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“Lula Porreta” levanta novas bandeiras para o quarto mandato

“Neste quarto mandato não quero o Lulinha paz e amor. Quero ser o Lula porreta. É hora de dar um salto de qualidade”, disse o presidente.

Discursando ontem na convenção do PT que sacramentou sua candidatura ao quarto mandato, o presidente Lula levantou novas bandeiras e promessas, apresentando ao  eleitorado duas credenciais que poucos políticos conseguem exibir: a incomparável experiência política e administrativa, combinada com a capacidade de se renovar para um novo período de governo.

O Lula de ontem até lembrou mais, pelo tom combativo, o jovem Lula de 1989, mais tarde substituído  pelo “Lulinha paz e amor”, bordão de que ele mesmo criou para espantar o estigma de radical, estridente e raivoso. O Lula 4, entretanto, não quer ser nenhum, nem outro. “Neste quarto mandato não quero o Lulinha paz e amor. Quero ser o Lula porreta. É hora de dar um salto de qualidade”.

O Lula de agora tem assim a rara condição de poder exibir um rico legado e, ao mesmo, assegurar que não vem para oferecer “mais do mesmo”. “Não quero ser lembrado apenas como o presidente que criou o Bolsa Família”.

Uma semelhança com o Lula de 1989, na fala de ontem, esteve no tom indignado com que falou de aspectos da política nacional (especialmente no que diz respeito ao orçamento e ao fundo eleitoral), do avanço da extrema direita no mundo e da indiferença da elite colonizada que temos.

Já a diferença está na bagagem acumulada de lá para cá, que faz dele o político mais experiente da história recente do Brasil. Lula vai disputar a Presidência pela sétima vez, o que representa uma diferença abissal em relação ao neófito Flavio Bolsonaro, que ele em momento algum mencionou, e a outros pretendentes da direita.

Mais relevante que a experiência eleitoral, entretanto, é a de governante e homem de Estado, adquirida em três passagens pelo Palácio do Planalto, passando por crises de toda natureza, por diferentes ciclos econômicos, sociais e institucionais no país e por diferentes conjunturas globais.

Ancorando o discurso no legado de seus governos, Lula enfatizou a busca da renovação. “O que motiva um governo a ganhar as eleições é se o legado dele for merecedor de confiança e de respeito. Quem fez pode prometer mais, quem não fez não tem o que prometer. Essa é a lógica da nossa campanha”, afirmou.

Antes de levantar novas bandeiras, o presidente-candidato defendeu os resultados de sua gestão, destacando as obras do PAC e a retomada do crescimento econômico,  a recuperação de recursos para a saúde e a educação, reduzidas pelo governo Bolsonaro, a queda sensível no desemprego, a valorização do salário-mínimo, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o Desenrola, entre outras iniciativas.

Entre as  promessas de inovar e não apenas repetir as fórmulas já adotadas,  destaque para a bandeira da soberania nacional. O tema ganhou centralidade no discurso de Lula a partir do agravamento das tensões com o presidente norte-americano Donald Trump, com seus tarifaços e hostilidades gerais e eleitorais.

Trump age por razões ideológicas, estimulado pelos bolsonaristas que atuam no Estados Unidos buscando criar dificuldades para o Brasil, mas também por interesses econômicos, por olho gordo em nossas riquezas, como as terras raras e os minerais estratégicos, destacou Lula. Com isso ele incorporou a seu discurso o refrão nacional-desenvolvimentismo da defesa de nossos recursos naturais. “Tem muita gente metendo os dedos em nossas terras. Isso vai parar”, afirmou.

O fortalecimento da defesa nacional foi outro tema novo destacado.  A esquerda, disse ele, precisa “parar com essa bobagem de achar que a gente não quer ter preocupação com a defesa. Eu sei que tem gente que tem trauma da ditadura militar. Mas, gente, o tempo passa”, afirmou, defendendo o aumento dos investimentos para modernizar e reequipar as Forças Armadas, vinculando a política de defesa ao fortalecimento da soberania nacional.  “Eu quero estar preparado para ninguém invadir esse País para levar esse presidente, como eles invadiram (a Venezuela). Eu quero estar preparado para a paz, não para a guerra. Eu quero estar preparado para ninguém ousar se fazer de besta com a gente”.

Na seara da inclusão e proteção social, uma promessa nova foi a de criar políticas para a terceira idade: “quero resgatar uma dívida que temos com os mais velhos deste país”. Embora não entrando em detalhes, ele falou na criação de espaços de acolhimento e convivência onde os idosos possam receber assistência, alimentação, atendimento à saúde,  “caminhar e até namorar”.  No corte etário, é entre os mais velhos que Lula tem maior aprovação como presidente e intenção de voto como candidato.

Não faltou aceno às mulheres, que enfrentam uma onda de violência e feminicídios no país e são maioria no eleitorado e entre os eleitores de Lula. Combater a fome e a pobreza continuarão sendo prioridades permanentes.

Pode-se dizer também que Lula levantou uma nova bandeira na política interna, o que fez ao criticar a apropriação de boa parte do orçamento federal pelo Congresso e o valor astronômico do fundo eleitoral. “Vai ter briga por emenda”, disse e repetiu.  Neste terceiro mandato, o governo evitou uma trombada direta com o Congresso neste tema, que vem sendo toureado pelo ministro do STF Flavio Dino. Mas isso vai mudar, prometeu Lula.

E embora não tenha mencionado Flavio Bolsonaro, Lula deixou clara a tônica política que vai imprimir à campanha.  “A esquerda não tem o direito de permitir que a extrema direita volte a governar este país”, afirmou.Vale dizer que Lula vai tratar a eleição como uma disputa entre projetos conflitantes de país, como ele, o PT e os aliados já vêm fazendo.

Na campanha, ele apontará a diferença entre as duas principais candidaturas com a autoridade de quem é muito mais experiente, prometendo escrever um novo (e possivelmente último) capítulo de sua trajetória política extraordinária, que a História saberá reconhecer.

FOTO: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/lula-porreta-levanta-novas-bandeiras-para-o-quarto-mandato/