mais a guerra continua, pior fica a posição de barganha dos Estados Unidos”, resume o professor ao explicar por que considera que Trump perdeu o momento político mais favorável para negociar.
Outro elemento destacado por Mearsheimer é a perda de credibilidade dos Estados Unidos como parceiro de negociações. O cientista político sustenta que o governo iraniano passou a considerar pouco confiáveis os compromissos assumidos por Trump, lembrando que o presidente já havia retirado os Estados Unidos do acordo nuclear firmado durante o governo Barack Obama e, agora, também abandonou o memorando de entendimento assinado em junho.
Segundo ele, essa percepção influenciará qualquer negociação futura. Em sua avaliação, os iranianos passarão a exigir benefícios concretos logo no início de um eventual novo acordo, evitando deixar concessões importantes para as etapas finais, por receio de que Washington volte a abandonar os compromissos assumidos.
Mearsheimer acredita que um dos principais pedidos iranianos será o desbloqueio de ativos financeiros mantidos no exterior. Ainda assim, afirma que Teerã deverá preservar como principal instrumento de pressão a negociação sobre seu programa nuclear. Na sua leitura, a liderança iraniana pretende manter essa questão para a fase final das tratativas, utilizando-a como elemento de barganha diante do interesse americano e israelense em firmar um novo acordo nuclear.
Ao longo da entrevista, o professor sustenta que o conjunto desses acontecimentos levou ao reconhecimento internacional de que Washington não conseguiu alcançar uma saída favorável para a guerra. Segundo ele, não existe uma estratégia capaz de reverter esse cenário militar e diplomático, e cada nova tentativa de prolongar o conflito apenas amplia as vantagens de negociação do Irã.
Na avaliação de Mearsheimer, a principal consequência da guerra foi transformar uma operação que pretendia ampliar a capacidade de pressão dos Estados Unidos em um processo que fortaleceu a posição estratégica de Teerã nas futuras negociações com Washington.
FOTO: DALL-e
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/john-mearsheimer-trump-falhou-em-todos-os-seus-objetivos/