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Mercados respiram, mas incerteza permanece com petróleo elevado e tensão no Oriente Médio

Alívio momentâneo nos mercados não elimina riscos de inflação persistente e instabilidade global diante da tensão no Oriente Médio.

Nesta segunda-feira, 23 de março, os mercados iniciam a semana com algum alívio após dias de forte tensão geopolítica. O preço do petróleo recua cerca de 9%, aproximando-se da faixa de US$ 95 por barril, em reação a declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicando conversas “positivas e construtivas” com o Irã e o possível adiamento de ataques por cinco dias.

Apesar desse alívio pontual, o cenário segue altamente incerto. O fim de semana foi marcado por uma escalada relevante nas tensões, com ameaças de ataques mais intensos por parte dos Estados Unidos e respostas do Irã sinalizando possíveis ações contra infraestruturas estratégicas no Golfo, incluindo instalações energéticas. Ainda que não tenha havido destruição significativa até o momento, o risco permanece elevado.

O ponto central da preocupação global continua sendo o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 25 milhões de barris de petróleo por dia, de um total de aproximadamente 100 milhões consumidos globalmente. Trata-se de um gargalo crítico do sistema energético mundial. Para efeito de comparação, os Estados Unidos consomem cerca de 20 milhões de barris diários, enquanto a China responde por cerca de 15 milhões.

Nesse contexto, o movimento de hoje reflete mais um alívio técnico do que uma mudança estrutural. Juros futuros recuam, a bolsa brasileira apresenta recuperação e o câmbio se valoriza, mas ainda é cedo para afirmar que há uma reversão consistente de tendência.

No Brasil, a semana será marcada por uma agenda relevante de indicadores macroeconômicos. O destaque é o IPCA-15, que trará uma prévia da inflação entre meados de fevereiro e março. Além disso, o Banco Central divulgará, na quinta-feira, o Relatório de Política Monetária, documento fundamental para entender a leitura da autoridade monetária sobre o cenário econômico.

Outro ponto importante é a divulgação da ata do Copom, após a recente decisão de reduzir a taxa Selic de 15% para 14,75%. Vale lembrar que o comitê opera atualmente com sete diretores, abaixo do total de nove membros, o que adiciona um elemento adicional de incerteza institucional.

As expectativas de inflação seguem em deterioração. O relatório Focus mais recente aponta uma elevação relevante, com a projeção para 2026 subindo para 4,17%, ante cerca de 3,90% quatro semanas antes. A inflação de fevereiro já surpreendeu negativamente, e há expectativa de números ainda mais pressionados em março, especialmente em função do choque do petróleo.

Além disso, há limitações na capacidade da Petrobras de conter os preços dos combustíveis por longos períodos, dado o descompasso entre preços domésticos e internacionais. Esse fator tende a pressionar ainda mais a inflação nos próximos meses.

No cenário de política monetária, as projeções indicam uma Selic ao redor de 12,50% no final do ano, com espaço para cortes adicionais bastante limitado. A tendência parece ser de reduções graduais, possivelmente em movimentos de 0,25 ponto percentual, com a taxa convergindo para algo próximo de 14% antes de uma pausa mais prolongada.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve sinalizou manutenção dos juros na faixa de 3,50% a 3,75% ao longo do ano, refletindo os efeitos inflacionários do choque do petróleo e o ambiente global mais instável.

Por fim, os modelos do Banco Central brasileiro seguem baseados em três variáveis-chave: taxa de câmbio, preço do petróleo e bandeira tarifária de energia elétrica. Em um cenário mais benigno, com petróleo a US$ 60 e câmbio a R$ 5, a inflação convergiria gradualmente. No entanto, no cenário atual, com petróleo próximo ou acima de US$ 100 e maior pressão cambial, a convergência torna-se mais difícil.

Mesmo em cenários relativamente favoráveis, as projeções indicam inflação ao redor de 3,3% no horizonte relevante da política monetária (segundo trimestre de 2027), ainda acima da meta. Diante disso, a estratégia do Banco Central tende a ser mais cautelosa: realizar ajustes marginais na taxa de juros e aguardar maior clareza sobre a trajetória inflacionária, especialmente em um ambiente externo mais adverso.

FOTO: Freepik

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/mercados-respiram-mas-incerteza-permanece-com-petroleo-elevado-e-tensao-no-oriente-medio