Gabrielli diz que falta de refino e venda de ativos reduziram margem do Brasil para conter alta e especulação nos combustíveis.
247 – A escalada dos preços dos combustíveis no Brasil, em meio à guerra e à volatilidade do mercado internacional de petróleo, expôs uma fragilidade estrutural do país: a dependência de importações de derivados. Na avaliação do economista José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras entre 2005 e 2012 e professor da Universidade Federal da Bahia, esse é o ponto central para entender por que o mercado interno reage com rapidez à pressão externa e abre espaço para movimentos especulativos.
Em entrevista ao canal do YouTube Tutaméia, Gabrielli afirmou que o Brasil não enfrenta escassez de petróleo bruto, mas perdeu capacidade de amortecer choques de preços no diesel, na gasolina e no gás de cozinha. “Nós perdemos a capacidade de segurança energética não no petróleo, mas nos derivados”, declarou. Segundo ele, a atual configuração do setor deixou o país mais exposto às oscilações internacionais e reduziu os instrumentos de intervenção sobre a formação de preços ao consumidor.
Ao longo da entrevista, Gabrielli sustentou que o problema brasileiro não está na produção de óleo, já que o país exporta mais do que consome, mas na insuficiência da estrutura de refino. “Nós estamos exportando 1.6 milhões de barris por dia de petróleo. Então, nós temos mais petróleo do que precisamos. Nós não temos refino. Nós precisamos importar diesel, nós precisamos importar gasolina e nós precisamos importar gás liquefeito de petróleo, gás de cozinha”, disse.
A partir dessa avaliação, ele relacionou a alta nas bombas à vulnerabilidade criada pela dependência externa de derivados. Para Gabrielli, se o país tivesse ampliado sua capacidade de refino no passado, o impacto das oscilações internacionais poderia ser mais lento e menos intenso sobre os preços domésticos. “Se nós tivéssemos feito mais refinaria, mais capacidade de refino no passado, nós teríamos uma situação distinta, porque nós teríamos maior capacidade de produção nacional do diesel, da gasolina e do gás de cozinha”, afirmou.
Na mesma linha, Gabrielli disse que a estrutura atual impede uma resposta mais robusta diante de momentos de tensão no mercado internacional. “Objetivamente nós não temos a capacidade de refino para viabilizar a produção suficiente de diesel que o país necessita”, resumiu. Na entrevista, ele também afirmou que o crescimento econômico amplia esse desafio, porque a expansão da atividade eleva o consumo de diesel, gasolina e gás de cozinha, pressionando ainda mais a necessidade de importações.
O ex-presidente da Petrobras afirmou ainda que os biocombustíveis, embora tenham papel relevante, não resolvem o problema no curto prazo. Segundo ele, o Brasil já opera em patamares elevados de mistura e enfrenta limites técnicos e produtivos. “Nós também estamos no limite da utilização do biodiesel e no limite da utilização do etanol. Nenhum país do mundo tem 27% de etanol misturado na gasolina e 15% de diesel misturado no diesel”, declarou. Para Gabrielli, isso significa que a substituição das importações encontra barreiras estruturais.
Outro ponto destacado na entrevista foi a perda de instrumentos de atuação direta no mercado de distribuição. Gabrielli afirmou que a privatização da BR Distribuidora retirou da Petrobras uma alavanca importante para influenciar margens e dar maior estabilidade ao abastecimento. “A Petrobras não tem nenhuma distribuidora. A Petrobras não vende para o mercado final, ela vende para as distribuidoras”, disse. Em sua análise, essa ausência limita a capacidade de resposta do Estado em momentos de pressão sobre os preços.
Ao comentar a antiga função da BR Distribuidora, Gabrielli afirmou que a empresa ajudava a organizar a concorrência e a conter oscilações abruptas. “Ela tinha uma capacidade de ajustar os seus, as suas margens, de tal maneira que ela acabava dando, criando um certa estabilidade nas margens dos postos”, declarou. Hoje, segundo ele, a Petrobras não dispõe mais deste mecanismo e precisa atuar apenas por meio das refinarias e da relação com distribuidoras privadas.
Na entrevista, Gabrielli também associou a formação dos preços ao comportamento antecipado do mercado, antes mesmo de os custos da cadeia serem integralmente repassados. “A reação do mercado na ponta, ela é uma reação antecipativa, ela não reflete o custo que tá chegando, ela antecipa o que ela espera que vai acontecer”, afirmou. Na visão do economista, esse movimento abre espaço para ampliação de margens por agentes da distribuição e do varejo, especialmente em um ambiente de incerteza internacional.
Para ele, a consequência dessa estrutura é uma vulnerabilidade persistente. “Consequentemente nós estamos numa situação de vulnerabilidade energética em relação a derivados de petróleo”, disse. Ao concentrar sua análise nesse ponto, Gabrielli indicou que o debate sobre combustíveis no Brasil não se resume à variação do barril no mercado internacional, mas envolve uma questão de estrutura produtiva, capacidade de refino e presença estatal em segmentos considerados estratégicos do sistema energético.
Ao defender essa leitura, o economista retomou um argumento que atravessou toda a entrevista: países produtores de petróleo precisam tratar suas reservas e sua cadeia energética como ativos estratégicos. No caso brasileiro, segundo ele, a combinação entre produção elevada de óleo bruto, limitação no refino e perda de instrumentos de distribuição ajuda a explicar por que a alta internacional encontra rápida tradução no mercado doméstico. É nesse ponto, afirmou Gabrielli, que a segurança energética passa a depender menos da existência de petróleo e mais da capacidade de transformá-lo e entregá-lo ao consumidor final.
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/nos-perdemos-a-capacidade-de-seguranca-energetica-nos-derivados-diz-gabrielli