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Lula, UE e Venezuela: como o Brasil pode ajudar a frear a intervenção dos EUA

‘A União Europeia resiste à escalada militar de Washington porque Lula recolocou o Brasil como pivô geopolítico do Sul Global’, escreve Reynaldo Aragon.

No coração da nova disputa imperial na América Latina, a ameaça de intervenção norte-americana na Venezuela permanece viva — mas encontra hoje um obstáculo inesperado: a articulação estratégica do Brasil. Lula, operando com precisão, coordena pressões diplomáticas, constrói convergências e reorganiza a região de modo a tornar a aventura militar dos EUA mais cara, mais arriscada e menos legitimável para a União Europeia. Este artigo revela como essa engrenagem funciona e por que ela pode estar freando, de forma decisiva, o impulso intervencionista.

O tabuleiro invisível

A ameaça de uma intervenção norte-americana na Venezuela voltou ao centro do tabuleiro latino-americano, reacendendo a sombra de uma ruptura militar que poderia incendiar toda a região. A maior parte do debate público enxerga apenas a superfície: declarações de Washington, exercícios militares no Caribe, a crise venezuelana que nunca se resolve. Mas o que realmente determina o rumo desse conflito está abaixo da espuma — na disputa entre potências, no choque entre frações do capital imperial e na capacidade dos países sul-americanos de organizarem uma resposta coerente. É nesse subterrâneo que o Brasil, sob a liderança de Lula, atua com precisão estratégica.

A diplomacia brasileira não eliminou a ameaça de intervenção, e qualquer leitura honesta precisa reconhecer isso. O que Lula fez — e segue fazendo — é muito mais complexo e decisivo: reorganizou o custo geopolítico da aventura norte-americana. Ao reconstruir a integração regional, acionar a CELAC, reativar pontes com a UE e defender a autodeterminação sem capitular às pressões do Norte, o Brasil transformou a equação estratégica. A União Europeia, que antes oscilava entre sanções e hesitação, hoje encontra no Brasil uma âncora para resistir à lógica militarista de Washington. Não por altruísmo, mas por interesse material: estabilidade, previsibilidade e ambiente seguro para seus investimentos dependem de uma América do Sul sem guerra.

Este artigo parte do materialismo histórico-dialético para decifrar esse movimento invisível. Mostra como Lula opera na zona onde se cruzam imperialismo, comércio, energia, soberania e diplomacia. E demonstra por que o Brasil pode estar, neste momento, freando — de forma concreta, ainda que silenciosa — a rota de colisão que os Estados Unidos tentam impor à Venezuela. A ameaça persiste, mas a correlação de forças mudou. E mudou porque o Brasil voltou a pesar no mundo.

O que está em jogo na Venezuela — imperialismo, petróleo e controle regional

A crise venezuelana nunca foi apenas sobre democracia, eleições ou autoritarismo. Esses elementos existem, mas são usados como linguagem moral para justificar um conflito que é, em sua essência, econômico, energético e geopolítico. A Venezuela concentra uma das maiores reservas de petróleo do planeta, possui gás em abundância e ocupa um corredor estratégico entre o Caribe e a bacia amazônica — exatamente a área onde os Estados Unidos projetam, há décadas, sua lógica de controle hemisférico. Quem controla a Venezuela não controla um governo, controla um pedaço essencial do metabolismo energético do sistema imperial.

O interesse norte-americano não está apenas no petróleo venezuelano, mas no efeito sistêmico que sua perda de influência teria sobre o conjunto da região. Uma Venezuela soberana fragiliza a Doutrina Monroe, abre espaço para BRICS, reduz a capacidade de Washington de disciplinar governos latino-americanos e ameaça a hegemonia energética dos EUA no Atlântico. Por isso a retórica de “restauração democrática” convive com sanções brutais, estrangulamento econômico e exercícios militares no Caribe: trata-se de impor custos insuportáveis a Caracas até forçar uma mudança de regime ou justificar uma intervenção.

A União Europeia, embora alinhada a Washington em vários pontos, enxerga a Venezuela a partir de outra lógica material. Para Bruxelas, uma explosão militar seria desastrosa: ampliaria fluxos migratórios, desestabilizaria países vizinhos onde empresas europeias investem bilhões e destruiria o ambiente político necessário para avançar no acordo Mercosul-UE. A guerra serviria aos EUA — não à Europa. É essa assimetria que explica por que a UE resiste à via militar, mesmo adotando sanções e críticas ao governo Maduro.

A disputa, portanto, é tripla:

EUA querem disciplinamento e controle; UE quer estabilidade e acesso econômico; a Venezuela tenta sobreviver entre essas forças.

E é justamente nesse intervalo — entre a máquina militar norte-americana e a racionalidade econômica europeia — que o Brasil tem espaço para agir.

A posição da União Europeia — estabilidade ou colapso

A União Europeia olha para a Venezuela com cautela não apenas por interesses econômicos, mas porque seu foco estratégico já está comprometido em outra frente: o leste europeu. Desde 2022, Bruxelas vive em estado permanente de tensão com a Rússia, escalando sanções, expandindo bases da OTAN e atuando em um conflito que Moscou tenta, a todo custo, evitar transformar em guerra aberta continental. Para a Europa, qualquer turbulência na América do Sul seria um desvio de energia estratégica. A UE não tem capacidade — nem interesse — de administrar simultaneamente um conflito militar no Caribe e outro às portas da Ucrânia. Ela precisa de estabilidade no hemisfério sul para sustentar a própria escalada no hemisfério norte.

Nesse contexto, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela não é apenas indesejável para a Europa: é perigosamente inoportuna. Uma guerra no Caribe dividiria recursos diplomáticos, fragmentaria alianças, pressionaria ainda mais os sistemas políticos europeus já dominados pela extrema-direita e ampliaria a dependência militar de Washington num momento em que a UE tenta manter algum grau de autonomia estratégica frente aos EUA. Para enfrentar a Rússia — ou tensionar a Rússia — a Europa precisa de um continente latino-americano quieto, previsível e cooperativo. E é exatamente isso que a diplomacia de Lula oferece: um amortecedor regional que permite à UE conduzir sua agenda no leste europeu sem que o fogo da América Latina saia de controle.

Para entender por que a União Europeia resiste à lógica intervencionista norte-americana, é preciso abandonar qualquer ilusão de que Bruxelas age por princípios morais. A Europa opera, como qualquer bloco capitalista central, movida por interesses materiais: segurança, estabilidade, previsibilidade e manutenção de seus fluxos econômicos. Uma intervenção dos EUA na Venezuela destruiria todos esses pilares ao mesmo tempo.

Do ponto de vista europeu, a Venezuela é menos um “problema político” e mais um epicentro de risco sistêmico. Uma guerra no Caribe geraria deslocamentos humanos em massa, ampliando o fluxo migratório para a Europa num momento em que a extrema-direita avança sobre o continente. Uma convulsão regional desestabilizaria Colômbia, Brasil e Guiana — países onde empresas europeias têm investimentos bilionários em energia, infraestrutura, logística e mineração. E, talvez o ponto mais sensível de todos: a intervenção comprometeria o ambiente político necessário para viabilizar o acordo Mercosul-UE, que hoje é tratado por Berlim, Paris e Madrid como uma das últimas grandes oportunidades de projeção econômica europeia no Sul Global.

Para um bloco que enfrenta estagnação industrial, crise agrícola, perda de competitividade e dependência tecnológica crescente dos EUA e da China, a América do Sul representa uma rara zona de expansão possível. Mas essa expansão exige paz, instituições estáveis e governos negociáveis — não marines desembarcando no litoral de La Guaira. A UE não pode permitir que a política externa norte-americana transforme sua principal oportunidade de reconstrução geopolítica em um novo Iraque às portas do Atlântico Sul.

É por isso que Bruxelas tem respondido à crise venezuelana com uma fórmula aparentemente contraditória: sanções seletivas, críticas ao governo Maduro e, ao mesmo tempo, rejeição total à via militar. Na chave materialista, não há contradição alguma: a Europa tenta equilibrar seu alinhamento formal ao Ocidente com a necessidade objetiva de evitar que Washington detone a região onde ela pretende investir.

E justamente nesse ponto surge o papel do Brasil: a UE só consegue sustentar sua rejeição à intervenção porque existe, na América do Sul, um ator capaz de organizar a estabilidade regional sem se submeter aos EUA. Esse ator é Lula. É por isso que, quando o Brasil fala em diálogo, eleições e zona de paz, Bruxelas escuta. E quando o Brasil recusa a linguagem militar, a UE tem espaço para recusar junto — sem romper a coesão do Ocidente.

A volta de Lula e a reconstrução do eixo sul-americano

Quando Lula volta ao poder, o tabuleiro regional não é o mesmo de 2003. A UNASUL foi esvaziada, a CELAC perdeu ritmo, o Mercosul passou anos paralisado, a extrema-direita ocupou governos-chave e a própria ideia de integração latino-americana parecia um projeto derrotado. Ao mesmo tempo, a América do Sul se tornou alvo prioritário da guerra híbrida, das campanhas de desinformação e das estratégias de disciplinamento econômico. Era o ambiente ideal para uma política externa alinhada a Washington, não para um projeto de soberania regional.

Lula escolhe ir na direção oposta. A primeira movimentação é simbólica e estratégica ao mesmo tempo: recolocar o Brasil no centro das instâncias regionais. Retoma a CELAC com vigor, reabre canais com governos de esquerda, centro e até direita pragmática, convoca cúpulas em Brasília e insiste na ideia da América do Sul como zona de paz. Não se trata de nostalgia do ciclo progressista anterior, e sim de reconstruir a infraestrutura política mínima para que a região fale em bloco diante de Washington, Bruxelas e Pequim.

Ao aproximar Petro, AMLO, Boric, Sheinbaum, Arce e outros governos, Lula reconstrói algo que o imperialismo tentou desmontar na última década: a percepção de que a soberania de cada país está diretamente ligada à capacidade de agir em conjunto. A mensagem é simples e materialista. Isolados, Brasil, Venezuela ou Colômbia são presa fácil para sanções, tarifas e intervenções. Articulados em rede, passam a ter poder de barganha sobre energia, alimentos, minerais, logística e clima.

É essa malha de relações que prepara o terreno para a atuação brasileira na crise venezuelana. Lula não fala em nome da Venezuela, fala em nome de uma região que se recusa a ser transformada em corredor militar de ninguém. E, ao fazer isso, oferece à União Europeia um interlocutor regional com legitimidade para negociar saídas políticas, sem que a UE precise se alinhar à lógica do conflito total dos Estados Unidos.

A engrenagem diplomática brasileira — contenção sem confronto

A força da diplomacia de Lula na crise venezuelana não está em gestos grandiloquentes, mas no mecanismo preciso que ele aciona para reordenar a correlação de forças sem provocar uma escalada direta com os Estados Unidos. É uma engrenagem construída peça por peça, seguindo a racionalidade própria de um país em desenvolvimento que precisa defender sua soberania sem romper com as estruturas que garantem sua sobrevivência econômica. A lógica é materialista: conter a intervenção não é gritar contra ela, é torná-la inviável.

O primeiro movimento é o princípio da autodeterminação. Lula repete, em toda arena internacional, que apenas o povo venezuelano pode decidir seu destino. Não é uma frase protocolar: é um escudo jurídico e político que confronta frontalmente o argumento norte-americano de “intervenção humanitária”. Ao transformar a disputa em questão de soberania, Lula obriga a UE a se alinhar ao direito internacional — e não ao apetite militar de Washington.

O segundo pilar é a recusa explícita à via militar. Sem teatro, sem bravata, o Brasil afirma que a América do Sul é uma zona de paz. Essa mensagem, repetida em cúpulas regionais, reuniões do G20, encontros bilaterais e declarações multilaterais, funciona como barreira institucional: a intervenção passa a ser interpretada não como ação cirúrgica, mas como violação da ordem regional. Lula insere a Venezuela em um arcabouço coletivo no qual qualquer ataque externo representa uma ruptura com toda a América do Sul.

O terceiro movimento é a defesa da suspensão das sanções. Lula critica, desde 2023, quando volta ao poder, o bloqueio econômico que estrangula a sociedade venezuelana. Ao afirmar que “as sanções só punem o povo”, ele desorganiza a narrativa moral dos EUA e atrai a UE para a posição de que a crise deve ser resolvida pela política, não pelo castigo coletivo. Isso reduz o consenso europeu em torno da escalada e enfraquece o discurso de “pressão máxima”.

O quarto pilar é a capacidade de dialogar com todos os atores: UE, EUA, Petro, Boric, AMLO, Caricom. O Brasil se coloca onde nenhum outro país consegue estar: como mediador aceito por quem se odeia entre si. É essa posição única que permite a Lula defender a Venezuela sem defender Maduro, proteger a institucionalidade regional sem blindar abusos, e organizar saídas eleitorais sem aderir à retórica intervencionista.

Essa engrenagem, quando acionada em conjunto, produz um efeito nítido: o Brasil torna qualquer intervenção norte-americana mais cara, mais arriscada e menos justificável. Lula não derrota a lógica imperial; ele a empurra para um terreno onde ela perde tração. E faz isso mantendo o Brasil protegido de retaliações descontroladas, preservando a economia nacional e ampliando a legitimidade internacional do país.

A guerra tarifária dos EUA contra o Brasil — disciplinamento imperial

A ofensiva tarifária de Washington contra o Brasil, intensificada ao longo de 2025, não é um episódio isolado nem uma disputa comercial convencional. Ela faz parte da mesma arquitetura de poder que sustenta as sanções contra a Venezuela e a ameaça permanente de intervenção militar. Tarifas, bloqueios e presença militar são expressões distintas de uma mesma lógica: a manutenção da hegemonia imperial através do disciplinamento econômico.

As tarifas impostas pelos Estados Unidos — atingindo aço, alumínio, produtos agrícolas e setores industriais estratégicos — têm dois objetivos centrais. O primeiro é punir o Brasil por não se alinhar integralmente à política externa norte-americana. A aproximação com o BRICS, a defesa da América do Sul como zona de paz, a crítica às sanções contra Caracas e a busca por regulação soberana das big techs colocaram Lula fora da moldura esperada para um país “semiperiférico”. O segundo objetivo é demonstrar força, criando um efeito pedagógico regional: mostrar aos vizinhos que qualquer gesto de autonomia pode ser castigado com velocidade e intensidade.

Mas a guerra tarifária também revela os limites estruturais do imperialismo norte-americano. Ao mesmo tempo em que tenta disciplinar o Brasil, Washington depende profundamente de commodities brasileiras, de cadeias produtivas integradas e da estabilidade geopolítica da região. A tentativa de intimidar o Brasil produz, paradoxalmente, maior convergência entre Brasília e Bruxelas: a UE vê no comportamento de Washington uma ameaça não apenas à Venezuela, mas à própria racionalidade econômica do Ocidente. O Brasil se torna, assim, parceiro indispensável para qualquer estratégia europeia de contenção ao caos.

Lula responde a essa ofensiva com a mesma tática empregada na crise venezuelana: contenção sem capitulação. Critica as tarifas, ameaça recorrer à OMC, aciona parceiros comerciais, diversifica mercados e reforça alianças com UE, BRICS e o Sul Global — tudo isso sem romper os canais diplomáticos com os EUA. É um jogo fino: enfrentar a coerção econômica, manter estabilidade interna e seguir atuando como pivô regional. Na prática, o Brasil transforma a guerra tarifária em um catalisador de autonomia diplomática, ampliando sua capacidade de negociação tanto com a Europa quanto com os países latino-americanos.

Ao conectar Venezuela, tarifas e integração regional, a lógica fica evidente: a intervenção militar e a pressão econômica são braços diferentes do mesmo projeto de recolonização hemisférica. E a atuação de Lula — firme, paciente e estrutural — reorganiza o tabuleiro de modo que essa ofensiva encontre resistência onde não encontrava antes.

Por que a UE se ancora no Brasil? — convergência de interesses

A decisão da União Europeia de resistir à escalada intervencionista dos Estados Unidos não nasce de simpatia por Maduro nem de alinhamento automático ao Brasil. Ela nasce de algo muito mais concreto: uma convergência estrutural de interesses. A Europa precisa de estabilidade na América do Sul. O Brasil é hoje o único ator capaz de oferecê-la.

O cálculo europeu é simples. Uma intervenção militar na Venezuela detonaria três explosões simultâneas. A primeira seria migratória. A UE já enfrenta pressões internas devastadoras com a ascensão da extrema-direita; uma nova onda de deslocados — mesmo indireta — teria impacto imediato nas eleições e nas políticas domésticas do bloco. A segunda explosão seria econômica. Empresas europeias investem pesadamente em energia, infraestrutura e logística no Brasil, na Colômbia e no Cone Sul. A instabilidade regional destruiria cadeias produtivas e atrasaria projetos estratégicos por anos. A terceira seria política: o acordo Mercosul-UE, peça central da tentativa europeia de recuperar protagonismo global, se tornaria inviável.

A Europa sabe que Washington não se importa com esses custos — porque eles recaem sobre os outros. A lógica militar dos EUA opera por maximização de poder, não por racionalidade econômica. Já a UE depende justamente da racionalidade: contratos, previsibilidade, ambiente seguro para investimento. Por isso a Europa precisa desesperadamente que alguém na América do Sul sustente a via política e contenha a via militar.

Esse alguém é o Brasil. Mais especificamente, é o Brasil de Lula.

A UE vê em Lula três atributos que não encontra em nenhum outro país da região. O primeiro é legitimidade continental: Lula conversa com a diplomacia venezuelana, com a oposição, com Petro, com Boric, com Sheinbaum e com governos de direita pragmática. O segundo é credibilidade internacional: ao defender clima, democracia, combate à fome e multilateralismo, Lula se torna um parceiro ideal para uma Europa que tenta se apresentar como potência normativa. O terceiro é capacidade de articulação: o Brasil recuperou a habilidade de organizar líderes sul-americanos em torno de princípios mínimos — paz, soberania e solução política.

Para a UE, apoiar a posição brasileira não significa desafiar os EUA; significa evitar que os EUA destruam as bases da própria estratégia europeia no Sul Global. Quando Lula exige diálogo, a Europa respira. Quando Lula recusa a via militar, a Europa ganha cobertura política para recusar também. Quando Lula reorganiza a região, a UE vê a única saída possível para manter seus investimentos, proteger suas fronteiras políticas e preservar seu projeto econômico.

É por isso que Bruxelas se ancora no Brasil. Não por generosidade, mas porque o Brasil oferece a única alternativa viável à tempestade. E porque, nos cálculos de longo prazo do capital europeu, Lula é hoje o fiador da estabilidade que eles não conseguem produzir sozinhos.

Lula como amortecedor geopolítico — o freio possível à intervenção

A crise venezuelana expõe, com nitidez rara, o lugar singular que o Brasil ocupa hoje no sistema internacional. Lula não é a figura que encerra conflitos; é a figura que altera seu custo estrutural. Ele não impede a intervenção norte-americana — seria ilusório afirmar isso —, mas faz algo mais sofisticado e decisivo: transforma a intervenção em uma escolha politicamente tóxica, economicamente irracional e diplomaticamente isolada. É esse deslocamento de terreno que caracteriza o papel de um amortecedor geopolítico.

O papel de amortecedor não é passivo. Ele surge quando um país semiperiférico, munido de capital diplomático, legitimidade regional e capacidade de articulação, cria condições objetivas para reduzir a margem de manobra de uma potência imperial. Lula opera exatamente nesse intervalo. Ao reconstruir o eixo sul-americano, ao pautar a zona de paz, ao articular UE e CELAC e ao exigir soluções políticas, o Brasil reorganiza a distribuição de custos e benefícios da guerra. A intervenção, que para Washington é manobra de poder, para a UE vira ameaça existencial. Para os vizinhos, vira ruptura regional. Para o sistema internacional, vira afronta à ordem jurídica.

Nesse novo arranjo, os Estados Unidos continuam capazes de agir militarmente — mas o fazem sob resistência crescente, em um ambiente onde perderiam apoio europeu, enfrentariam instabilidade regional e pagariam um preço diplomático alto demais para um conflito que não oferece retorno estratégico imediato. O Brasil, com sua política externa de contenção sem confronto, cria exatamente esse quadro: torna a guerra desinteressante para quem antes estava disposto a bancá-la.

Lula não protege Maduro; protege a região. Ele não salva a Venezuela por paternalismo; faz da estabilidade sul-americana uma estratégia de soberania ampliada. E, ao atuar assim, se transforma na principal barreira política entre a América do Sul e a máquina militar do hemisfério norte. É um freio real — ainda que parcial — na engrenagem da intervenção.

Hoje, tudo indica que a ameaça persiste e se intensifica. Mas também é evidente que, sem o Brasil de Lula, ela estaria infinitamente mais próxima de se concretizar. Hoje, a Casa Branca não enfrenta apenas Caracas; enfrenta um continente articulado e uma Europa que, pressionada por seus próprios interesses, se afastou da lógica da força na América Latina. E essa reconfiguração não aconteceu espontaneamente. Ela tem centro, nome e direção: o Brasil voltou ao tabuleiro, e Lula recolocou o hemisfério em outro ritmo.

Conclusão — O Brasil entre a guerra e a paz

A crise venezuelana está longe de terminar, e a ameaça de intervenção norte-americana continua pairando sobre a região. Mas o tabuleiro é outro. A América do Sul voltou a falar com voz própria, a União Europeia se afastou da aventura militar e os custos da escalada aumentaram de forma significativa. Nada disso aconteceu por acaso. A transformação é resultado direto da capacidade brasileira de reorganizar o espaço político sul-americano e de reposicionar a região frente ao imperialismo contemporâneo.

Lula opera no limite superior possível para um país semiperiférico: defende a autodeterminação sem endossar abusos, critica sanções sem se isolar, recusa a via militar sem desafiar frontalmente os Estados Unidos, articula lideranças regionais sem criar rupturas internas e oferece à Europa a única alternativa racional à guerra. É uma diplomacia que não se perde em gestos simbólicos nem em ilusões voluntaristas; é cálculo material, compreensão histórica e leitura precisa das correlações de força.

Nesse sentido, o Brasil se tornou o ponto de inflexão da crise. Não porque impede a intervenção, mas porque a torna menos provável, menos legítima e menos útil. A UE só sustenta sua posição contra a via militar porque encontra no Brasil a estabilidade que Washington não consegue fornecer. Os vizinhos só conseguem defender a zona de paz porque o Brasil recuperou o papel de articulador. O Sul Global só encontra narrativa coerente porque Lula recolocou a soberania no centro do debate.

O imperialismo não recua por moralidade; recua quando o custo sobe. Em 2025, esse custo subiu. Subiu porque o Brasil voltou a contar. E porque Lula, com todas as contradições inerentes ao exercício do poder, recolocou o país no lugar que faz diferença: entre a guerra e a paz, entre a coerção e a autonomia, entre a submissão e a soberania.

A história ainda não terminou. Mas, pela primeira vez em muitos anos, a América do Sul disputa o rumo do conflito — e não apenas reage a ele. Isso, por si só, já é uma vitória estratégica.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/lula-ue-e-venezuela-como-o-brasil-pode-ajudar-a-frear-a-intervencao-dos-eua