Pesquisadores americanos concluem que a política externa de Trump fica mais clara se analisada pela ótica dos sistemas dinásticos europeus anteriores ao século 16.
A nova ordem mundial que emerge da caótica política externa do presidente dos EUA, Donald Trump, tem sido descrita por muitos como um renascimento moderno da Doutrina Monroe, rebatizada de Doutrina Donroe, que evoca uma estratégia imperial do século 19 para assegurar a dominância americana nas Américas (esferas de influência), eliminar adversários desestabilizadores e a apropriação de recursos naturais. Mas os ataques de Trump a aliados estratégicos dos EUA, como a Otan, têm intrigado especialistas em política externa, que veem incoerência e irracionalidade nos seus atos. Para dois pesquisadores americanos Stacie Goddard, professora de ciência política no Wellesley College, e Abraham Newman, professor de relações internacionais na Universidade de Georgetown, a política externa de Trump fica mais clara se analisada pela ótica dos sistemas dinásticos europeus anteriores ao século 16, o que eles classificam de um “neomonarquismo”.
Em um paper, “Further Back to the Future: Neo-Royalism, the Trump Administration, and the Emerging International System” (Ainda mais de volta para o futuro: o neomonarquismo, o governo Trump e o sistema internacional emergente), Goddard e Newman argumentam que a política externa dos EUA tornou-se ferramenta para canalizar dinheiro e status para Trump e seus associados mais próximos. Não se trata de interesses nacionais, mas os interesses das elites que o cercam, que eles chamam de “clique” (camarilha). O neomonarquismo não evoca o retorno dos reis e o direito divino, trata-se de um “sistema internacional estruturado por um pequeno grupo de hiperelites que utilizam as interdependências econômicas e militares modernas para extrair recursos materiais e de status para si mesmos”, apontam os autores. “Em vez de mobilizar recursos para maximizar o poder do Estado, as negociações comerciais americanas têm sido usadas para extrair recursos para o presidente e seus aliados mais próximos.” As tarifas generalizadas do “dia da libertação”, anunciadas em abril, atingiram especialmente países aliados na América do Norte, Europa e Ásia. Para proteger seu comércio das sobretaxas americanas, o Japão e a Coreia do Sul, dois países-chave em qualquer estratégia para conter a influência da China, prometeram, em conjunto, centenas de bilhões em fundos de investimento em projetos a serem aprovados pelo próprio Trump. Em outro caso emblemático, o Vietnã acelerou a aprovação de um campo de golfe de US$ 1,5 bilhão para a família Trump, enquanto negociava a redução de suas tarifas alfandegárias com o governo americano. Mais revelador é o caso da Suíça. Depois de impor uma tarifa de 39% sobre as importações americanas desse país, um grupo de bilionários suíços foi à Casa Branca presentear o presidente americano com uma barra de ouro, no valor de US$ 130 mil, e um relógio de mesa Rolex. Eventualmente a Suíça obteve algum alívio tarifário, mas a que custo? Para muitos suíços, o pagamento da “propina” a Trump foi algo “indigno”.
Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos em janeiro, Trump confirmou o que as autoridades europeias suspeitavam há tempos: a sobretaxa contra a Suíça tinha natureza pessoal. Ele reconheceu que impôs tarifas mais altas à Suíça, em parte, por ter ficado “incomodado” com um telefonema da então chefe de governo do país Karin Keller-Sutter (cujo mandato terminou em dezembro). Segundo Trump, ela foi “muito repetitiva”. “Ela dizia: ‘Não, não, não, vocês não podem fazer isso, 30%. Vocês não podem fazer isso. Somos um país muito, muito pequeno’”, contou ele. “Ela simplesmente me irritou”, disse Trump, que após a conversa anunciou a tarifa de 39% sobre prdutos suíços. Ao fazer apelos personalistas para tentar proteger suas economias das tarifas arbitrárias de Trump, ou para para influenciar a política externa dos EUA em relação à Ucrânia, por exemplo, os líderes de outros países agem, inadvertidamente, como atores neomonarquistas. Trump não quer cooperação, mas submissão e bajulação. Quem não segue essa cartilha pode sofrer consequências bastante graves, como descobriu o premiê indiano, Narendra Modi, ao se recusar a acatar a alegação de Trump de que havia encerrado o conflito entre a Índia e o Paquistão e que deveria ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Trump puniu a Índia com uma sobretaxa de 50% — tarifa maior do que a da rival China, que negociou um redução para 30%, graças a sua dominância no fornecimento de terras-raras. Os autores não citam o caso do Brasil, também atingido com um tarifaço de 50% em retaliação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro — um bajulador que se vangloriava de ser o Trump brasileiro — por tentativa de golpe de Estado. Mas é possível inferir que o posicionamento firme, sem exagero ou lamúria, do presidente Lula, combinado com os interesses de setores americanao, assim como questões inflacionárias internas, contribuíram para o alívio parcial das tarifas e renderam a “química” entre os dois líderes. Goddard e Newman observam que Trump vê certos líderes mundiais como detentores de algo semelhante à soberania monárquica e prioriza as relações com esses grupos dominantes. Não foi por acaso que sua primeira visita internacional — tanto no primeiro como no segundo mandato — não foi a aliados europeus, como seria a tradição, mas a governantes dinásticos no Oriente Médio, que o trataram “como realeza”. E onde Trump vai, sua camarilha o segue, especialmente seus filhos, que usam essas negociações entre camarilhas para expandir os investimentos imobiliários da Organização Trump no exterior. Assim como os governantes que imita, Trump tem deixado claro seu desprezo por atores fora da rede neomonarquista. Suas zombarias ao primeiro-ministro canadense (primeiro Justin Trudeau e, depois, Mark Carney), chamando-o de “governador” do 51 Estado americano, ou sua afirmação de terá a soberania da Groenlândia “de um jeito ou de outro”, “quer eles gostem ou não”, visam colocar os governos canadense e dinamarquês em uma posição submissa. “Isso também envia um sinal a outros líderes mundiais de que sua posição relativa no sistema internacional não se baseia em seu status legal, mas em seu relacionamento com Trump e sua camarilha”, segundo Goddard e Newman. O propósito da ordem neomonarquista, defendem os autores, é desenvolver regras que permitam que um pequeno grupo mantenha o domínio tanto em bens materiais quanto simbólicos. Assim, Trump rejeita as noções de igualdade soberana e não interferência e se baseia na ideia de um grupo neo-monarquista é dominante. Por isso, ele apenas vê tais panelinhas como pares, enquanto governos de democracia liberal não merecem reconhecimento. Trump nunca escondeu sua admiração pelo líder russo Vladimir Putin que, segundo Goddard e Newman, adota em seu regime elementos de uma ordem neomonarquista. O mesmo vale para outros líderes, incluindo Recep Erdogan (Turquia), Viktor Orbán (Hungria), Narendra Modi (Índia), Mohammed bin Salman (Arábia Saudita) e Xi Jinping (China). Para os autores, esses líderes se apoiam em práticas monarquistas que nunca desapareceram de seus sistemas políticos. Mas nenhum deles tinha meios de transformar seu estilo de governo interno em uma ordem mundial. Já a posição de Trump, como presidente da maior potência econômica-financeira e militar do mundo, permite a ele atuar como um “ordenador mundial”, dizem Goddard e Newman. Entre os membros da camarilha de Trump — além da sua família — e que se beneficiam de uma ordem neomonarquista estão líderes empresariais nos setores globais de tecnologia e finanças. De Rupert Murdoch (News Corp) a Peter Thiel (PayPal, Founders Fund e Palantir Technologies) e Erik Prince (Blackwater), as hiperelites estão jogando jogos estratégicos sem se prenderem a fronteiras transnacionais ou as legislações dos Estados soberanos. Em última análise, argumentam os autores, a durabilidade de qualquer ordem neomonarquista depende da combinação do poder absoluto com as hiperelites que controlam o capital, a informação e os meios de força. Essa união de empreendedores da ordem com vastas concentrações de capital pode se mostrar significativa na formação da ordem futura. Em recente artigo publicado em The New York Times (26/1), Goddard e Newman observam que um mundo neomonaquista não é bom nem para os EUA, nem para a humanidade, pois seu objetivo principal é a exploração por poucos, em vez da segurança ou prosperidade para muitos. E para que os próprios americanos e demais países possam enfrentar de forma efetiva os desafios impostos por Trump e sua camarilha, o primeiro passo é identificar com clareza o novo status dos EUA: um regime político neomonárquico perverso.
Por Suzi Katzumata — VALOR ECONÔMICO
LEGENDA DA FOTO: Trump recebe líder saudita Mohamed bin Salman — Foto: Nathan Howard/Politico/Bloomberg
FONTE: https://valor.globo.com/mundo/artigo/analise-neomonarquismo-a-nova-ordem-patrocinada-por-trump.ghtml?utm_source=Whatsapp&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar