Enquanto os mais ricos refrigeram casas e escritórios, milhões enfrentam telhados quentes, ônibus lotados, trabalho ao sol e noites sem alívio nas periferias das grandes cidades.
O termômetro registra a mesma temperatura para todos, mas o calor jamais atinge todos da mesma maneira. Nas cidades brasileiras, ele obedece ao mapa da renda. Quem vive em bairro arborizado, trabalha em ambiente refrigerado e dispõe de água regular atravessa a tarde sob proteção. Quem mora sob telha quente, pega ônibus lotado ou trabalha ao ar livre entrega o próprio corpo ao abandono público.
A Organização Meteorológica Mundial confirmou que os onze anos entre 2015 e 2025 foram os mais quentes já registrados. Esse dado deveria ter provocado uma mudança imediata nas políticas urbanas, trabalhistas e habitacionais. Em vez disso, governos continuam tratando ondas de calor como episódios passageiros, oferecendo conselhos domésticos a pessoas que muitas vezes não possuem água suficiente, ventilação adequada ou liberdade para interromper o trabalho.
A onda de calor que atravessou a Europa atingiu 150 milhões de pessoas. Na França, estimam-se mil mortes excedentes; na Espanha, mais de seiscentas. Metade das residências francesas oferece proteção térmica insuficiente, problema que recai sobretudo sobre famílias pobres, obrigadas a suportar temperaturas extremas em moradias despreparadas.
Em 2025, mais de 1.200 cidades registraram as maiores temperaturas de sua história. Basra chegou a 53,9 graus; Nova Délhi, a 49,9. O calor extremo já está relacionado a mais de 500 mil mortes anuais e atinge primeiro quem trabalha ao ar livre, vive sem refrigeração ou não pode reduzir a exposição.
A injustiça aparece na origem do problema. Os 10% mais ricos respondem por dois terços do aquecimento registrado desde 1990, enquanto bairros pobres concentram concreto, moradias inadequadas e empregos expostos. A crise climática tem responsáveis e vítimas facilmente identificáveis.
No Brasil, o número de dias com ondas de calor aumentou oito vezes em seis décadas. A resposta oficial permanece incompatível com a gravidade do quadro. Faltam árvores, áreas sombreadas, escolas adaptadas, abrigos climatizados, transporte digno e protocolos obrigatórios para trabalhadores expostos. Sobram concreto, asfalto, moradias precárias e discursos que transferem para o indivíduo a responsabilidade por sobreviver.
Cada árvore suprimida para ampliar avenidas, cada conjunto habitacional entregue sem ventilação e cada ponto de ônibus sem cobertura traduzem decisões concretas. A população paga com a saúde pelo planejamento submetido à especulação imobiliária urbana.
A desigualdade começa dentro de casa. Famílias pobres gastam parcela maior da renda com eletricidade, limitam o uso de ventiladores e enfrentam noites em cômodos abafados. Crianças dormem mal, idosos desidratam, doentes crônicos têm o quadro agravado. No dia seguinte, todos precisam voltar à escola, ao serviço ou à rua, como se o calor fosse apenas uma inconveniência meteorológica.
A Organização Internacional do Trabalho estima que mais de 2,4 bilhões de trabalhadores estejam expostos ao calor excessivo, associado a quase 19 mil mortes ocupacionais por ano. Ainda assim, pausas, água, sombra e redução de jornada continuam dependendo da boa vontade de empregadores ou da resistência física de quem trabalha.
O calor extremo revela uma forma brutal de hierarquia social. Os mais ricos compram proteção; os pobres acumulam risco. Uns refrigeram ambientes inteiros; outros calculam quanto tempo podem manter ligado um ventilador. Uns acompanham a previsão do tempo; outros acompanham o próprio corpo para saber até onde conseguem suportar.
Tratar essa crise como questão de comportamento individual é uma fraude política. Arborização, moradia, saneamento, saúde, transporte e proteção trabalhista exigem investimento, fiscalização e prioridade orçamentária. Quando sombra, água e descanso dependem do salário, a cidade já escolheu quem pode adoecer, quem pode perder renda e quem pode morrer. O calor apenas torna essa escolha impossível de esconder.
FOTO: Fernando Frazão/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-clima-expoe-a-sociedade-que-construimos/