A mudança no caso Master reduz a pressão sobre um ministro, mas confirma o padrão: o alvo imediato muda, o alvo estratégico permanece o tribunal que puniu a tentativa de ruptura democrática de 2023. Separar a crise individual da disputa institucional tornou-se a linha que divide a autocorreção democrática da desmoralização deliberada da Justiça.
Trata-se de proteger a Corte
A decisão do ministro Dias Toffoli de deixar a relatoria do caso Master altera o cenário imediato, mas não encerra a crise.
O gesto retira do centro do processo um magistrado sob pressão e, ao mesmo tempo, revela algo essencial: a disputa em curso ultrapassou a esfera individual e entrou definitivamente no terreno institucional.
O pedido formal da Polícia Federal para que Toffoli fosse considerado suspeito já havia elevado o episódio a outro patamar. Não se tratava mais de rumor de bastidor ou pressão difusa. Tratava-se de um questionamento institucional concreto. Quando isso ocorre, a credibilidade do tribunal passa a ser parte da equação.
A mudança de relatoria responde a essa necessidade de preservação institucional. Mas também confirma que a crise não se limitava à permanência de um ministro à frente do caso.
Toffoli tornou-se politicamente indefensável no centro do processo.
O STF, não.
Ministros da Suprema Corte operam sob padrão de exigência mais alto do que qualquer outro agente público. Não basta a defesa jurídica formal. É necessário que a confiança institucional permaneça intacta. Quando essa confiança é abalada por suspeitas reiteradas e tensões com investigadores, a permanência no epicentro de um caso sensível compromete a percepção de imparcialidade.
A saída da relatoria, portanto, não é apenas um movimento técnico.
É um gesto de contenção institucional.
O tribunal que julgou o golpe
A crise ocorre num momento em que o Supremo Tribunal Federal desempenhou papel decisivo na defesa da ordem constitucional brasileira. Foi o tribunal que julgou e condenou o núcleo da tentativa de golpe de 2023 e do plano de assassinato do presidente Lula, do vice-presidente e de ministros da Corte.
Foi ali que militares de alta patente foram responsabilizados por participação em articulações golpistas.
Foi ali que o ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado como líder da organização que tentou subverter o resultado eleitoral, foi condenado a 27 anos de prisão.
Essas decisões não têm precedentes na história republicana.
Pela primeira vez, setores da elite política e parte do alto comando militar enfrentaram condenações severas por tentativa de ruptura institucional.
O STF tornou-se, nesse processo, a principal barreira institucional ao avanço de um projeto autoritário.
É nesse contexto que a crise atual precisa ser lida.
A estratégia conhecida
A reação da extrema direita segue um roteiro já testado:
- escolhe-se um ministro sob suspeita;
- amplifica-se o escândalo;
- generaliza-se a desconfiança;
- conclui-se que todo o tribunal seria ilegítimo.
O objetivo não é moralizar o Judiciário.
É enfraquecer a instituição que impôs derrotas políticas e jurídicas ao bolsonarismo.
O caso Toffoli ofereceu oportunidade estratégica para essa ofensiva.
Mas a saída da relatoria não encerra a lógica. Apenas desloca o foco.
Se a campanha de desmoralização continuar após a mudança, ficará evidente que o alvo nunca foi apenas um ministro.
O alvo sempre foi o tribunal.
Alexandre de Moraes volta a ser o foco
A saída de Toffoli da relatoria não encerrou a ofensiva contra o Supremo. Apenas deslocou o foco.
Reportagem publicada nesta quinta-feira, 13, pela jornalista Malu Gaspar, em O Globo, indica que o próximo alvo político da pressão passa a ser de novo o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela condução dos processos que resultaram na condenação de militares envolvidos na tentativa de golpe e na prisão de Jair Bolsonaro.
É preciso deixar algo claro desde o início.
Tanto Toffoli quanto Moraes têm o dever de responder, com transparência e firmeza, às críticas e aos gravíssimos erros que vêm sendo apontados em sucessivas reportagens, artigos e comentários. Isso não se discute. Ministros do Supremo não estão acima de questionamentos públicos. Ao contrário: estão submetidos a um nível de escrutínio ainda maior.
Defender-se, explicar-se e, quando necessário, corrigir procedimentos é obrigação institucional de qualquer integrante da Corte.
Mas uma coisa é a responsabilização individual.
Outra, muito diferente, é a tentativa de transformar questionamentos a ministros em campanha contra a instituição.
O movimento que se observa agora segue um padrão conhecido.
Quando um nome sai do centro da crise, outro assume a posição de alvo.
O objetivo não é apenas questionar decisões específicas, mas fragilizar a autoridade dos magistrados que conduziram o julgamento do núcleo golpista.
É imprescindível proteger a instituição STF
Moraes coordenou os inquéritos que investigaram a tentativa de ruptura institucional e os ataques às instituições. Foi sob sua condução que se consolidou o conjunto de provas que levou à responsabilização penal de integrantes das Forças Armadas e do ex-presidente apontado como líder da organização.
Se há críticas a serem respondidas — e há — elas precisam ser enfrentadas diretamente pelos próprios ministros.
Mas é igualmente essencial proteger a instituição STF de uma operação política que busca transformar falhas individuais, reais ou alegadas, em argumento para desacreditar o tribunal como um todo.
A mudança de foco confirma que a disputa não gira em torno de um ministro específico.
Ela se dirige ao tribunal que conduziu, até o fim, o processo que resultou na punição dos responsáveis pela tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito.
Se a pressão se desloca de Toffoli para Moraes, o padrão se torna ainda mais evidente:
o alvo imediato pode variar, mas o alvo estrutural permanece o mesmo.
A convergência de crises
O episódio se desenrola em meio à crise do Banco Master, que rapidamente extrapolou o campo financeiro e se tornou disputa institucional de alta intensidade. Investigações, decisões judiciais e pressões políticas passaram a se cruzar em torno do caso.
Durante semanas, o nome de Toffoli esteve simultaneamente no centro de duas tempestades:
– a crise bancária;
– e a reativação de disputas sobre a memória da Lava Jato.
Essa convergência produziu um efeito previsível: concentrar pressões em uma figura que integra o tribunal responsável por condenações históricas contra o golpismo.
Com a saída da relatoria, o ponto de convergência pessoal se desfaz.
Mas a convergência institucional permanece.
Separar pessoa e instituição
É necessário estabelecer uma distinção clara.
Criticar a situação de um ministro não significa aderir a campanhas contra o STF.
Defender o STF não significa blindar ministros individualmente.
Democracias maduras conseguem investigar seus próprios juízes sem destruir seus tribunais.
Projetos autoritários fazem o contrário: transformam investigações legítimas em arma para desacreditar a instituição.
A diferença entre esses dois caminhos define o momento político atual.
Se conduzido com transparência e rigor, o episódio pode fortalecer o STF ao demonstrar capacidade de autocorreção.
Se capturado pela guerra política, pode alimentar uma campanha de desmoralização cujo objetivo final não é a ética pública, mas a revanche.
O que realmente está em jogo
O problema imediato foi a situação de um ministro. O que está em jogo continua sendo a credibilidade do tribunal que julgou a tentativa de ruptura democrática.
A saída de Toffoli da relatoria reduz a pressão individual.
Mas não elimina a estratégia de transformar crises pontuais em campanha contra a Corte. Se a ofensiva prosseguir, ficará claro que o objetivo nunca foi apenas investigar um magistrado. Era enfraquecer o tribunal que condenou o golpismo.
A democracia brasileira entrou numa fase em que seus adversários compreenderam algo fundamental: derrotar o STF no voto é difícil.
Desmoralizá-lo pode ser mais eficaz.
Por isso, a crise atual não pode ser lida apenas como episódio individual.
Ela é parte de uma disputa mais ampla pela legitimidade das instituições que impediram a ruptura democrática.
Toffoli deixou a relatoria. O foco migra agora para Alexandre de Moraes.
O tribunal permanece.
E é justamente isso que está em jogo: se o país será capaz de investigar seus próprios juízes com rigor — sem permitir que a investigação se transforme em pretexto para destruir a Corte que condenou o golpismo.
Um projeto autoritário transforma cada erro em argumento para demolir o sistema inteiro. Uma democracia sólida corrige seus erros.
Foto: Luiz Silveira/STF
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-foco-volta-para-moraes-e-a-ofensiva-segue-contra-o-stf