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O Brasil segue fazendo atividades coloniais até hoje

O colonialismo não foi apenas um sistema de ocupação territorial; foi, sobretudo, um arranjo econômico de hierarquias produtivas. A lógica central era simples e brutal: a colônia fornecia terra, trabalho e matérias-primas; a metrópole concentrava a manufatura, o conhecimento técnico, o crédito, os estaleiros, as patentes e os mercados. Em outras palavras, o colonialismo organizou uma “divisão internacional do trabalho” avant la lettre, onde atividades de maior densidade tecnológica e capacidade de aprendizagem (manufaturas complexas, metalurgia fina, construção naval, química, instrumentos) eram preservadas no centro, enquanto o “periférico” era induzido — e muitas vezes coagido — a se especializar em produtos primários.

A engenharia da proibição: como se impede a industrialização

Para manter essa assimetria, as metrópoles utilizaram um conjunto de mecanismos recorrentes:

Restrições legais e administrativas: proibições diretas ou licenças difíceis para certos tipos de manufatura, sobretudo aquelas que competiam com setores estratégicos metropolitanos (têxteis, metalurgia, construção naval, bens de consumo manufaturados). Monopólios comerciais e companhias privilegiadas: a colônia era obrigada a comprar da metrópole (ou vender por canais definidos pela metrópole), reduzindo incentivos para investir em produção local. Tarifas assimétricas e controle de mercado: quando interessava, a metrópole abria a colônia para suas mercadorias; quando a colônia ameaçava produzir algo similar, a barreira surgia. Controle de infraestrutura e logística: portos, navegação, seguros, financiamento do comércio e, mais tarde, padrões e certificações ficavam sob comando do centro. Concentração de capacidades críticas: oficinas, escolas técnicas, academias, arsenais, fábricas militares e redes de inovação permaneciam na metrópole, reforçando o ciclo de aprendizagem “lá” e de simples extração “aqui”.

Essa arquitetura não buscava apenas lucro de curto prazo; buscava impedir concorrência futura. A indústria não era vista como “mais um setor”, mas como um dispositivo de poder: gera produtividade, cria encadeamentos, forma mão de obra, acumula know-how e abre espaço para autonomia política.

Inglaterra: centro manufatureiro e colônias como fornecedores cativos

O caso inglês é exemplar porque combina expansão comercial com consolidação industrial. À medida que a Inglaterra se torna potência manufatureira — especialmente em têxteis, metalurgia e bens de consumo — seu império opera como um ecossistema para sustentar essa centralidade.

A Índia é o caso mais conhecido: durante séculos, ela foi referência mundial em tecidos de algodão de alta qualidade. Quando a manufatura inglesa amadurece, o império reorganiza o comércio: a colônia passa a exportar algodão (fibra) e importar tecido (produto manufaturado). A transformação produtiva — onde está a tecnologia, a escala, a aprendizagem — fica na metrópole. Não é coincidência: é projeto. O objetivo era assegurar mercado para os manufaturados britânicos e garantir matérias-primas baratas, além de consolidar o domínio sobre logística, finanças e normas comerciais.

Mais do que “proibir fábricas”, o essencial foi criar um ambiente em que a industrialização colonial se tornasse improvável: acesso limitado a crédito e máquinas, dependência de importações, e um marco institucional desenhado para o comércio de extração, não para a formação de capacidades produtivas complexas.

França: colônias como plataforma de recursos e mercado para bens franceses

A França, com um império particularmente relevante na África do Norte e Ocidental, aplicou lógica semelhante. Suas colônias foram estruturadas para exportar produtos agrícolas e minerais e, simultaneamente, absorver manufaturas francesas. A política colonial francesa investiu fortemente em infraestrutura voltada ao escoamento (ferrovias e portos conectando zonas de extração ao litoral), não em densificação industrial local.

O ponto crucial, novamente, é que o desenho institucional favorecia cadeias primárias: produção de baixo valor agregado na colônia e transformação industrial na metrópole. O “cérebro” e a “fábrica” ficavam em Paris, Lyon, Lille; o “chão da extração” ficava em Argel, Dakar, Abidjan. Isso não foi um acidente: era a forma de garantir superávit tecnológico e comercial do centro, e dependência crônica da periferia.

O legado: especialização primária como armadilha de trajetória

Esse modelo colonial deixou heranças de longa duração. Mesmo quando a independência política ocorre, a estrutura econômica não se altera automaticamente. Há efeitos de “caminho dependente” (path dependence): redes empresariais, infraestrutura, especialização da mão de obra, sistema financeiro e padrões de comércio continuam girando em torno do setor primário exportador. E, quando o país tenta industrializar, enfrenta três obstáculos clássicos:

Concorrência externa com vantagem tecnológica: quem já domina a manufatura tem escala, marca, engenharia e produtividade. Restrição externa: importação de máquinas, insumos e tecnologia exige divisas; o crescimento industrial pressiona o balanço de pagamentos. Coalizões políticas do primário-exportador: setores vencedores do modelo de commodities frequentemente capturam políticas e bloqueiam mudanças que impliquem redistribuição de incentivos.

Brasil hoje: “atividades coloniais” em versão século XXI

É nesse sentido — estrutural, não moral — que se pode dizer que o Brasil “segue fazendo atividades coloniais”. O país é uma potência em minério, petróleo, agro e outros produtos primários, e isso gera dólares, investimento e, em muitos momentos, crescimento. Mas esse padrão também cria uma espécie de conforto perigoso: a especialização em commodities tende a organizar o sistema econômico ao redor da extração e do escoamento, não da densidade tecnológica.

Na prática, isso se traduz em um conjunto de sintomas conhecidos:

Baixa complexidade produtiva: exportamos volumes enormes com baixo conteúdo tecnológico médio, e importamos bens industriais sofisticados, máquinas, fármacos, equipamentos eletrônicos e componentes. Encadeamentos limitados: parte relevante do valor fica fora do país, especialmente quando a cadeia industrial (máquinas, química fina, semicondutores, software embarcado) está no exterior. Dificuldade de sustentar manufatura tecnológica: setores intensivos em engenharia e P&D exigem escala, financiamento paciente, compras públicas estratégicas, integração universidade-empresa, e coordenação logística e regulatória. Vulnerabilidade a ciclos de preços internacionais: quando o ciclo de commodities vira, o país sente na moeda, na renda e na capacidade de investir.

Além disso, há o dilema típico da periferia exportadora: commodities fortes podem apreciar a moeda e deslocar competitividade da indústria (um mecanismo frequentemente associado à “doença holandesa”), justamente no momento em que seria necessário construir base manufatureira sofisticada. Assim, o sucesso do extrativismo pode, paradoxalmente, dificultar a ascensão industrial.

A questão central: manufatura tecnológica não “nasce espontaneamente”

O ponto mais importante é que manufatura tecnológica é um processo de acumulação de capacidades — e capacidades se constroem com política deliberada. Foi assim com a Inglaterra, com a França, com Alemanha, EUA, Japão, Coreia, China. A narrativa liberal de que “basta abrir e competir” ignora que quem compete bem já percorreu décadas de aprendizagem, proteção seletiva, compras do Estado, padronização, crédito direcionado e estratégia.

O Brasil tem ilhas de excelência industrial e tecnológica, mas enfrenta o desafio de transformar exceções em sistema: criar densidade de fornecedores, engenharia local, escala exportadora e, sobretudo, estabilidade macro e institucional para investimento de longo prazo. Sem isso, o país tende a repetir — em linguagem moderna — o papel colonial: exportar natureza e importar tecnologia.

FONTE: https://www.paulogala.com.br/o-brasil-segue-fazendo-atividades-coloniais-ate-hoje/