Crime organizado, finanças ilícitas e o desafio da soberania brasileira às vésperas de 2026.
A disputa central não é policial, é estratégica. Ao mirar o núcleo organizacional e financeiro do crime, o Brasil reduz a violência interna e neutraliza narrativas externas que transformam “segurança” em instrumento de coerção.
Segurança pública deixou de ser um tema doméstico. Às vésperas de 2026, ela se tornou um dos principais campos de disputa pela soberania brasileira. A violência não opera mais apenas como problema social ou policial; ela funciona como vetor de desestabilização política, econômica e institucional, capaz de corroer eleições, enfraquecer o Estado e abrir brechas para ingerências externas disfarçadas de cooperação em nome da “segurança”.
Por décadas, o Brasil enfrentou o crime organizado a partir de um erro estrutural: concentrou esforços no varejo da violência, nos territórios pobres e nos corpos descartáveis, enquanto o núcleo econômico do crime permanecia intocado. Esse modelo produziu encarceramento em massa, fortalecimento das facções e normalização da economia criminal. O deslocamento recente do foco estatal, do território para a organização, da arma para o capital, marca uma inflexão necessária: combater o crime onde ele se estrutura como poder, e não onde ele apenas se manifesta como miséria.
O crime organizado que molda a violência no Brasil contemporâneo não se sustenta pela força bruta, mas pela capacidade de operar como sistema econômico complexo. Facções deixaram de ser apenas estruturas armadas para se tornarem organizações com governança, fluxo de caixa estável, engenharia jurídica e inserção profunda na economia formal. Lavagem de dinheiro, fraudes financeiras, uso de instituições de pagamento, fundos de investimento e cadeias produtivas capturadas constituem hoje a espinha dorsal desse poder. A violência é o instrumento visível; o centro decisório está no capital que a financia, protege e reproduz.
É nesse ponto que operações voltadas ao sistema financeiro e às cadeias econômicas sensíveis adquirem centralidade estratégica. Investigações que atingem lavagem de dinheiro, fraudes estruturadas, fintechs usadas como bancos paralelos, fundos opacos e setores intensivos em caixa não são ações laterais nem tecnicismos fiscais: são o ataque direto ao centro organizacional do crime. Ao priorizar descapitalização, inteligência e integração institucional, o Estado abandona o espetáculo repressivo e passa a disputar o poder real que sustenta a violência.
Em um sistema internacional cada vez mais instável, violência interna não é apenas fragilidade doméstica; é ativo explorável por potências que transformam “segurança” em instrumento de coerção política, econômica e diplomática. Países incapazes de controlar o topo financeiro do crime organizado tornam-se alvos fáceis de narrativas de tutela, sanções seletivas e intervenções assimétricas. Ao enfrentar o crime onde ele se converte em capital, o Brasil não apenas reduz a violência: constrói uma camada de blindagem soberana contra enquadramentos externos que ameaçam eleições, autonomia decisória e projeto nacional.
As eleições de 2026 serão atravessadas por essa disputa silenciosa entre soberania e captura. Não haverá democracia estável enquanto o crime organizado operar como sistema econômico protegido por opacidade financeira e cumplicidade estrutural. Defender o país, hoje, significa desmontar o crime onde ele vira poder, riqueza e influência. Esse é o único caminho para preservar a autonomia do Estado brasileiro em um mundo que testa, sem disfarces, os limites da soberania dos países do Sul Global.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-centro-da-guerra-nao-e-a-favela