Faltam 5 dias. Existe uma armadilha que funciona automaticamente — e o Brasil caiu nela.
Se o problema do Brasil é depender de commodities…
Por que o agro, que é exatamente isso, é tão celebrado?
O agro é genuinamente extraordinário.
A EMBRAPA transformou cerrado em celeiro. Somos o maior exportador mundial de soja, café, carne, açúcar. Uma façanha tecnológica e produtiva real.
Então onde está o problema?
A armadilha que ninguém vê chegando
O problema não é o agro em si.
Esse meu tweet traz uma pista muito boa sobre isso:
O problema é o que o sucesso do agro faz com o resto da economia — de forma automática, quase invisível.
Quando um setor exportador vai muito bem, ele atrai capital, mão de obra e atenção política. O câmbio se valoriza porque entram muitos dólares no país. E quando o câmbio se valoriza, o que acontece com a indústria?
Ela perde competitividade. Seus produtos ficam caros para exportar e vulneráveis à concorrência importada.
Não porque a indústria fez algo errado.
Não porque os industriais são incompetentes.
Mas porque a matemática do câmbio trabalha contra ela automaticamente.
Esse mecanismo tem um nome: Doença Holandesa.
Foi identificado quando a Holanda descobriu gás natural no Mar do Norte nos anos 60. A exportação de gás valorizou tanto o florim que a indústria holandesa inteira começou a murchar — sem que ninguém tivesse tomado nenhuma decisão errada.
O Brasil tem a versão tropical desse problema. E ela é crônica.
Por que é tão difícil sair
Aqui está o ponto que mais me intriga — e que os dados confirmam com clareza.
O agro tem bancada forte no Congresso. Tem acesso a crédito subsidiado. Tem política pública dedicada. Tem resultado visível e mensurável.
A indústria complexa — a que produziria semicondutores, máquinas sofisticadas, produtos de alto valor agregado — exige investimento de longo prazo, proteção temporária, paciência política.
E paciência política é exatamente o que o Brasil historicamente não tem.
Então o ciclo se repete: o agro cresce, o câmbio valoriza, a indústria encolhe, o Brasil fica mais dependente do agro, o agro cresce mais.
Uma espiral que se autoalimenta.
E no fim, temos um país que domina a fronteira tecnológica da produção de soja — e importa os tratores que colhem essa soja!
O que países que escaparam dessa armadilha fizeram
Não é impossível sair. Mas exige algo que vai contra o instinto político de curto prazo.
Exige decidir deliberadamente construir complexidade produtiva — mesmo quando isso custa caro, mesmo quando o retorno demora, mesmo quando o setor nascente ainda não consegue competir sozinho.
A Coreia fez isso. A China fez isso. Os EUA fizeram isso — e ainda fazem, com os subsídios bilionários da Lei de Chips aprovada em 2022.
Todos usaram proteção temporária, política industrial ativa, paciência estratégica.
O Brasil, nos momentos em que tentou, não sustentou o projeto por tempo suficiente. Ou a política mudou, ou o financiamento secou, ou o câmbio inviabilizou.
E voltamos para a soja.
Amanhã: a comparação que mais incomoda
Em 1960, a Coreia do Sul tinha renda per capita menor que a do Brasil.
Saiu de uma guerra devastadora. Sem petróleo. Sem terra fértil. Sem nada que o Brasil tem de sobra.
Hoje é uma potência tecnológica global.
Amanhã vou te mostrar exatamente o que eles fizeram — decisão por decisão — que nós não fizemos.
E por que entender isso muda a forma como você lê qualquer notícia sobre o Brasil.
FONTE: https://paulogala.substack.com/p/o-agro-vai-bem-o-brasil-vai-mais