Estratégia norte-americana amplia pressões militares, econômicas e políticas sobre países latino-americanos e caribenhos.
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos radicaliza a política de Washington para a América Latina e o Caribe. Sob os argumentos de combate ao narcotráfico, controle migratório, segurança e defesa da democracia, o governo norte-americano recupera a concepção de que a região constitui uma área subordinada aos seus interesses econômicos, políticos, militares e geopolíticos.
Por José Reinaldo Carvalho
O documento atualiza a Doutrina Monroe, usada historicamente para justificar intervenções norte-americanas no continente. Sob o chamado “corolário Trump”, Washington reivindica o poder de determinar quais governos, alianças internacionais e projetos econômicos são aceitáveis, além de classificar como ameaças os países que contrariam seus interesses de rapinagem.
Essa política surge em um momento de declínio relativo da hegemonia dos Estados Unidos, avanço econômico e tecnológico da China, resistência da Rússia à ordem unipolar e consolidação de um mundo multipolar. Retomar o controle da vizinhança hemisférica passa a ser parte da estratégia imperialista norte-americana de recomposição de poder global.
Na prática, a soberania latino-americana fica subordinada à segurança dos Estados Unidos. Aproximações com China, Rússia ou outros polos internacionais podem ser tratadas como ameaças, assim como governos que defendam autonomia diplomática, controle nacional dos recursos estratégicos e projetos independentes de integração regional.
A retórica do “narcoterrorismo” tem papel central nesse processo. Ao reunir crime organizado, terrorismo, migração e rivalidade geopolítica em uma mesma categoria, Washington amplia as justificativas para operações militares, sanções e ações unilaterais. O narcotráfico é um problema grave, mas não pode servir de pretexto para substituir a cooperação soberana pela tutela externa, ingerência, intervenções, golpes e ataques militares.
O Comando Sul dos Estados Unidos ganha protagonismo com o envio de navios, aeronaves, sistemas não tripulados e forças de apoio à região. A presença de grandes meios militares, inclusive porta-aviões, nas proximidades do Caribe representa uma advertência aos governos classificados como adversários. O Escudo das Américas, sob liderança estadunidense tem caráter militarista e é uma aliança de caráter militarista a ser acionada para cometer agressões.
A Venezuela constitui o exemplo mais grave desta etapa intervencionista. A agressão de 3 de janeiro, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores, criou um precedente para todo o continente. Ao atacar um país soberano e capturar seu chefe de Estado, uma potência estrangeira substitui o Direito Internacional e o princípio da não intervenção pelo emprego direto da força.
O episódio também expõe a fragilidade das instituições multilaterais. A ONU enfrenta os limites impostos pelo peso norte-americano. A legalidade internacional passa a ser aplicada seletivamente, conforme a capacidade de coerção de cada Estado.
Colômbia e México também são alvos da retórica intervencionista. As tensões com o governo de Gustavo Petro, o apoio de setores norte-americanos a candidaturas de direita e as acusações relacionadas ao crime organizado criam um ambiente de pressão permanente. No México, o discurso sobre cartéis e segurança fronteiriça abre caminho para ameaças de operações extraterritoriais.
A interferência eleitoral integra essa estratégia. Em Honduras, o apoio público a um candidato de direita e a ameaça de suspensão da ajuda norte-americana representaram pressão direta sobre a vontade popular. Na Argentina, o apoio financeiro e político de Donald Trump ao governo Javier Milei fortaleceu uma agenda de privatizações, cortes sociais, desregulação e alinhamento aos interesses de Washington.
Na Colômbia, forças progressistas e soberanistas foram apresentadas como riscos à segurança regional, enquanto candidatos alinhados à política norte-americana receberam tratamento favorável. No Peru, a instabilidade institucional e o enfraquecimento da representação popular favoreceram alternativas conservadoras e autoritárias comprometidas com abertura econômica e alinhamento geopolítico. Nos dois países, a extrema direita acabou beneficiada. Em ambos os países isto resultou em triunfo eleitoral da extrema direita.
Washington adota, assim, uma concepção instrumental de democracia. Governos aliados são apresentados como democráticos, mesmo quando apoiam práticas ditatoriais, enquanto administrações que resistem à subordinação recebem rótulos de ameaça. O critério deixa de ser a vontade popular e passa a ser a adesão ao projeto norte-americano.
A ascensão da extrema direita latino-americana também possui dimensão continental. Partidos, fundações, redes digitais, grupos religiosos, empresários, meios de comunicação e centros de pensamento atuam para criminalizar a esquerda, eliminar direitos sociais e alinhar os países da região aos Estados Unidos.
No Brasil, o tarifaço sobre produtos nacionais, as sanções baseadas na Lei Magnitsky contra um integrante do Supremo Tribunal Federal, as pressões em torno do julgamento de Jair Bolsonaro e a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas globais formam uma arquitetura de pressão sobre o Estado brasileiro.
O tarifaço funciona como instrumento de intimidação política e econômica. A aplicação da Lei Magnitsky contra um magistrado tentou projetar a jurisdição norte-americana sobre instituições brasileiras. Já o enquadramento de organizações criminosas como terroristas pode justificar sanções extraterritoriais, pressões financeiras, cooperação desigual de inteligência e narrativas favoráveis à ingerência externa.
O Brasil deve enfrentar PCC e Comando Vermelho com firmeza, pois essas organizações produzem violência, corrompem instituições e controlam territórios. Esse combate, porém, precisa ser conduzido pelo Estado brasileiro, sem transformar a segurança pública em porta de entrada para intervenções estrangeiras.
Também existe risco de interferência nas eleições brasileiras de 2026. Ela pode ocorrer por meio de pressões econômicas, campanhas digitais, sanções, apoio a setores da oposição e exploração política da segurança pública, com o objetivo de fortalecer a extrema direita e enfraquecer projetos de soberania nacional e integração regional.
Cuba ocupa posição especial nessa ofensiva. Além do bloqueio econômico, comercial e financeiro mantido há décadas, o país enfrenta pressões sobre combustíveis, transações e parceiros externos. O bloqueio energético atinge eletricidade, transporte, abastecimento e serviços essenciais, ampliando apagões, escassez e sofrimento social.
As ameaças de agressão militar e derrubada do governo cubano elevam os riscos. Ao atacar Havana, Washington busca atingir um símbolo histórico de resistência à hegemonia norte-americana. A queda do governo cubano seria apresentada pela extrema direita e pelo imperialismo como demonstração de que nenhum projeto socialista, soberano ou anti-imperialista pode sobreviver no continente.
A escalada já produz maior polarização diplomática. Governos aliados aos Estados Unidos apoiam ou silenciam diante das pressões, enquanto administrações progressistas denunciam a ingerência e enfrentam custos econômicos. A fragmentação de mecanismos como Celac, Unasul, e Mercosul favorece acordos bilaterais assimétricos, sanções seletivas e chantagens comerciais.
No campo econômico, Washington procura controlar energia, minerais estratégicos, infraestrutura digital, rotas marítimas e cadeias produtivas. A América Latina concentra petróleo, gás, lítio, água, biodiversidade e alimentos. A pressão para limitar investimentos chineses e subordinar políticas industriais busca impedir que esses recursos sustentem projetos nacionais autônomos.
A agenda associada à extrema direita combina austeridade, privatizações, retirada de direitos, enfraquecimento do Estado e abertura ao capital externo. Na Argentina, o choque ultraliberal provocou queda da renda, aumento da pobreza, precarização e conflitos sociais.
A estratégia norte-americana também pode reativar doutrinas de segurança nacional utilizadas historicamente contra movimentos populares. O conceito elástico de terrorismo permite que cartéis sejam hoje os alvos declarados, mas movimentos sociais, sindicatos, partidos de esquerda e governos soberanistas sejam posteriormente tratados como inimigos.
A rivalidade com China e Rússia atravessa toda essa ofensiva. Os Estados Unidos pretendem assegurar recursos, bases, cadeias logísticas, votos em organismos internacionais e alinhamento diplomático antes de ampliar disputas em outras regiões. O confronto global também ocorre na Amazônia, no Caribe, nos Andes, no Atlântico Sul, nos portos e nos sistemas eleitorais latino-americanos.
As forças democráticas, populares e anti-imperialistas precisam fortalecer a luta anti-imperialista, a integração regional, diversificar parcerias, proteger eleições, regular plataformas digitais, combater o crime organizado com inteligência própria e reduzir dependências financeiras. Essa resposta deve incluir políticas para segurança, renda, emprego, moradia, transporte e serviços públicos, pois a extrema direita avança em contextos de medo, desigualdade e descrença institucional.
O Brasil possui responsabilidade especial como maior país latino-americano e potência ambiental, energética, agrícola e diplomática. Sua política externa independente, orientada pela paz, integração regional e multipolaridade, contraria os interesses de quem pretende manter o continente fragmentado e subordinado.
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos reorganiza antigos instrumentos imperialistas para uma etapa mais agressiva, militarizada e alinhada à extrema direita. A América Latina enfrenta o risco de desestabilização política, restrição democrática, regressão social e submissão econômica. Sua história, porém, também é marcada pela resistência dos povos em defesa da paz, da soberania e do direito de decidir o próprio destino.
FOTO: Casa Branca
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/nova-ofensiva-dos-eua-ameaca-a-soberania-da-america-latina/