Economista vê acordo Mercosul-União Europeia como derrota e cobra governo Lula mais ousado na economia, na política externa e na disputa com a direita.
247 – O economista Paulo Nogueira Batista Jr. avalia que um eventual quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o “Lula 4”, só fará sentido se for mais ousado e transformador do que o atual governo. Em longa conversa, ele critica o que chama de “apequenamento” das ambições nacionais, denuncia a infiltração de quadros neoliberais na máquina pública e alerta que o Brasil corre o risco de “celebrar derrotas” em temas centrais como o acordo Mercosul–União Europeia e a política de reindustrialização.
As declarações foram dadas em entrevista à TV 247. A conversa parte da recente passagem de quase dois meses do economista por Rússia e China e se estende para uma análise dura do governo Lula, da disputa geopolítica entre Ocidente e mundo emergente e do cenário político brasileiro após a prisão de Jair Bolsonaro.
Multipolaridade e a cisão entre “dois mundos”
Recém-chegado de três semanas na Rússia e quatro na China, Paulo Nogueira Batista Jr. relata que a viagem combinou turismo e trabalho, mas serviu sobretudo para aprofundar contatos com dirigentes, acadêmicos e participantes de fóruns internacionais sobre o Sul Global, BRICS e o novo sistema financeiro. Ele lembra que, de Moscou a Pequim, a percepção predominante é de que a ordem internacional está se reorganizando em direção à multipolaridade — e que o Ocidente resiste a essa mudança.
O economista resume o clima de divisão com uma imagem que ouviu de um interlocutor na China. Segundo ele, “o mundo está dividido em dois tipos de pessoas, os que usam WeChat e os que usam WhatsApp”. A metáfora, explica, sintetiza a distância entre o campo ocidental e o bloco liderado por China e Rússia, que, em sua visão, “não se entendem” e tampouco mostram disposição real de acomodar a ascensão dos países emergentes.
Resistência dos EUA e da Europa ao mundo emergente
Na leitura de Paulo Nogueira Batista Jr., a raiz da crise atual está na dificuldade dos Estados Unidos e de países europeus em aceitar a ascensão da China e de outras economias do Sul Global. Ele afirma que as potências ocidentais tentam congelar o sistema internacional nas estruturas do século 20, que elas mesmas criaram e controlam, do FMI ao Banco Mundial e aos mecanismos tradicionais de coordenação econômica.
Essa postura, diz, torna o planeta “mais instável, menos próspero do que poderia ser”, ao bloquear reformas em instituições desatualizadas e agravar tensões comerciais, financeiras e militares. Para ele, a recusa em reconhecer o peso do mundo emergente alimenta uma espécie de guerra fria difusa, que dificulta acordos estruturais em temas como clima, financiamento ao desenvolvimento e governança financeira global.
Trump, multilateralismo esvaziado e impasses nas cúpulas globais
Questionado sobre a ausência dos Estados Unidos na COP 30 e em fóruns como o G20, Paulo Nogueira Batista Jr. vê uma continuidade na postura de Donald Trump, que, segundo ele, despreza mecanismos multilaterais e prefere negociar de forma bilateral, “isolando cada país” para maximizar poder de barganha. Na sua avaliação, o G20 já vinha paralisado e tende a se esvaziar ainda mais diante da retração das grandes potências.
Ele também descreve a COP como um evento de “muito discurso e poucos resultados práticos”, o que reforça a sensação de que o multilateralismo está em crise. Ao comentar a decisão de Washington de reduzir parte das tarifas impostas ao Brasil, o economista classifica o episódio como “vitória parcial”, destacando que ainda permanece uma parcela relevante de sobretaxas. Na sua leitura, o recuo norte-americano pode ser fruto tanto de pressões brasileiras quanto do impacto dessas tarifas sobre o consumidor dos EUA — “provavelmente uma combinação das duas coisas”.
Ao mesmo tempo, debates recentes no Brasil sobre usar instrumentos fiscais contra grandes plataformas digitais, em reação a medidas econômicas vindas de Washington, mostram que o governo dispõe de alternativas para responder a pressões externas, como no caso da proposta de taxar publicidade de big techs em resposta a tarifas norte-americanas.
Acordo Mercosul–União Europeia: “celebração da derrota”
Um dos pontos em que o economista é mais contundente diz respeito ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que o presidente Lula tem chamado de “maior acordo comercial do mundo”. Paulo Nogueira Batista Jr. discorda frontalmente dessa avaliação e afirma que “tamanho não é documento”: a questão central, sublinha, é saber se o acordo é favorável ou não ao Brasil e aos vizinhos do Mercosul.
Ele repete algo que, segundo relata, já disse diretamente ao próprio presidente: o texto negociado “não traz nenhuma vantagem significativa para o Brasil e traz custos importantes” para a indústria e para a capacidade do Estado de conduzir a política econômica. Entre os riscos, cita a abertura do mercado brasileiro à concorrência de grandes corporações europeias, a perda de instrumentos para tributar exportações de produtos críticos e as limitações adicionais à política industrial.
Sobre o acesso de produtos agropecuários do Mercosul ao mercado europeu, o economista observa que as concessões são “pequenas e precárias” e podem ser revertidas com base em cláusulas ambientais. Daí a conclusão dura: “francamente, eu acho que foi uma demonstração de incompetência da política externa brasileira essa negociação”. Para ele, Lula teria cometido o erro de apostar num acordo “desigual, herdado do governo Bolsonaro”, mantendo apenas mudanças marginais no arcabouço original.
Reindustrialização e o risco de abrir o mercado em plena crise global
Ao ser perguntado se o acordo é compatível com um projeto de reindustrialização, Paulo Nogueira Batista Jr. é categórico: “ele é contraditório com o projeto de reindustrialização, porque não há reindustrialização possível com a economia aberta amplamente”. Ele lembra que as grandes nações industrializadas não praticam hoje mercados totalmente abertos e alerta que, se o Brasil avançar em liberalizações unilaterais, acabará absorvendo excedentes industriais de países que perderem espaço em outros mercados.
O economista enxerga um padrão em vários compromissos comerciais firmados ou em negociação, muitos deles, afirma, herdados do governo anterior. Na sua visão, o Brasil estaria “desaprendendo” lições clássicas do desenvolvimentismo latino-americano, que sempre combinaram proteção estratégica, política industrial ativa e construção gradual de competitividade.
Nesse ponto, as críticas convergem com reflexões de outros especialistas que veem na atual política econômica uma combinação de compromissos sociais com amarras neoliberais, especialmente na política fiscal e nos limites impostos por uma coalizão heterogênea e por um Estado redesenhado desde as reformas dos anos 1990.
China como laboratório da “industrialização verde”
Da experiência recente em Pequim e Xangai, o ex-diretor do FMI destaca mudanças visíveis na qualidade do ar e no ambiente urbano: ruas mais silenciosas, frota de veículos elétricos dominante e queda nítida da poluição em comparação a oito ou dez anos atrás. Ele observa que a China hoje vende mais carros de “nova energia” do que de motores tradicionais, apoiada por uma política industrial agressiva voltada a painéis solares, baterias e veículos elétricos.
Para o Brasil, sua recomendação é clara: mais do que discursos em cúpulas climáticas, o país deveria “pegar experiências boas no Japão, na China, em outros países” no combate à poluição urbana e adaptá-las em cooperação com esses parceiros. Ele lembra que Tóquio, por exemplo, tinha ar “péssimo” nos anos 1970 e hoje exibe índices de qualidade muito superiores, o que reforça a ideia de que políticas ambientais bem desenhadas podem impulsionar novas cadeias industriais.
Presidências de G20, BRICS e COP: oportunidade perdida
Paulo Nogueira Batista Jr. lamenta que o Brasil, mesmo presidindo G20, BRICS e COP em sequência, não tenha logrado resultados “apreciáveis” em nenhuma dessas frentes. Para ele, isso revela um Itamaraty “desaparelhado” para sustentar uma política externa verdadeiramente criativa e ambiciosa.
No caso específico dos BRICS, ele considera que a presidência brasileira foi inferior à russa em termos de ativismo e proposição de agendas estruturais. Temas como reforma do sistema monetário internacional, criação de novos sistemas de pagamento e até uma nova moeda de reserva para o bloco teriam ficado travados. O economista atribui parte desse recuo ao medo gerado pelas ameaças de Donald Trump, que, segundo ele, fez “muita gente no governo brasileiro correr para baixo da cama”, com exceção do próprio Lula, que se manteve publicamente a favor de uma moeda de reserva alternativa ao dólar.
Crescimento medíocre, Banco Central e “time na retranca”
Na avaliação de Paulo Nogueira Batista Jr., o Brasil vive um rebaixamento crônico de expectativas desde o governo Fernando Henrique Cardoso, aprofundado nos anos recentes. O país teria se acostumado a pensar “em termos acanhados”, achando satisfatório crescer 2,5% ou 3% ao ano.
Ele critica com dureza o papel de economistas que, apoiados em estimativas de “produto potencial”, naturalizam taxas de crescimento baixas e apresentam cálculos frágeis como se fossem verdades técnicas. Para o economista, o governo Lula atual “não saiu desse lamaçal”. Ele afirma que o Banco Central “continuou do jeito que estava”, a Fazenda tem “poucos quadros e muitos problemas” e que tanto o Ministério da Fazenda quanto o Itamaraty estariam “infiltrados de neoliberais”.
Essa visão dialoga com análises que apontam a presença simultânea de políticas sociais ambiciosas e de um arcabouço fiscal conservador, num cenário em que a autonomia do Banco Central e a pressão dos mercados limitam a capacidade do governo de romper com o legado das reformas liberais.
Em tom futebolístico, Paulo compara o Brasil a um time que tem “um veterano centroavante, experiente, muito bom jogador”, mas recuado, sem que a bola chegue ao ataque porque o restante da equipe joga para não perder. Segundo ele, o governo estaria “na retranca”, às vezes “jogando para não perder de muito”, o que aumenta o risco de “gol contra” em decisões estratégicas.
Lula 3, irritação e a aposta num Lula 4 mais ousado
Perguntado se teria “perdido a paciência” com o governo, o economista admite certa irritação, que atribui em parte ao contraste com a experiência chinesa — um país que, em sua leitura, “conhece os próprios interesses, sabe se defender e sabe atacar”. Ele diz que declarações de Lula sobre o acordo Mercosul–União Europeia, apresentando-o como grande vitória, o incomodam especialmente, por representarem, a seu ver, uma “celebração da derrota”.
Ainda assim, Paulo Nogueira Batista Jr. ressalta que continua sendo um “claro e enfático eleitor de Lula” e promete “cavar votos” para o presidente, dentro de suas possibilidades. A diferença, afirma, é que vê no eventual “Lula 4” a última chance de o líder petista mostrar plenamente a que veio: “Lula 4 será o último Lula. Ele aí vai ter que mostrar a que veio, não vai terminar o seu último mandato melancolicamente, arrastando o país num crescimento medíocre”.
Essa tensão entre apoio crítico e cobrança por mais ousadia se articula com leituras que indicam Lula como favorito na disputa presidencial, mas num cenário em que pesquisas de opinião também funcionam como instrumentos de narrativa e reposicionamento de atores como Tarcísio de Freitas, frequentemente beneficiado pela permanência do nome de Jair Bolsonaro em levantamentos, mesmo inelegível.
Prisão de Bolsonaro, Tarcísio e o projeto das elites
Sobre a prisão de Jair Bolsonaro, Paulo Nogueira Batista Jr. avalia que a detenção consolida, do ponto de vista das elites econômicas, a necessidade de produzir um “tucano disfarçado de bolsonarista”: alguém capaz de herdar o voto da extrema direita sem carregar integralmente o desgaste do bolsonarismo. Nesse desenho, o nome natural seria o governador Tarcísio de Freitas, que “finge que é bolsonarista, mas também é tucano”, atendendo ao desejo da “turma da bufunfa” por um projeto plenamente neoliberal no comando do país.
Ele acrescenta, porém, que a direita está dividida. De um lado, a ala “puro sangue” ligada diretamente à família Bolsonaro, que resiste a abrir mão da cabeça de chapa — possivelmente com um dos filhos liderando a candidatura. De outro, um campo liberal tradicional que precisa do capital eleitoral bolsonarista para voltar ao Planalto. A dificuldade dessa negociação, sugere, ajuda indiretamente Lula, pois fragmenta a oposição e expõe a desconfiança mútua entre bolsonaristas e o que chamam de “sistema”.
Democracia liberal em xeque e o “Trump brasileiro”
Na parte final da entrevista, Paulo Nogueira Batista Jr. amplia o foco para um diagnóstico mais amplo das democracias ocidentais. Ele comenta o episódio em que Bolsonaro teria usado um maçarico para destruir a tornozeleira eletrônica e classifica o ex-presidente como uma “mancha” na história nacional, comparável à eleição de Fernando Collor.
O economista observa que as críticas que faz às lideranças de Estados Unidos e Europa — incluindo Donald Trump, Javier Milei e chefes de governo europeus — podem ser devolvidas com a lembrança de que o Brasil também elegeu um “aloprado” à Presidência. A diferença, sublinha, é que “o Brasil conseguiu fazer o que os Estados Unidos não conseguiram com Trump”: retirar o “Trump brasileiro” de cena por meio de processos judiciais legítimos, enquanto Washington ainda convive com o retorno do Trump ao poder.
Ao avaliar a nova direita global, ele vê um quadro misto: forte em países europeus e ainda relevante na Argentina e nos EUA, mas golpeada em alguma medida no Brasil pela prisão de Bolsonaro. No entanto, alerta que a extrema direita “não é imbatível”, e a experiência brasileira demonstra que, com instituições ativas e mobilização política, é possível conter os avanços do autoritarismo.
Entre frustração e esperança
Apesar do tom duro com o governo e com parte da elite política brasileira, Paulo Nogueira Batista Jr. insiste em separar a crítica conjuntural de uma visão estratégica de longo prazo. Ele lamenta que o país não esteja “à altura de seu próprio potencial” e que os brasileiros tenham se acostumado a ambições pequenas para uma nação de porte continental.
A aposta, porém, permanece: se Lula conseguir “tirar a câmara que botaram nele” e montar um governo mais progressista, um eventual quarto mandato poderia recuperar terreno perdido em crescimento econômico, política externa e reindustrialização. Para o economista, essa poderá ser a chave para afastar do horizonte, por um bom tempo, o risco de retorno de uma direita que ele descreve como “medonha” — seja a tradicional, a bolsonarista ou a fisiológica. Assista:
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/lula-4-precisa-romper-amarras-diz-paulo-nogueira-batista-jr