Mesmo alinhada aos Estados Unidos em temas de segurança e política, presidente eleita enfrenta a realidade de uma economia profundamente integrada ao comércio e aos investimentos chineses.
247 – A presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, deverá enfrentar um dos maiores desafios estratégicos de seu governo: administrar a pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para reduzir a influência da China na América Latina sem comprometer uma relação econômica considerada vital para o país andino. A análise foi publicada pela Bloomberg, uma das principais agências de notícias econômicas do mundo, que destaca o Peru como um dos principais campos da disputa geopolítica entre Washington e Pequim.
Segundo a reportagem, embora Fujimori seja vista como uma liderança conservadora próxima aos Estados Unidos e compartilhe afinidades políticas com a agenda de Trump em temas como segurança pública e combate ao crime organizado, sua margem de manobra é limitada pela realidade econômica peruana. A China consolidou-se nas últimas décadas como o principal parceiro comercial do Peru, destino da maior parte das exportações minerais do país e investidor relevante em infraestrutura, mineração, energia e logística. Um rompimento ou mesmo um distanciamento significativo teria elevado custo econômico.
A Bloomberg ressalta que a estratégia da Casa Branca busca reduzir a presença chinesa em setores considerados estratégicos na América Latina, como portos, mineração, telecomunicações e infraestrutura. Desde o retorno de Trump ao poder, Washington intensificou sua pressão diplomática sobre governos da região para limitar novos acordos com empresas chinesas, inserindo a competição com Pequim no centro da política hemisférica dos Estados Unidos.
No caso peruano, entretanto, essa estratégia encontra obstáculos concretos. O país tornou-se uma peça central da presença econômica chinesa na América do Sul. Empresas da China controlam importantes projetos de mineração de cobre — metal essencial para a transição energética global — além de participarem de investimentos em infraestrutura logística que ampliam o acesso dos produtos sul-americanos ao mercado asiático.
Analistas ouvidos pela Bloomberg avaliam que um eventual alinhamento automático às prioridades de Washington poderia comprometer investimentos, exportações e a estabilidade econômica do Peru. Por isso, a expectativa é que Fujimori procure preservar uma política externa pragmática, mantendo boas relações com ambos os polos da disputa internacional.
A própria configuração da economia peruana reforça essa necessidade. A China responde por parcela significativa das compras de cobre, zinco, ferro e outros minerais produzidos pelo país, enquanto empresas chinesas vêm ampliando sua presença em cadeias industriais estratégicas. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam sendo parceiro relevante em áreas como segurança, defesa, cooperação institucional e investimentos privados.
Especialistas observam que o dilema peruano reflete um fenômeno mais amplo na América Latina. Enquanto Washington procura recuperar influência política e estratégica sobre a região, Pequim consolidou uma presença econômica construída ao longo de mais de duas décadas, baseada em comércio, financiamento e investimentos de longo prazo. Diversos governos latino-americanos resistem à ideia de transformar essa competição em uma escolha exclusiva entre uma potência e outra.
A eleição de Fujimori ocorre ainda em um momento de reorganização política regional. Após uma disputa extremamente apertada, ela foi declarada vencedora da eleição presidencial peruana e assumirá o comando de um país que enfrentou anos de instabilidade institucional, sucessivas mudanças de governo e crescente preocupação da população com a criminalidade e a corrupção.
Para observadores internacionais, o governo Fujimori servirá como um importante teste da capacidade dos países latino-americanos de equilibrar interesses econômicos ligados à China com as crescentes pressões geopolíticas exercidas pelos Estados Unidos durante o segundo mandato de Donald Trump. O resultado dessa estratégia poderá influenciar não apenas o futuro da política externa peruana, mas também o posicionamento de outras economias da região diante da crescente rivalidade entre as duas maiores potências do mundo.
FOTO: Dikilucario
FONTE: https://www.brasil247.com/america-latina/keiko-fujimori-desafia-ofensiva-de-trump-contra-a-china-e-tenta-preservar-equilibrio-geopolitico-do-peru/