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Jornalões dão um banho de loja em Flávio Bolsonaro

“Com a ajuda das corporações de mídia, o filho ungido começa a se firmar como o boneco playmobil da extrema direita”, escreve Moisés Mendes.

Eduardo vem se queixando do desprezo de Michelle, Nikolas e outros líderes da direita e da extrema direita pela pré-candidatura de Flávio a presidente. Poderia se queixar até do desprezo dos chefes do centrão.

Mas sabe que não há queixas, só há elogios à postura dos jornalões. Na semana passada, enquanto as corporações de mídia batiam em Lula, ainda por causa do desfile da Acadêmicos de Niterói, Flávio era transformado em estadista.

Nunca um bolsonarista havia conquistado o direito a tantas manchetes e chamadas de capa dos jornalões preocupados em trocar as vestes do candidato. Os jornais deram um banho de loja em Flávio.

O Estadão é o que mais se esforça. Essa manchete ficou durante sete horas e três minutos na capa do jornal na quinta-feira, dia 19, como se tivesse sido esquecida ali pelos editores: “Flávio Bolsonaro ajusta tom e faz acenos a LGBTs, negros e carnaval mirando o centro”.

Das 12h às 19h03min, os leitores ficaram sabendo que um Flávio moderado iria ajustar o tom. Mas tentar se aproximar da população LGBTQIA+, de negros e do carnaval é produzir uma reversão total do que a extrema direita prega e faz. Não é mudança de tom.

Uma manchete não fica sete horas na capa do site de jornal algum se não for sobre um fato excepcional. A manchete do Estadão era sobre o plano de uma farsa eleitoreira.

É preciso construir logo o candidato e apresentá-lo à sociedade, se Michelle, Nikolas, Ciro Nogueira, Kassab e Valdemar Costa Neto se fazem de desentendidos.

Todos se dedicaram a produzir fatos. No Globo, o colunista Fabio Graner avisou: “Flavio Bolsonaro começa a debater com PL programa econômico”. Ao lado de Vera Magalhães, que alertava: “Enquanto Lula samba, Flávio costura”.

Eliane Cantanhêde seguia no mesmo trote no Estadão: “Lula erra, Flávio cresce e pode ser o melhor candidato da direita”. Esse título do artigo da colunista virou manchete no site do grupo Brasilagro, da ultradireita ruralista, como se fosse um release distribuído pelo PL.

O mesmo Estadão manteve na capa durante todo o domingo mais este release: “Privatizações, ferrovias e presídios: o que Flávio Bolsonaro já propôs em 8 áreas”. Não há profundidade em nada. Mas há uma manchete.

A Folha, mais comedida, destacou no sábado: “Flávio atua para ter palanque com PL, candidato ao governo ou ao Senado, em todos os estados”. Enquanto continuava batendo em Lula e escondendo as notícias sobre as viagens do presidente à Índia e à Coreia do Sul.

Mais um pouco e Flávio será, como diria Eliane Cantanhêde, uma reinvenção do tucanismo cheiroso e bem alinhado, que sabia usar mocassim sem meia e, ao mesmo tempo, conversava com o povo de havaianas.

O esforço dos jornalões é para tirar do filho ungido a imagem de figura ligada ao submundo da política do dinheiro sujo, para que se pareça com uma criatura mais próxima de quem tem a imposição do suposto dinheiro limpo.

Saem as milícias de Rio das Pedras e entram os garotos da Faria Lima. Mostram que Flávio tem racionalidade e até programa de governo. Daqui a pouco terá o seu posto Ipiranga, que pode ser Paulo Guedes de novo, e aí o esquema estará fechado.

A velha direita faz curadoria para o fascismo e manda avisar pelos jornalões: fingimos exaustão na procura de uma alternativa, mas enfim nos entregamos e estamos submetidos ao destino que Flávio irá traçar para todos nós.

Não importam as questões menores para a direita, como as preocupações ambientais, a ameaça de sabotagem aos programas sociais mais básicos, a destruição do SUS e das universidades públicas. Tudo é assimilável.

O importante para a velha direita é ver Flávio hoje como a única chance de enfrentamento de Lula. O que chamavam antigamente de elite está dizendo pelos jornalões: parem de frescura, porque não há outra saída.

Esqueçam valores, abandonem discursinhos em defesa das mulheres e dos gays e encarem Flávio de roupa nova. Arranjem um Alckmin de vice e coloquem a escola de Bolsonaro na rua, com todas as latas das famílias, das fintechs, dos grileiros, das milícias e do que sobrou dos militares.

Vão mudar o penteado de Flávio, como fizeram com a franja de Tarcísio. Vão ajustar as ombreiras, livrá-lo dos cacoetes das falas do pai e prepará-lo para jantares com poderosos e até com entidades das minorias.

Flávio terá muito de Aécio e Serra, mesclado ao que já traz das suas raízes. Michelle e Nikolas irão aderir mais adiante, quando se acostumarem com o figurino, que foge um pouco do usual na extrema direita. É só ajustar o nó da gravata e a manga do paletó. Flávio é o boneco playmobil do bolsonarismo e da velha direita.

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/jornaloes-dao-um-banho-de-loja-em-flavio-bolsonaro