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“Não houve golpe interno do chavismo”, diz Breno Altman

Jornalista relata conversas em Caracas e afirma que reação ao ataque de 3 de janeiro foi de enfrentamento, não de ruptura interna.

247 – O jornalista Breno Altman afirmou que não há qualquer evidência de ruptura ou traição no interior do chavismo após os acontecimentos de 3 de janeiro na Venezuela. Segundo ele, as informações coletadas em viagem recente a Caracas reforçam a avaliação de que a liderança governista reagiu de forma coesa diante da ofensiva estadunidense.

As declarações foram feitas durante entrevista ao programa Bom Dia 247. Altman relatou que permaneceu uma semana na capital venezuelana, onde conversou com diversas lideranças políticas, entre elas a presidente encarregada Delcy Rodríguez e Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente Nicolás Maduro. O jornalista também afirmou ter ouvido dirigentes críticos ao chavismo para compreender os desdobramentos do episódio.

“Eu estou absolutamente convencido e a minha viagem reforçou essa convicção que eu já possuía antes, de que essas histórias que circulam sobre traição, golpe interno do chavismo, essas histórias não têm qualquer sustentação fática, não há nenhum elemento que possa levar a esta conclusão”, declarou.

Conversa com Delcy Rodríguez

Altman relatou que manteve uma reunião de duas horas com Delcy Rodríguez, na qual teve acesso a trocas de mensagens realizadas nas horas seguintes ao ataque de 3 de janeiro. Segundo ele, o conteúdo indicaria que a reação inicial da liderança chavista foi de enfrentamento.

“O ataque ocorreu às 2 da manhã, exatamente às 2:01 da manhã de Caracas. Depois que ocorre o ataque, através de um intermediário, Marco Rubio diz: ‘Delcy Rodríguez tem 15 minutos para entrar em contato conosco e negociar ou nós vamos para uma segunda onda de ataque’”, afirmou.

De acordo com o jornalista, ao ser informada de que o presidente Nicolás Maduro estaria morto, Rodríguez teria respondido: “Não há negociação. Pode dizer que nós não vamos negociar nada com os Estados Unidos”. Posteriormente, segundo Altman, foi informado que Maduro estaria sob custódia norte-americana. “A resposta de Delcy Rodríguez foi: ‘Exigimos uma prova de vida para qualquer negociação’”, relatou.

Altman sustenta que a divulgação de uma fotografia de Maduro sob custódia teria sido apresentada como prova de vida e que, diante desse cenário, o governo venezuelano optou por negociar.

Avaliação sobre a opção militar

O jornalista afirmou que a alternativa de enfrentamento militar direto não seria viável nas condições apresentadas. “Essa opção de enfrentamento militar, ela era, à luz do que estava acontecendo, uma opção suicida”, disse.

Segundo ele, o tipo de ofensiva descrita envolveria guerra aérea, naval e cibernética, em que os Estados Unidos teriam superioridade tecnológica. “O sistema defensivo venezuelano fracassou no dia 3 de janeiro”, afirmou, acrescentando que a Venezuela teria capacidade de resistência em caso de invasão terrestre, mas não diante de uma ofensiva de alta tecnologia.

Altman também declarou que o país estaria isolado no cenário internacional. “A Venezuela travou e trava esse combate isolado. Não teve apoio de Rússia e China, apoio para valer, não teve escudo militar para proteger a Venezuela, não teve apoio regional”, disse.

Conversas com Nicolás Maduro Guerra

O jornalista relatou ainda que conversou com Nicolás Maduro Guerra sobre a situação do presidente Nicolás Maduro. Segundo ele, o filho afirma manter contato telefônico diário com o pai dentro das limitações impostas pelas autoridades norte-americanas.

“Ele fala com o pai uma ou duas vezes por dia. […] Nicolás Maduro precisa agendar a ligação. Ele não tem acesso direto ao telefone”, explicou. Altman acrescentou que, segundo o relato recebido, Maduro pode receber cartas e livros.

Ao comentar especulações sobre possíveis divergências internas, o jornalista negou conflito entre Maduro e Delcy Rodríguez. “Se fosse por relações de amizade e houvesse de fato algum tipo de conflito entre Nicolás Maduro e Delcy Rodríguez, a sardinha que eu puxaria seria para o presidente Nicolás Maduro e não para a presidente encarregada Delcy Rodríguez”, afirmou.

Ele acrescentou que, após as conversas realizadas em Caracas, concluiu que o presidente apoia a condução adotada por Rodríguez. “Eu fiz as perguntas mais delicadas possíveis e as respostas me convenceram de que o pai não apenas está apoiando a orientação de Delcy Rodríguez, como ele a exerce diariamente, através de mensagens, um papel de orientação do governo”, declarou.

Para Altman, os fatos apurados indicam que a liderança chavista manteve unidade diante da crise e que não há elementos concretos que sustentem a tese de golpe interno.

Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/nao-houve-golpe-interno-do-chavismo-diz-breno-altman