Jornalista aponta caso Master como estopim de uma “Lava Jato 2” e alerta para ofensiva de vazamentos, pressão institucional e disputa eleitoral rumo a 2026.
247 – A crise em torno do Banco Master pode estar inaugurando um novo ciclo de instabilidade política e judicial no Brasil, com traços semelhantes aos que antecederam a Operação Lava Jato. A avaliação é do jornalista Luís Nassif, que afirma enxergar sinais de uma rearticulação do lavajatismo, agora direcionada a pressionar o Supremo Tribunal Federal e a moldar a narrativa pública para o período pré-eleitoral.
No artigo publicado no Jornal GGN, Nassif sustenta que o caso Master teria se transformado no estopim para uma espécie de “Lava Jato 2”, impulsionada por vazamentos seletivos, articulações institucionais e pela construção de um ambiente de suspeição generalizada sobre a política.
Caso Master e repetição de um roteiro conhecido
Segundo Nassif, o cenário atual repete o mesmo padrão que se formou antes da Lava Jato: disseminação de uma sensação de corrupção fora de controle, um caso com ramificações amplas no aparelho estatal e capacidade de alimentar investigações em várias frentes. Para ele, esse tipo de situação favorece a condução política do noticiário e das apurações por meio de vazamentos calculados.
O jornalista afirma que “quem controla os vazamentos controla a narrativa”, e avalia que a combinação entre cobertura midiática e ações investigativas pode ser usada para direcionar o debate público, especialmente em um momento de reorganização eleitoral.
Pressão sobre o STF e fortalecimento da Polícia Federal
Nassif argumenta que um dos eixos centrais desse novo movimento seria uma ofensiva contra o devido processo legal, com destaque para a relação entre delegados da Polícia Federal e setores da imprensa, em atrito direto com o Supremo. Na visão dele, esse alinhamento seria estratégico para ampliar o poder institucional da PF, conferindo-lhe maior autonomia e protagonismo político.
O artigo também associa o atual ambiente de tensão à ofensiva da Polícia Federal contra o crime organizado ligado à Faria Lima, o que, segundo Nassif, teria provocado reação desses setores econômicos contra o STF.
“Caixa amarela” e alerta entre lavajatistas
Outro ponto levantado pelo jornalista é a chamada “caixa amarela da 13ª Vara”, que, segundo ele, reuniria informações explosivas sobre esquemas de chantagem ligados à Lava Jato e interferências de órgãos policiais norte-americanos. Nassif sustenta que o material teria colocado “toda a PF lavajatista em estado de alerta”, por expor métodos e articulações do passado.
O texto também menciona contratos envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli como elementos que abririam novos flancos para pressões institucionais e ofensivas políticas.
Cármen Lúcia e alerta sobre samba-enredo
Ao analisar o papel do Tribunal Superior Eleitoral, Nassif afirma que a ministra Cármen Lúcia, hoje presidente do TSE, tem sido alvo de um processo de exposição pública semelhante ao observado antes da Lava Jato, quando assumiu a presidência do STF. Ele aponta que as Organizações Globo teriam iniciado um movimento de valorização pessoal da magistrada, com entrevistas que destacariam traços de sua personalidade e origem.
No artigo, Nassif cita a declaração recente de Cármen Lúcia sobre um samba-enredo de uma escola de samba de Niterói que homenageia a trajetória de Lula e sua família. A ministra afirmou que o samba-enredo tornaria o “ambiente propício para ilícitos eleitorais”, acrescentando que “a festa do carnaval não pode ser fresta para ilícitos eleitorais”. Ela ainda declarou haver “risco muito concreto que venha a acontecer alguma ilícito que será objeto, com toda certeza, dessa justiça eleitoral”.
Nassif considera a intervenção desproporcional e argumenta que a legislação eleitoral caracteriza campanha antecipada apenas quando há pedido explícito de votos, o que não se aplicaria ao caso citado.
Caso Master no STF e mudança de relatoria
No Supremo Tribunal Federal, Nassif afirma que a pressão política e midiática contra Dias Toffoli teria resultado na transferência do comando do caso Master para o ministro André Mendonça, descrito por ele como alguém com histórico de complacência com o bolsonarismo.
O jornalista cita como episódio decisivo uma suspeita de grampo em uma reunião reservada do STF, cuja autoria teria sido atribuída a Toffoli. Segundo Nassif, a única evidência seria o fato de que os diálogos divulgados por veículos de imprensa apresentavam frases favoráveis ao ministro.
Ele lembra que há histórico de supostos grampos no STF, mencionando casos anteriores, como a denúncia envolvendo o senador Demóstenes Torres e o ministro Gilmar Mendes, além do episódio relatado pelo então presidente do Supremo, ministro Nelson Jobim, que deu origem à CPI do Grampo.
Nassif destaca ainda que, pouco depois de assumir a relatoria, André Mendonça teria realizado uma reunião de duas horas com a Polícia Federal para alinhamento de posição.
Fachin e vulnerabilidade institucional
O texto também aponta a presidência do STF, hoje sob Luiz Edson Fachin, como outro fator de vulnerabilidade. Nassif afirma que a atuação do ministro durante a Lava Jato foi “indevidosa”, sugerindo que sua posição institucional poderia ser explorada em um novo ciclo de instabilidade.
CPI do Crime Organizado e ofensiva no Senado
No Senado, Nassif menciona o papel da CPI do Crime Organizado, presidida pelo senador Alessandro Vieira. O jornalista descreve o parlamentar como alguém que ganha visibilidade por meio de denúncias de grande repercussão e afirma que ele teria obtido mais manchetes atacando Dias Toffoli do que apresentando conclusões concretas da comissão.
O artigo também destaca a proposta de Alessandro Vieira para equiparar crime organizado a terrorismo, apontada por Nassif como uma reivindicação histórica de forças de segurança dos Estados Unidos, que buscariam ampliar capacidade de intervenção direta no Brasil.
Juiz Ricardo Leite e o controle do caso em Brasília
Outro personagem central apontado no texto é o juiz Ricardo Leite, titular da 1ª Vara Federal de Brasília. Nassif descreve sua trajetória como marcada por oscilações: garantista durante a Operação Zelotes, mas implacável quando assumiu processos ligados à Lava Jato.
O jornalista menciona que, naquele período, o magistrado tentou enfraquecer o Instituto Lula e chegou a tomar medidas consideradas abusivas, como tentar apreender o passaporte do presidente. Para Nassif, Ricardo Leite volta a ser peça estratégica por estar no centro de decisões ligadas ao caso Master.
Empoderamento corporativo da PF e tensão permanente
O artigo também aborda mudanças estruturais na Polícia Federal. Nassif destaca que, em 2014, a Lei 13.047 passou a exigir que o Diretor-Geral da corporação fosse delegado de classe especial da própria PF, limitando a escolha direta do presidente da República.
Para o jornalista, esse empoderamento corporativo, consolidado entre 2013 e 2015, fortaleceu a autonomia da PF e produziu uma tensão institucional permanente, elevando a judicialização da política e ampliando o risco de instabilidade para governos submetidos a investigações constantes.
A volta do “monstro” e a disputa por 2026
Ao concluir sua análise, Nassif afirma que o país entra em um ano pré-eleitoral com um caso de grande capacidade de gerar narrativas e crises sucessivas, com postos-chave ocupados por figuras que poderiam favorecer um ambiente de desestabilização política.
Na avaliação do jornalista, o caso Master reúne condições para alimentar uma rede de alianças semelhante à que sustentou a Lava Jato e influenciar diretamente o debate público e institucional. Para ele, o cenário é claro: “o monstro acordou novamente”.
Foto: Rosinei Coutinho/STF
FONTE: https://www.brasil247.com/brasil/nassif-ve-retorno-da-lava-jato-com-cerco-ao-stf