A lógica popular de Lula encontra respaldo no chamado efeito multiplicador do consumo.
247 — Não foi em um auditório da Faria Lima, nem nas salas fechadas do Ministério da Fazenda ou nas cátedras acadêmicas tradicionais. Foi sentado em sua residência oficial, em uma conversa franca e direta transmitida a milhões de pessoas pelo podcast Flow, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resumiu, em uma única formulação, a essência do modelo econômico que transformou o Brasil e que desconcerta a ortodoxia liberal há mais de duas décadas:
“Presta atenção numa frase que você não vai ouvir na Unicamp nem na Fundação Getulio Vargas, é uma frase minha: muito dinheiro na mão de poucos é pobreza. Pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza.”
A declaração, dita ao apresentador Igor Coelho a poucos dias da ida às urnas, não é mero jogo de palavras ou retórica eleitoral. Trata-se da síntese viva da doutrina econômica de Lula: a teoria de que o verdadeiro motor do desenvolvimento capitalista de uma nação periférica não é o rentismo nem o represamento da renda no topo da pirâmide, mas sim a capacidade de fazer a moeda circular na base da sociedade, transformando o consumo popular em dinamismo produtivo.
A mecânica da roda viva da economia popular
Ao detalhar sua tese, o presidente desmontou a lógica do ajuste fiscal permanente que sacrifica o andar de baixo em nome do pagamento de juros:
“Quando você consegue fazer o dinheiro circular na mão de milhões de pessoas, o cara que ganha R$ 100 vai na padaria comprar um pão a mais, vai comprar um caderno para o filho, vai comprar uma roupa. A padaria fatura mais, o comércio precisa de mais um atendente, a fábrica contrata para produzir mais e você faz a roda gigante da economia girar.”
A lógica popular de Lula encontra respaldo no chamado efeito multiplicador do consumo, conceito consagrado por John Maynard Keynes, mas que na voz do ex-metalúrgico ganha contornos de sabedoria prática. Enquanto o super-rico tende a reter grandes parcelas de capital em aplicações financeiras ou em remessas improdutivas ao exterior, o trabalhador de baixa renda possui propensão marginal a consumir próxima de 100%: cada centavo adicional vira comida, vestuário, material escolar e serviços locais.
Lula lembrou a herança encontrada ao assumir o país e contrapôs os resultados de sua visão de mundo aos números frios dos céticos:
- Taxa de desemprego em mínimos históricos (5,3% no trimestre encerrado em agosto);
- Recorde absoluto de trabalhadores com carteira assinada;
- A maior massa de rendimento real da história brasileira;
- Isenção de Imposto de Renda ampliada para quem ganha até R$ 5 mil mensais;
- Reajustes reais do salário mínimo e do Bolsa Família preservados pelo orçamento.
“Dizem que eu tenho sorte. Não é sorte, é método. É saber que dinheiro na mão do povo não é gasto, é investimento”, frisou.
Contra o parasitismo rentista e os “gostosões” da desoneração
A aula do presidente não poupou o andar de cima. Em tom indignado, Lula denunciou a distorção tributária histórica que sobrecarrega a produção e o trabalho enquanto blinda os ganhos puramente especulativos:
“A Petrobras pagou 45 bilhões de reais em dividendos. As pessoas que recebem esses dividendos paradas em casa não pagaram 1% de imposto. Os ‘gostosões’ não pagam nada. Agora, o trabalhador que acorda às 5 da manhã e faz duas horas extras tem que deixar um pedaço no imposto de renda? Nós temos que cobrar de quem tem dinheiro.”
O chefe do Executivo relembrou que, quando reassumiu o Planalto em 2023, deparou-se com mais de R$ 540 bilhões em desonerações e benesses fiscais concedidas a setores privilegiados. “Eles não gostam de pagar imposto porque foram maioria no Congresso, na imprensa, no Judiciário. Mas na sociedade eles são minoria. A reforma tributária que aprovamos veio para corrigir essa aberração histórica: simplificar para quem produz e cobrar a conta de quem vive de juros e herança.”
O freio na sangria: bets, juros abusivos e a defesa do orçamento familiar
A tese de que a renda precisa alimentar a vida real também motivou as medidas mais drásticas e recentes anunciadas por Lula durante a transmissão: a guerra aberta contra as empresas de apostas virtuais (as bets) e contra o superendividamento bancário.
Ao justificar a Medida Provisória emergencial contra as plataformas de jogos, o presidente revelou bastidores dramáticos de reuniões no Palácio da Alvorada com trabalhadores e pequenos comerciantes falidos pelo vício digital:
“Eu vi mãe de família endividada em mais de 700 mil reais, gente vendendo a casa, homem chorando porque perdeu tudo no celular de madrugada. Me disseram: ‘Presidente, não mexa nisso porque time de futebol e deputado vão ficar contra’. Eu respondi que não tem conversa. A minha obrigação é não deixar o dinheiro do arroz, do feijão e da merenda da criança ser sugado por essa praga.”
No mesmo sentido, Lula atacou as taxas astronômicas do crédito rotativo do cartão de crédito — que ultrapassam 400% ao ano —, classificando-as como “um crime contra a população”. Anunciou que o governo articula com o Banco Central travas para proibir os bancos de empurrarem cartões não solicitados e antecipou os detalhes do Desenrola 3, que prevê megaleilões com até 95% de desconto para recomprar e liquidar as dívidas de brasileiros que devem até R$ 10 mil.
Uma pedagogia de classe
Ao encerrar a reflexão, Lula reafirmou que governar não é um exercício de planilhas tecnocráticas, mas uma escolha explícita de lado:
A “aula” de Lula no Flow não apenas consolidou as diretrizes econômicas de seu projeto político, mas fixou uma verdade que a história recente teima em comprovar: quando o povo tem renda, o país cresce; quando o dinheiro fica retido nos cofres da minoria, a nação adoece.
FOTO: Ricardo Stuckert
FONTE: https://www.brasil247.com/economia/muito-dinheiro-na-mao-de-poucos-e-pobreza-pouco-dinheiro-na-mao-de-muitos-e-riqueza-a-aula-de-economia-de-lula/