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Marandi: “Os EUA perderam e terão que aceitar”

Professor iraniano afirma que Washington descumpriu compromissos, tenta controlar o Estreito de Ormuz e poderá provocar uma nova escalada militar no Golfo Pérsico.

247 – O professor iraniano Seyed Mohammad Marandi afirmou que os Estados Unidos fracassaram em seus objetivos militares contra o Irã e agora terão de aceitar uma nova correlação de forças no Oriente Médio. Para o analista, Washington tenta reverter o resultado do confronto por meio de ataques, sanções e pressões para controlar o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas para o comércio mundial de petróleo.

As declarações foram dadas em entrevista exclusiva ao programa Forças do Brasil, da TV 247. Professor da Universidade de Teerã e especialista em geopolítica, Marandi sustentou que o governo norte-americano violou sucessivamente os compromissos assumidos com o Irã após o encerramento da fase mais intensa dos combates.

“Os Estados Unidos foram forçados a encerrar a guerra e aceitaram um memorando de entendimento para trazer paz e estabilidade. Depois disso, começaram a violar o memorando”, declarou.

Segundo Marandi, os compromissos incluíam a retirada das forças israelenses do território libanês, a devolução de ativos iranianos bloqueados, o alívio das sanções contra as exportações de petróleo e a redução da presença norte-americana no Estreito de Ormuz. Na avaliação do professor, Washington deixou de cumprir todas essas obrigações ou adotou medidas apenas temporárias.

Marandi afirmou que as restrições às vendas de petróleo foram parcialmente suspensas durante algumas semanas, mas posteriormente restabelecidas. Ele também acusou o presidente Donald Trump de continuar ameaçando o Irã e suas lideranças, apesar do entendimento destinado a interromper a escalada militar.

“Trump ameaça constantemente o Irã, os iranianos e as lideranças iranianas com assassinato, morte e destruição”, disse.

O professor relatou que navios teriam continuado a utilizar um corredor marítimo estabelecido pelos Estados Unidos no Estreito de Ormuz, contrariando, segundo ele, o entendimento firmado com Teerã. Diante disso, forças iranianas teriam empregado drones para obrigar as embarcações a abandonar a área.

Na versão apresentada por Marandi, os bombardeios norte-americanos realizados posteriormente representaram uma reação à incapacidade de Washington de impor seu controle sobre a passagem marítima. O Irã, por sua vez, respondeu atacando instalações militares dos Estados Unidos na região.

“Agora estamos em uma situação na qual o futuro é incerto. Pode haver mais combates. Se os Estados Unidos atacarem, o Irã responderá com muita força”, advertiu.

Para o analista, a retomada das hostilidades não surpreendeu o governo iraniano. Desde o início, afirmou, Teerã desconfiava que os Estados Unidos não cumpririam integralmente o cessar-fogo e os compromissos políticos e econômicos assumidos.

Ainda assim, o período de redução dos confrontos teria permitido ao Irã ampliar suas exportações de petróleo, importar produtos considerados necessários e reorganizar suas capacidades defensivas diante da possibilidade de uma nova ofensiva.

“O Irã utilizou esse período para se fortalecer. Os iranianos disseram desde o início que, se os americanos não cumprissem seus compromissos, o Irã também não cumpriria os seus”, explicou.

Marandi avaliou que Washington está acostumado a abandonar acordos sem enfrentar respostas proporcionais dos outros países. Segundo ele, a diferença, no caso iraniano, é que Teerã decidiu reduzir sua cooperação à medida que os compromissos norte-americanos deixavam de ser executados.

“Os Estados Unidos sempre estiveram acostumados a violar compromissos e, ao mesmo tempo, esperar que os outros países continuassem cumprindo suas obrigações. O Irã disse claramente: se vocês não cumprirem, nós também não cumpriremos”, destacou.

Na opinião do professor, a disputa está longe de uma solução definitiva porque a liderança norte-americana ainda não teria aceitado o fracasso da estratégia militar. Ele relacionou a continuidade do confronto à aliança dos Estados Unidos com o governo de Benjamin Netanyahu e à tentativa israelense de enfraquecer os países e movimentos que oferecem resistência à expansão de Israel na região.

Marandi argumentou que a pressão contra Teerã ameaça não apenas a estabilidade do Oriente Médio, mas também a economia global. Uma nova guerra com o Irã, observou, poderia atingir as rotas de transporte de petróleo, elevar os preços da energia e comprometer a infraestrutura dos países que abrigam forças militares norte-americanas.

“Os Estados Unidos perderam a guerra e concordaram com o memorando, mas ninguém acredita que sejam sinceros. O Irã está se preparando porque existe uma possibilidade real de uma nova guerra”, afirmou.

O professor também destacou a diferença entre as estruturas militares iranianas e as instalações dos Estados Unidos e de seus aliados no Golfo Pérsico. Segundo ele, o Irã construiu durante décadas bases subterrâneas e sistemas de proteção destinados a preservar seus principais ativos estratégicos.

Já as bases norte-americanas e as infraestruturas dos países aliados de Washington estariam, em sua maioria, expostas na superfície, o que as tornaria mais vulneráveis a mísseis e drones iranianos.

“Os americanos não têm acesso à maioria dos principais ativos militares do Irã. Os lugares que bombardeiam geralmente não têm grande importância. Por outro lado, os ativos dos Estados Unidos e de seus aliados na região estão na superfície”, declarou.

Marandi sustentou que essa assimetria proporciona a Teerã uma vantagem defensiva. Enquanto os ataques norte-americanos teriam dificuldade para destruir instalações militares subterrâneas, o Irã poderia atingir bases, portos, aeroportos, centros de energia e outras estruturas essenciais mantidas pelos Estados Unidos e seus parceiros regionais.

Ele advertiu que países como Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait poderão sofrer consequências caso seus territórios e suas instalações sejam utilizados para atacar o Irã. A declaração foi apresentada como um alerta de que Teerã responsabilizará diretamente os governos que oferecerem apoio operacional a Washington.

“O Irã disse que, se os Estados Unidos ou o regime israelense tentarem destruir sua infraestrutura crítica, destruirá a infraestrutura daqueles países que estiverem ajudando a conduzir essa guerra”, afirmou.

Questionado sobre iniciativas de mediação, Marandi minimizou a capacidade de países como Paquistão e Catar de alterar o rumo da crise. Para ele, embora possam facilitar negociações ou atuar na liberação de ativos iranianos, a decisão fundamental depende exclusivamente de Washington e Teerã.

“O Paquistão está mediando, mas, no fim das contas, não são o Paquistão ou o Catar que possuem influência decisiva. São os Estados Unidos e o Irã que precisam tomar uma decisão”, declarou.

A segurança energética mundial também ocupa posição central na análise do professor. Marandi afirmou que a circulação de petróleo pelo Golfo Pérsico foi parcialmente restabelecida após o período mais grave da crise, mas as reservas utilizadas por governos e empresas ainda não teriam sido recompostas.

Segundo ele, o prolongamento da instabilidade poderá reduzir ainda mais os estoques e ampliar os riscos para países dependentes das importações de energia. Nesse cenário, o Estreito de Ormuz passa a ter importância determinante, pois concentra uma parcela relevante do petróleo transportado por via marítima.

Marandi foi enfático ao afirmar que o Irã não aceitará o controle norte-americano sobre a passagem.

“Os Estados Unidos não cederão, mas os iranianos estão determinados a garantir que eles não tenham controle sobre o estreito. Se isso significar guerra, o Irã está preparado para a guerra”, disse.

“O Irã não permitirá que os Estados Unidos controlem qualquer lugar do Golfo Pérsico ou do Estreito de Ormuz. Também não permitirá que ataquem o país sem serem punidos”, acrescentou.

O professor também comentou os ataques contra uma ferrovia que liga o Irã a corredores comerciais relacionados à China, à Rússia e à Ásia Central. Ele afirmou que a estrutura será reparada rapidamente e considerou o episódio uma demonstração de que os objetivos norte-americanos ultrapassam a questão nuclear.

Para Marandi, o verdadeiro propósito seria limitar o desenvolvimento econômico iraniano e dificultar a integração do país às redes comerciais euroasiáticas.

“O verdadeiro alvo não é o programa nuclear. O alvo é o Irã. É impedir que o Irã cresça como país”, afirmou.

Apesar dos prejuízos provocados pelos ataques, o analista disse acreditar que Teerã possui capacidade técnica, científica e industrial para reconstruir as instalações atingidas. Ele destacou que décadas de sanções estimularam o desenvolvimento de setores nacionais e reduziram a dependência iraniana de fornecedores estrangeiros.

“O Irã tornou-se muito autossuficiente e possui uma população altamente educada. O país perseverará e reparará os danos. Esse é o preço que se paga pela independência”, declarou.

Marandi também apontou que a resistência iraniana não se limita às capacidades militares. Segundo ele, existe uma dimensão social, cultural e religiosa que fortalece a disposição da população para enfrentar sanções, bloqueios e agressões externas.

O professor relacionou essa mobilização à tradição xiita de combate à injustiça e de defesa dos povos considerados oprimidos. Para ele, essa concepção ajuda a explicar tanto a política externa iraniana quanto a formação do chamado Eixo da Resistência, que reúne forças e movimentos aliados de Teerã no Líbano, no Iraque, no Iêmen e em outros pontos do Oriente Médio.

“Os iranianos possuem um sentido de justiça muito forte. Lutar contra o opressor e defender os oprimidos faz parte da cultura religiosa e nacional do país”, explicou.

“Esse sentimento de resistência à injustiça é muito poderoso. É por isso que existe o Eixo da Resistência, uma aliança contra o império e contra o sionismo”, acrescentou.

Na avaliação de Marandi, as grandes manifestações realizadas no Irã durante o conflito demonstram que a pressão externa não conseguiu provocar a ruptura esperada pelos adversários de Teerã. Ele afirmou que, mesmo diante das dificuldades econômicas, milhões de trabalhadores e cidadãos comuns continuam apoiando a defesa do país.

“É um sinal de que o povo iraniano está absolutamente unido contra a agressão do império”, declarou.

O professor observou que as manifestações também devem ser interpretadas como uma mensagem política aos Estados Unidos e a Israel. Para ele, a população iraniana busca mostrar que não aceitará abandonar o apoio aos palestinos nem renunciar à soberania nacional em troca do fim das sanções.

Marandi afirmou ainda que alguns governos do Golfo começaram a perceber os riscos de permitir que Washington utilize seus territórios contra o Irã. No entanto, avaliou que esses países continuam profundamente dependentes dos Estados Unidos e das estruturas financeiras e militares ocidentais.

“Alguns fizeram mudanças limitadas e tentaram ser menos hostis ao povo iraniano, mas, no fim das contas, não têm capacidade de ser independentes do império”, disse.

Ao abordar a Revolução Islâmica de 1979, o professor afirmou que o sistema político iraniano não pode ser enquadrado integralmente nas divisões tradicionais entre direita e esquerda. Segundo ele, o projeto revolucionário compartilha com setores da esquerda a defesa da justiça social e a crítica à concentração de riqueza, mas preserva a propriedade privada e rejeita o comunismo.

“O Irã não se opõe ao setor privado nem ao fato de as pessoas terem capital. As pessoas podem ter lojas e negócios. O que não pode governar a sociedade é a ideologia do capitalismo”, explicou.

Para Marandi, quando a acumulação privada passa a determinar toda a vida política e social, ocorre a formação de uma oligarquia capaz de controlar o Estado e aprofundar a desigualdade. Na visão do professor, esse processo estaria atualmente mais avançado nos Estados Unidos do que no Irã.

Ao mesmo tempo, acrescentou, a tradição religiosa iraniana procura fortalecer a família, a comunidade e os direitos individuais, sem adotar o individualismo como princípio central da organização social.

“Não é comunista, mas acredita na responsabilidade comunitária. Há elementos encontrados tanto na direita quanto na esquerda, no sentido tradicional, que também podem ser identificados no Islã e, particularmente, na fé xiita”, afirmou.

Marandi concluiu que a política externa iraniana deve ser compreendida a partir desse compromisso com a soberania e com a resistência às formas de dominação. Ele recordou que, desde 1979, Teerã rompeu relações com Israel e com o regime do apartheid na África do Sul, apoiou movimentos de libertação e estabeleceu relações com países submetidos a sanções e pressões norte-americanas.

Entre os exemplos citados está a cooperação com a Venezuela, particularmente nos setores elétrico, petrolífero e de refino, durante os períodos de agravamento das sanções impostas por Washington.

Para o professor, essa orientação explica por que o confronto entre Estados Unidos e Irã ultrapassa questões específicas, como o programa nuclear ou o controle de uma rota marítima.

Trata-se, em sua avaliação, de uma disputa sobre o direito do Irã de preservar uma política externa independente, manter alianças regionais e participar da reorganização econômica da Eurásia.

“Os Estados Unidos fracassarão porque o povo iraniano está acostumado às sanções destrutivas e aos ataques. O Irã continuará resistindo”, concluiu.

FOTO: Xinhua/Wen Xinnian

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/marandi-os-eua-perderam-e-terao-que-aceitar/