Lula demonstrou no momento mais agudo da campanha que sabe articular e ceder espaço para pautas que dialogam diretamente com a classe trabalhadora.
247 – Em uma profunda reflexão sobre a conjuntura política brasileira e o desfecho da disputa presidencial, o jurista, filósofo do direito Alysson Mascaro participou de entrevista com o jornalista Leonardo Attuch na TV 247. Na conversa, Mascaro dissecou a anatomia da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a força decisiva que emergiu da sociedade civil e as perspectivas para a governabilidade e as entregas materiais no novo ciclo político.
A força das ruas e a ruptura da burocracia
Ao analisar a reviravolta eleitoral, Mascaro enfatizou que a virada histórica não foi obra exclusiva da máquina institucional ou de estratégias de gabinete, mas sim de uma insurgência cívica e popular. Para ele, o primeiro turno havia sido travado sob uma dinâmica excessivamente burocrática e defensiva, incapaz de entusiasmar a base trabalhadora.
“A primeira mudança, e eu julgo que seja a mais importante, é que na urgência entraram em cena atores sociais que até então eram conduzidos, mas não eram condutores do processo político. […] Foram mobilizações de massa que não vieram por indução partidária, foram mobilizações da capilaridade social.”
O filósofo citou como faísca desse despertar as mobilizações autônomas iniciadas por estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, movimento que rapidamente contagiou o Norte de Minas Gerais, o Nordeste e os grandes centros urbanos. A reação popular nasceu tanto da defesa da democracia quanto da recusa visceral ao projeto autoritário e regressivo representado pela extrema-direita internacional.
O estilo Lula: a maestria da composição
Interpelado sobre a conduta política de Lula e a correlação de forças com as instituições e o mercado, Mascaro explicou que a trajetória de décadas do presidente moldou um estadista com vocação nata para o pacto e a conciliação, e não para o confronto aberto e predatório.
- O grande compactuador: Lula não é um líder de enfrentamento estéril; é o artífice da concórdia estratégica nacional, hábil em convergir setores díspares em torno de uma agenda de desenvolvimento com estabilidade.
- Institucionalidade e diálogo: Com a sinalização de partidos de centro e da centro-direita dispostos a construir maiorias no Parlamento, o presidente possui as rédeas para consolidar uma base parlamentar robusta, isolando o extremismo político.
- Foco no bem-estar: A conciliação lulista opera como um instrumento pragmático voltado a estender benefícios, recuperar o poder de compra e viabilizar conquistas materiais imediatas para as famílias brasileiras.
Segundo o jurista, Lula demonstrou no momento mais agudo da campanha que sabe articular e ceder espaço para pautas que dialogam diretamente com a classe trabalhadora — como o debate sobre o fim da exaustiva escala 6×1 e a expansão de programas sociais como o Pé-de-Meia e o Bolsa Família —, equilibrando as exigências institucionais com as demandas prementes da base da pirâmide.
Desafios da comunicação e o horizonte das reformas
Mascaro também avaliou as tensões históricas do campo progressista com o ecossistema midiático corporativo e o exemplo recente do México sob a presidência de Claudia Sheinbaum, que aposta em canais de diálogo direto com a sociedade. O professor ressaltou que a urgência eleitoral provou a eficácia das redes e das vozes populares autênticas, alertando que o governo não deve permanecer refém de velhas narrativas.
Para que a conciliação resulte em transformações duradouras, Mascaro ponderou que o povo precisa continuar ativo:
“O principal não é apenas reagir à urgência. O principal é ter a dignidade de manter-se em movimento em todos os momentos, para que a mobilização consiga ecoar dentro do governo e pautar as políticas públicas.”
Soberania nacional e memória histórica
Na parte final do encontro, Mascaro celebrou o lançamento do livro Os Maiores Comunistas da História do Brasil, de José Reinaldo Carvalho, publicado pela editora do Instituto Sul Global, para o qual escreveu o prefácio. Ele pontuou que o resultado das urnas garantiu uma barreira indispensável contra a entrega de patrimônios históricos, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.
Ao conectar a resistência política brasileira à geopolítica do Sul Global, Alysson Mascaro resumiu que a habilidade política de Lula em costurar alianças confere ao país um respiro estratégico crucial, abrindo caminho para que o Brasil retome o crescimento com soberania e dignidade social.
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/lula-sabera-conciliar-e-buscar-ganhos-concretos-para-a-populacao-diz-alysson-mascaro/