Em entrevista à TV 247, ele desmonta a ilusão do ‘milagre’ econômico paraguaio após o impeachment relâmpago de Santiago Peña.
247 — O colapso político que culminou na destituição sumária do presidente Santiago Peña por meio de julgamento político (juicio político) no Congresso de Assunção não representa um raio em céu azul. Trata-se, na realidade, da derrocada inescapável de um arranjo econômico artificialmente vendido ao mundo como modelo de eficiência. A avaliação contundente é do professor e economista Leonardo Trevisan (PUC-SP/ESPM), em análise aprofundada transmitida pela TV 247.
Para Trevisan, o caso paraguaio desmascara a narrativa de prosperidade incensada por publicações financeiras internacionais e por lideranças da extrema direita na América Latina, que apontavam o país vizinho como paraíso de desregulamentação, baixos tributos e segurança jurídica.
O colapso do Banco Ueno e o sequestro da economia real
O estopim para a queda fulminante de Peña foi a falência e intervenção no Banco Ueno (Uenobank), instituição financeira privada que havia passado por uma expansão meteórica e mantinha vínculos orgânicos com a cúpula do governo.
Trevisan destacou que a gravidade da crise decorre de seu impacto direto sobre o sustento imediato da classe trabalhadora paraguaia:
- População refém: Em um país de 7 milhões de habitantes, cerca de 2,9 milhões de pessoas eram correntistas do banco — o equivalente a mais de 40% de toda a população;
- Fundos previdenciários comprometidos: A instituição concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em créditos públicos e detinha cerca de 20% das reservas de fundos de aposentadoria de servidores e trabalhadores;
- Paralisia no consumo básico: Com o congelamento dos cartões de crédito e saldo das contas do banco — amplamente utilizados para compras com desconto em redes varejistas —, o comércio de alimentos despencou cerca de 70% em questão de dias, gerando desabastecimento familiar e protestos diários nas ruas.
“Essa crise pegou o dinheiro real das pessoas, a grana da feira e do supermercado que o cidadão simplesmente não consegue sacar. O Paraguai era apresentado pela imprensa liberal e pelas agências de risco como um ‘gigante em ascensão’, com grau de investimento. O problema de comprar essas análises de vitrine é que você não vê a estrutura: era sim um gigante, mas um gigante com pés de barro que quebrou e desmoronou na primeira turbulência”, enfatizou Trevisan.
Mão de obra vulnerável e porta giratória
Ao dissecar as bases do chamado “modelo paraguaio”, o economista pontuou que o atrativo aos capitais externos sempre se sustentou sobre alicerces perversos: renúncias fiscais extremas, ausência quase absoluta de direitos trabalhistas (inexistência de marcos regulatórios protetivos semelhantes à CLT brasileira) e exploração de uma juventude vulnerável, em um país onde dois terços da população têm menos de 35 anos.
A esse cenário somou-se a promiscuidade entre o setor público e a especulação financeira privada. Trevisan lembrou que o presidente do Banco Central do Paraguai nomeado por Peña havia saído diretamente da diretoria do próprio Banco Ueno pouco antes de assumir a autoridade monetária:
“É o clássico mecanismo de porta giratória, onde o regulador é sócio do regulado. Esse modelo econômico de Santiago Peña — um economista com passagem pelo FMI e visão subserviente ao capital financeiro — sempre termina do mesmo jeito: concentração brutal de riqueza na intermediação bancária e abandono da economia real.”
Guerra no Partido Colorado e a energia de Itaipu
Trevisan ressaltou que a derrocada de Peña também foi acelerada pela fratura entre grupos oligárquicos dentro do próprio governismo. De um lado, a ala ligada ao presidente destituído; do outro, o bloco sob a liderança do ex-presidente Horacio Cartes, verdadeiro operador hegemônico do Partido Colorado.
O pano de fundo da discórdia envolve cifras bilionárias e interesses geopolíticos em torno da energia excedente de Itaipu:
- Cobiça pelos Data Centers: A disputa pelo controle dos contratos de venda de energia barata para a instalação de megaestruturas de computação em nuvem e inteligência artificial de corporações norte-americanas acirrou a ganância entre os grupos de interesse;
- Subserviência estratégica: As negociações com Washington envolviam desde acordos militares para presença de tropas na Tríplice Fronteira até a cessão quase irrestrita da matriz energética nacional.
Com a votação de impeachment no Congresso, o poder foi assumido pelo vice-presidente Pedro Alliana, com movimentações para recompor a influência direta de Cartes no comando político do Estado.
“Como dizia Lampedusa em ‘O Leopardo’, eles operam para que tudo mude de aparência a fim de que tudo permaneça exatamente como está. Mas a revolta popular com o confisco dos seus rendimentos e a derrocada da matriz financeira abrem uma fenda inédita na estabilidade do regime paraguaio”, concluiu o professor.
FOTO: Governo do Estado de São Paulo
FONTE: https://www.brasil247.com/america-latina/leonardo-trevisan-crise-no-paraguai-expoe-a-farsa-do-modelo-neoliberal-e-o-colapso-de-um-gigante-com-pes-de-barro/