Economista alerta para risco de ruptura súbita da ordem financeira ocidental e defende criação de uma moeda internacional paralela.
247 – O economista Paulo Nogueira Batista Júnior, ex-diretor executivo do FMI e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), afirmou que o sistema financeiro internacional vive um momento de tensão estrutural e pode caminhar para um colapso súbito caso uma nova crise grave atinja as potências ocidentais. As declarações foram feitas em uma entrevista concedida à jornalista Liu Xin, âncora do programa The Point, da emissora chinesa CGTN.
Segundo o programa, o Sul Global já responde por mais de 40% da economia mundial e por 80% do crescimento global, aumentando sua relevância no comércio, na produção e nas finanças internacionais. Apesar desse avanço, Batista ressalta que os mecanismos de governança continuam congelados sob influência dos Estados Unidos e da Europa.
“O Ocidente não aceita que o mundo mudou”
Logo no início da conversa, Liu Xin questiona por que reformas no sistema financeiro internacional, especialmente as votações do FMI, continuaram estagnadas por mais de uma década. Batista responde com clareza:
“Temos ao mesmo tempo o declínio do Ocidente — dos EUA e, ainda mais, da Europa — em termos relativos e, em alguns aspectos, também em termos absolutos, e a recusa desse eixo norte-atlântico em aceitar que o mundo está mudando.”
Ele acrescenta que essa resistência se traduz no bloqueio total, desde 2010, de qualquer iniciativa de modernização da governança do FMI:
“Eles não querem aceitar que já não têm o poder que tinham. Uma das formas de reagir é bloquear completamente qualquer reforma que torne mais representativas as instituições que eles controlam.”
Para Batista, a disputa tem um foco claro:
“A China é o país mais sub-representado entre as grandes economias. Em qualquer fórmula, ela teria que subir muito. Como eles querem manter a China para baixo, as reformas simplesmente não andam.”
Risco de colapso da ordem financeira ocidental
Ao ser questionado por Liu Xin sobre o que pode acontecer diante do aumento das tensões entre um Sul Global ascendente e o Ocidente resistente, Batista descreve dois cenários possíveis.
O primeiro seria um longo e doloroso processo de decadência, com sanções, pressões geopolíticas e desgaste institucional.
O segundo, mais abrupto, seria um colapso inesperado da ordem financeira ocidental, caso uma crise de grandes proporções — semelhante ou superior à de 2008 — atinja novamente os mercados norte-atlânticos:
“Se algo assim ocorrer, e é possível, haverá uma ruptura repentina na resistência do Ocidente simplesmente por falta de alternativas e de força.”
Segundo ele, países como China, Brasil, Rússia e outros emergentes não podem esperar:
“Não estamos na posição confortável de adiar iniciativas. Precisamos melhorar urgentemente as que já existem e criar novas, especialmente na área monetária e financeira.”
A defesa de uma moeda internacional paralela
Um dos pontos centrais da entrevista é a proposta de Batista para um novo arranjo monetário internacional. Ele afirma que a dependência global do dólar se tornou um risco sistêmico:
“O dólar não é mais confiável por muitas razões. Precisamos de uma moeda internacional de reserva.”
Ele descarta que o renminbi (yuan) chinês possa cumprir esse papel sozinho:
“A China hesita — e eu entendo essa hesitação — em permitir que sua moeda desempenhe um papel internacional em larga escala.”
Diante disso, o economista sugere a construção de uma moeda paralela, não nacional, para uso exclusivamente internacional. Essa moeda seria emitida de forma conjunta por um grupo de países — não apenas os BRICS — e coexistiria com as moedas nacionais, sem interferir nas políticas domésticas:
“O que precisamos é de algo completamente diferente das moedas que existem hoje. Uma moeda que só desempenhe funções internacionais e não tenha papel doméstico em lugar algum.”
Batista sublinha a novidade histórica da proposta:
“É difícil porque nunca existiu nada assim na história mundial.”
Limites do comércio em moedas nacionais
Liu Xin mencionou o avanço das transações em moedas nacionais entre países como China, Rússia, Índia e Brasil. Batista reconhece o progresso, mas insiste que esse mecanismo não resolve o principal desafio:
“Um sistema baseado apenas em moedas nacionais não entrega o que precisamos, porque não permite registrar adequadamente superávits e déficits comerciais.”
Ele citou o exemplo de Rússia e Índia:
“Se a Rússia acumula rupias — uma moeda não conversível e sujeita a riscos de desvalorização — ela não quer mantê-las. Não pode recorrer ao dólar porque o dólar é perigoso, e ao mesmo tempo, a China é relutante em ampliar demais o uso do renminbi.”
Daí a necessidade de uma moeda internacional alternativa.
A divisão global já está dada
Ao analisar o cenário geopolítico, Batista diz considerar real a possibilidade de o mundo operar, por um período, em dois sistemas paralelos — um centrado no Ocidente, outro no eixo dos emergentes:
“Alguém aqui na China me disse que o mundo se divide entre quem usa WeChat e quem usa WhatsApp. Já temos dois mundos.”
No entanto, ele não descarta um horizonte futuro de convergência:
“Não descarto que em 30 anos essa divisão seja superada e tenhamos uma ordem realmente global, algo que nunca tivemos. O que havia era uma ordem ocidental imposta ao resto do planeta.”
O papel de China, Brasil e outros grandes emergentes
Para Batista, a liderança do processo não poderá vir dos países mais vulneráveis, mas sim das economias emergentes de maior peso:
“Quando falamos em Sul Global, estamos falando de 140 países muito diversos. Muitos são vulneráveis à pressão ocidental. Cabe a países como China, Brasil, Rússia e Indonésia assumir um esforço especial.”
E conclui que o desafio exige confiança mútua, visão estratégica e coragem política.
Uma entrevista marcante
A entrevista conduzida por Liu Xin é detalhada, direta e politicamente sofisticada, explorando com profundidade os dilemas da governança global e abrindo espaço para que Batista desenvolva análises complexas com clareza.
O diálogo evidencia o momento histórico de transição que o mundo vive — e os riscos, oportunidades e urgências que o acompanham.
Foto: Reprodução Youtube
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/o-dolar-nao-e-mais-confiavel-e-precisamos-de-uma-moeda-internacional-de-reserva-alerta-paulo-nogueira-batista-junior