Em Nova Déli, presidente defende governança multilateral da inteligência artificial, alerta para riscos à democracia e cobra regulação das big techs.
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou nesta quinta-feira (19) da Sessão Plenária da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, em Nova Déli, na Índia, e defendeu a construção de uma governança global para a IA baseada em cooperação multilateral, inclusão e desenvolvimento. Em seu discurso, Lula alertou que, sem regras internacionais e ação coletiva, a tecnologia pode aprofundar desigualdades e fragilizar democracias.
Logo no início de sua fala, o presidente ressaltou que a expansão acelerada da chamada Quarta Revolução Industrial ocorre ao mesmo tempo em que o multilateralismo perde força, criando um cenário perigoso para o equilíbrio global. “A Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente. É nesse contexto que a governança global da inteligência artificial assume um papel estratégico”, afirmou.
Lula defendeu que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado por decisões políticas que garantam soberania e justiça social, evitando que poucos países ou empresas concentrem o poder sobre as novas ferramentas digitais. “Sem ação coletiva, a inteligência artificial aprofundará desigualdades históricas. O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a inteligência artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países”, disse.
Exclusão digital e desigualdade global
Durante o pronunciamento, Lula citou dados da União Internacional de Telecomunicações para destacar que o mundo ainda vive um abismo digital. Segundo ele, 2,6 bilhões de pessoas permanecem fora do universo conectado, o que amplia o risco de exclusão diante do avanço da inteligência artificial.
Para o presidente, o debate sobre regulação deve partir de um princípio central: colocar as pessoas acima da lógica do mercado e da disputa geopolítica. “Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente. O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo”, declarou.
Lula alerta para riscos da IA em eleições e na democracia
O presidente brasileiro também apontou que o uso indiscriminado da inteligência artificial pode ter impactos profundos sobre os sistemas democráticos, especialmente por meio da manipulação de informações e da disseminação de conteúdos falsos.
“Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas. Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia”, afirmou Lula.
Ao comparar a IA com outras transformações históricas, o presidente citou exemplos como o uso do átomo, a engenharia genética e a corrida espacial. Para ele, a revolução digital leva esses dilemas a um nível sem precedentes.
“A aviação, o uso do átomo, a engenharia genética e a corrida espacial são exemplos desse fenômeno. Elas podem multiplicar o bem-estar coletivo ou lançar sombras sobre os destinos da humanidade. A Revolução Digital e a Inteligência Artificial elevam esse desafio a níveis sem precedentes”, prosseguiu.
Apesar de reconhecer ganhos em produtividade industrial, serviços públicos e medicina, Lula destacou que a tecnologia pode estimular práticas destrutivas e criminosas. Entre os riscos citados estão armas autônomas, discursos de ódio, desinformação e violência contra mulheres.
“Mas também podem fomentar práticas extremamente nefastas, como o emprego de armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho”, afirmou.
O presidente também enfatizou que os algoritmos não são neutros. “Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos que sustentam o mundo digital. São parte de uma complexa estrutura de poder”, disse.
Regulação das big techs e disputa por soberania digital
Outro ponto central do discurso foi a cobrança por regulação das empresas que dominam o setor de inteligência artificial e plataformas digitais. Lula afirmou que infraestrutura, capital e poder computacional permanecem excessivamente concentrados em poucas corporações e países, enquanto dados gerados em outras regiões são apropriados sem retorno equivalente.
“Capacidades computacionais, infraestrutura e capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas. Os dados gerados por nossos cidadãos, empresas e organismos públicos estão sendo apropriados por poucos conglomerados, sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda em nossos territórios”, declarou.
Em seguida, Lula fez a crítica mais contundente de sua participação no evento. “Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação”, afirmou.
Segundo ele, a regulamentação das big techs deve ser tratada como uma exigência para garantir direitos humanos no ambiente digital, preservar a integridade da informação e proteger setores culturais e criativos.
“A regulamentação das chamadas big techs está ligada ao imperativo de salvaguardar os direitos humanos na esfera digital, promover a integridade da informação e proteger as indústrias criativas de nossos países”, disse Lula.
Ele também criticou o modelo de negócios dessas empresas, baseado em exploração de dados pessoais e estímulo à radicalização. “O modelo atual de negócios dessas empresas depende da exploração de dados pessoais, da renúncia do direito à privacidade e da monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política”, completou.
Brasil aposta em centros de dados e marco regulatório de IA
No discurso, Lula destacou que o Brasil vem fortalecendo discussões sobre atração de investimentos em centros de dados e também sobre a criação de um marco regulatório para a inteligência artificial.
O presidente lembrou ainda que, em 2025, o país lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com a proposta de ampliar a qualidade de vida da população, modernizar serviços públicos e estimular emprego e renda.
Cúpula integra Processo de Bletchley
A reunião em Nova Déli faz parte do chamado Processo de Bletchley, uma série de encontros intergovernamentais voltados à governança e segurança da inteligência artificial. O ciclo começou em novembro de 2023, no Reino Unido, e teve edições seguintes em Seul, em maio de 2024, e em Paris, em fevereiro de 2025.
De acordo com o governo brasileiro, esta é a primeira vez que um presidente do Brasil participa de um evento global de alto nível dedicado ao tema.
Viagem reforça laços estratégicos entre Brasil e Índia
A viagem à Índia marca a quinta visita de Lula ao país e a segunda durante o atual mandato. Segundo informações oficiais, o deslocamento ocorre em um momento de forte dinamismo econômico e tecnológico nas relações bilaterais.
Em setembro de 2023, Lula esteve na Índia acompanhado por mais de 100 delegações empresariais brasileiras. Já em 8 de julho de 2025, o primeiro-ministro Narendra Modi foi recebido em visita de Estado ao Brasil após participar da 17ª Cúpula do BRICS, realizada no Rio de Janeiro.
Na ocasião, os dois líderes divulgaram um comunicado conjunto definindo cinco pilares prioritários para orientar o relacionamento bilateral ao longo da próxima década: paz e segurança; transição energética e justiça climática; segurança alimentar e comércio agrícola; transformação digital e ciência e tecnologia; e parcerias industriais em setores estratégicos.
Além das visitas oficiais, Lula e Modi se encontraram quatro vezes nos últimos três anos em eventos internacionais ligados ao G7 e ao G20.
Comércio bilateral atinge recorde e meta é chegar a US$ 20 bilhões
Após a participação na cúpula, Lula seguirá com agenda bilateral em Nova Déli. Ele e o primeiro-ministro Modi devem discutir a ampliação das relações econômicas e tecnológicas e trocar avaliações sobre a conjuntura internacional.
Entre os temas previstos estão desafios ao multilateralismo, comércio global e a necessidade de reformulação da governança internacional, incluindo propostas de reforma das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança, além do compromisso com a paz em Gaza e o respeito à soberania e à democracia.
O governo brasileiro informou que, em 2025, o comércio entre Brasil e Índia atingiu US$ 15 bilhões, alta de 25,5% em relação a 2024 e o maior volume já registrado. As exportações brasileiras somaram US$ 6,9 bilhões, enquanto as importações chegaram a US$ 8,4 bilhões.
Brasil e Índia estabeleceram meta de elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões até 2030 e iniciaram negociações para ampliar o Acordo de Comércio Preferencial entre o MERCOSUL e a Índia.
A Índia, com 1,4 bilhão de habitantes, é o país mais populoso do mundo e possui uma economia estimada em cerca de US$ 4,2 trilhões, com possibilidade de se tornar a terceira maior do planeta até 2030. Dados citados da FAO também indicam que o país é o segundo maior produtor agrícola do mundo em valor de produção, atrás apenas da China.
Foto: Ricardo Stuckert/PR
FONTE: https://www.brasil247.com/midia/lula-critica-concentracao-computacional-em-cupula-de-ia-nao-e-inovacao-e-dominacao