Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

O Brasil precisa aprender com iranianos, ter armas, drones e túneis e prever todos os cenários

Brasil precisa abandonar a ilusão de normalidade e preparar instrumentos de dissuasão, defesa e contingência diante da escalada de pressões dos EUA.

A escalada de agressões dos Estados Unidos contra o Brasil precisa fazer o país despertar e se preparar para todos os cenários possíveis. Sem reconhecer a ameaça e definir uma estratégia para contê-la por meio de instrumentos de dissuasão convincentes, o país permanece vulnerável e desguarnecido, convidando o agressor. O que o Brasil vai exibir de dissuasão no desfile de 7 de setembro?

Apenas neste ano, os Estados Unidos decapitaram a liderança de dois países. Na vizinha Venezuela, o presidente foi sequestrado com a primeira-dama. No Irã, o líder supremo foi assassinado em seu local de residência e de trabalho, com parentes e líderes do governo. Tanto Khamenei quanto Maduro estavam em meio a negociações com Trump e, mesmo assim, foram alvejados.

Nenhuma hipótese pode ser descartada. É preciso considerar que a vida do presidente Lula também está ameaçada.

O que mais as autoridades brasileiras estão esperando para tomar as decisões que lhes cabem numa situação como esta? Os sinais estão à vista de todos. Para Trump, Bolsonaro,  Milei e a extrema-direita,  o momento é agora. Surgiu visto a oportunidade para o rolo compressor da levar de roldão o Brasil. Lula é o único obstáculo.

A recente doutrina de segurança dos Estados Unidos declara sua ambição de dominação absoluta no hemisfério americano. O Brasil, por ora, impede essa progressão. A escalada do último ano abre o jogo: tarifas astronômicas, sanções diplomáticas e financeiras contra dezenas de autoridades, inclusive chefes do Poder Judiciário brasileiro, agentes dos Estados Unidos atuando de maneira descarada para desestabilizar o processo eleitoral em favor do candidato de extrema direita além de operadores serem enviados até mesmo ao presidiário condenado por tentativa de golpe de Estado, com plano de assassinato do presidente, do vice-presidente e de um ministro do Supremo.

Está na hora das decisões. As notas de repúdio e os protestos, embora necessários, já não são suficientes.

O que falta acontecer para reconhecer que o Brasil está sob ameaça? Já passou a hora em que a retórica e a diplomacia seriam suficientes. O país precisa agir antes que seja tarde. Precisa de planos militares, logísticos, de contingência e de conversão econômica e industrial. Precisa providenciar a consciência política, a mobilização das vontades para a resistência que será necessária. Precisa travar a batalha da comunicação.

A crise deixou de girar em torno de uma divergência comercial ou diplomática. Assumiu contornos políticos inéditos ao atingir diretamente autoridades brasileiras, rebaixar sorrateiramente o status diplomático das relações mútuas e projetar seus efeitos sobre o ambiente institucional interno do país.

Primeiro vieram as tarifas contra produtos brasileiros. Em seguida, as sanções contra os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Luís Roberto Barroso, o ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e varias outras autoridades.  Depois, contra o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Agora, a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti, representante máxima do Estado brasileiro em Washington. Não são episódios isolados. Formam uma sequência de pressões que, vistas em conjunto, representam um agravamento inédito e histórico das relações bilaterais. Nesse ritmo, a convivência dos dois países caminha sem salvação para a inexistência, para a ruptura, apesar da prudência brasileira.

É preciso dar um basta. A complacência não está funcionando.

O governo brasileiro respondeu com firmeza. Em nota divulgada ontem, repudiou a decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos, classificando-a como mentirosa, parte de uma escalada de medidas hostis e afirmando o óbvio: há uma tentativa de interferência em assuntos internos brasileiros e no ambiente político que antecede as eleições presidenciais. Está armado um ataque disposto a qualquer coação para Lula não vencer. E se vencer, para que não tome posse.

Diante desse quadro, porém, o Brasil não pode agir como se estivesse diante de uma crise convencional. Quando um governo estrangeiro sanciona integrantes de um Poder da República, ministros de Estado, quando impõe barreiras econômicas contra o Pix e quando atinge a principal representante diplomática do país, a questão passa a dizer respeito à soberania nacional.

A pergunta que se impõe é inevitável: qual poderá ser o próximo artimanha de pressão dos Estados Unidos contra o Brasil? Novas sanções? Restrições financeiras? Ampliação de barreiras comerciais? Pressões sobre investimentos? Operações sorrateiras de influência no ambiente informacional usando as plataformas que manipulam os algoritmos a seu favor? Nenhum desses cenários pode ser tratado como inevitável, mas todos precisam ser considerados por quem tem a responsabilidade de proteger os interesses nacionais.

É justamente para isso que existe o planejamento estratégico de defesa. As Forças Armadas brasileiras não devem se preparar apenas para conflitos militares tradicionais. Também precisam avaliar riscos decorrentes de guerras híbridas, pressões econômicas, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e outras formas contemporâneas de coerção entre Estados.

A soberania não se defende apenas nas fronteiras, já extremamente abandonadas e mal vigiadas. Defende-se também na economia, na diplomacia, nas instituições e na capacidade de resistir a pressões externas que busquem condicionar decisões nacionais. Donald Trump está de olho nas riquezas brasileiras, nas terras raras e na Amazônia.

O Brasil não escolheu essa escalada. Mas não pode subestimar seus desdobramentos. A história demonstra que grandes disputas geopolíticas raramente se encerram nas primeiras rodadas de sanções. Países que pretendem preservar sua autonomia precisam antecipar cenários, fortalecer suas instituições e agir com unidade nacional alicerçada na vontade de sua população.

A pergunta que deve orientar o Estado brasileiro não é se a crise chegou ao fim. É se o país está preparado para enfrentar, com serenidade e firmeza, os novos estágios que ainda estão por vir.

Resta o mais urgente entre tantos desafios importantes: proteger os ativos econômicos e os depósitos brasileiros no exterior, inclusive as reservas. Eles podem, numa penada, ser confiscados pelo Banco da Inglaterra ou pelo Federal Reserve de Nova York ou seus satélites. Assim foi feito com os recursos russos, iranianos e venezuelanos.

Quem achar que essas possibilidades são improváveis deve olhar para a deterioração impensável das relações com os Estados Unidos, reduzidas em coisa de um ano ao seu mínimo histórico. O cenário inconcebível era este. Há outros à frente.

PS. A ironia oracular é ver o Brasil de Lula à esquerda da Venezuela e não poder sequer cobrar solidariedade do vizinho que algum dia foi aliado, mas acabou sendo esnobado na ânsia brasileira de agradar os EUA.

FOTO: Exército Iraniano/WANA

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-precisa-aprender-com-iranianos-ter-armas-drones-e-tuneis-e-prever-todos-os-cenarios/?utm_source=facebook&utm_medium=jetpack_social