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Lições atemporais sobre fortuna, ganância e felicidade

O sucesso financeiro não é uma habilidade técnica, mas uma habilidade pessoal.

As principais ideias de Morgan Housel no livro A psicologia financeira: lições atemporais sobre fortuna, ganância e felicidade (RJ: Harper Collins Brasil, 2021) giram em torno da premissa de o sucesso financeiro ter menos a ver com a sua inteligência e muito mais a ver com o seu comportamento. Ele defende o lado psicológico e emocional ser mais importante diante o conhecimento técnico ou fórmulas matemáticas.

O sucesso financeiro não é uma habilidade técnica, mas uma habilidade pessoal. Um gênio ao perder o controle de suas emoções se torna um desastre financeiro, enquanto pessoas comuns, sem educação financeira formal, podem enriquecer se possuírem habilidades comportamentais adequadas.

O segredo de grandes fortunas, como a de Warren Buffett, não é apenas a habilidade de investir, mas a longevidade. A mente humana tem dificuldade em compreender o pensamento exponencial: Buffett ganhou 99% de sua riqueza após os 50 anos, simplesmente porque investia desde os dez anos de idade.

Um bom investimento é aquele possível de ser mantido e repetido por um longo período. Permite a composição da carteira de ativos, seja em renda fixa com juros compostos, seja em renda variável como reinvestimentos de dividendos distribuídos, fazer o trabalho pesado.

Existem muitas formas de ficar rico, mas apenas uma de continuar rico: um misto de frugalidade e paranoia. Ganhar dinheiro, nos Estados Unidos, exige correr riscos no mercado de ações, e ser otimista, mas mantê-lo exige humildade e o medo de aquilo conquistado ser tirado rapidamente.

No Brasil, a magia dos juros compostos se alia ao poder do tempo, isto é, ao longo prazo de investimentos mensais contínuos em 100% do CDI. A sobrevivência financeira é a base fundamental de qualquer estratégia de longo prazo.

A distinção entre ser rico (ter rendimentos altos) e ser afortunado (ter ativos de reserva não gastos) é crucial. Gastar dinheiro para mostrar às pessoas quanto dinheiro você tem é a forma mais rápida de ter menos dinheiro. A verdadeira fortuna reside na opção e flexibilidade de não comprar algo hoje para ter mais opções no futuro.

A forma mais elevada de riqueza é a possibilidade de acordar todo dia e dizer: – Eu posso fazer o que quiser hoje sem problema de falta de dinheiro.

Este é mais valioso quando é usado para comprar tempo livre e liberdade de escolha. Este é o maior combustível universal da felicidade.

Nada é tão bom nem tão ruim quanto parece, pois todo resultado é influenciado por forças externas, além do esforço individual: a sorte e o risco. Por isso, é vital ter uma margem para imprevistos, ou seja, uma margem de segurança. Essa margem permite você sobreviver, em um mundo governado por probabilidades, garantindo um erro ou revés não o tirar permanentemente do jogo financeiro.

Cada pessoa toma decisões financeiras com base em suas experiências pessoais únicas. Elas moldam sua visão de mundo.

A aparentemente loucura para um investidor (como comprar bilhetes de loteria ou vender ações na crise) pode fazer sentido para outro. Depende de sua história de vida e necessidades imediatas.

Tentar ser puramente racional (como uma planilha) é difícil de sustentar. É mais eficaz ser razoável, adotando estratégias capazes de permitirem você dormir em paz à noite e conseguir manter no longo prazo, mesmo caso não sejam as opções matematicamente ideais.

Para ilustrar a força do tempo, Housel utiliza o exemplo do crescimento de uma árvore. Plantar um carvalho não traz muito progresso, em um ano, mas em cinquenta anos pode criar algo extraordinário, se ele sobreviver aos altos e baixos do clima.

Embora Morgan Housel utilize o mercado americano e sua história econômica como base para a maioria de seus exemplos, as ideias centrais de A Psicologia Financeira referem-se a habilidades comportamentais e verdades universais. Elas se aplicam a qualquer investidor, inclusive ao brasileiro no mercado de renda fixa.

Os conceitos dele se conectam tanto ao contexto americano quanto à realidade de outros mercados porque, tal como a Medicina, a especialização em Finanças exige uma interação única com “o paciente” ou “o cliente”. Ele afirma explicitamente: “existem verdades universais relacionadas ao dinheiro”, independentemente de como as pessoas decidem aplicá-las às suas próprias finanças pessoais. Assim, enquanto ele cita o S&P 500 ou o plano 401(k) para ilustrar pontos, a lógica de fundo — como o medo, a ganância e a paciência — é inerente à natureza humana.

O Investidor é um ser humano, não uma planilha. O objetivo não deve ser “friamente racional”, mas sim “razoável”.

Para um investidor no Brasil, onde os juros reais são elevados, pode ser “racional” (matematicamente ideal) buscar maximizar o retorno (e minimizar o risco), aplicando também em renda variável, compondo uma carteira de ativos diversificada. No entanto, se a volatilidade o impede de dormir em paz, é mais razoável focar na renda fixa pós-fixada de modo a garantir tranquilidade.

Housel inclusive confessa ele próprio tomar decisões “indefensáveis na teoria de portfólio”, como quitar a casa própria ou manter muito dinheiro em caixa. Faz isso apenas para manter sua independência e paz de espírito.

Ele dedica um capítulo inteiro à ideia de “ninguém é maluco”, pois cada pessoa toma decisões com base em suas experiências únicas. Quem cresceu em épocas de inflação alta (uma realidade histórica marcante no Brasil) possui uma visão de risco e de títulos de dívida completamente diferente daquelas pessoas habitantes em país com longos períodos de estabilidade inflacionária.

Portanto, a psicologia financeira de um brasileiro ao priorizar a renda fixa, devido ao histórico de juros altos e instabilidade inflacionária, é perfeitamente válida dentro da lógica de Housel. Afinal, ele está jogando um “jogo diferente”, baseado em sua própria realidade e horizonte de tempo.

Independentemente do ativo (ações americanas ou Tesouro Selic), o sucesso vem da sobrevivência e da longevidade. A composição (juros compostos) é a força mais poderosa nos investimentos em longo prazo e só funciona se você não “interrompê-la desnecessariamente”.

Para o investidor brasileiro, o “preço” a ser pago pelo sucesso pode não ser a volatilidade extrema das ações com ganhos e perdas de capital, mas sim a disciplina de manter o capital investido em longo prazo. Necessita resistir à tentação de gastar ou de mudar de estratégia a cada oscilação política ou econômica.

A ideia de o maior dividendo do dinheiro ser o controle sobre o próprio tempo é uma premissa universal. Se a renda fixa brasileira com juros reais elevados permite o investidor atingir sua independência financeira, de forma mais segura e rápida, isso está totalmente alinhado com a psicologia financeira exposta por Housel, porque prioriza o uso do dinheiro para comprar autonomia e flexibilidade.

Tecnicamente, o Brasil é conhecido como “o paraíso dos rentistas” devido aos juros historicamente altos. Embora não mencione especificamente o Brasil ou taxas como a Selic e o IPCA+, a filosofia de Housel de “minimizar o arrependimento” em vez de “maximizar o retorno” sugere aproveitar taxas elevadas e seguras ser uma estratégia psicologicamente superior se ela mantiver o investidor fiel ao seu plano de longo prazo.

A psicologia financeira é como a gravidade: ela funciona da mesma forma se você estiver em Nova York ou em São Paulo, embora os objetos (os ativos financeiros) vistos por você vê, caindo ao seu redor, possam ser diferentes.

Foto: Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/licoes-atemporais-sobre-fortuna-ganancia-e-felicidade