Associação Brasileira dos Jornalistas

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O governo na defensiva

O combo de erros e a passividade do governo agrava o risco não só de uma derrota grave no Senado e nos governos estaduais, mas da própria reeleição de Lula.

O governo Lula e o campo político-partidário que o apoiam regressaram novamente ao modo defensivo. Durante o terceiro mandato, experimentaram, em 2025, um breve lapso de ofensividade por ocasião dos embates da PEC da blindagem e da campanha contra o Congresso por votar pautas em favor dos ricos e contra os pobres.

Ao longo desses anos, chamamos a atenção várias vezes para as consequências negativas do defensivismo político, para a falta de existência de um estado-maior (um comando político no governo), para os erros de discursos e políticas (exemplo do Pix), para os equívocos da comunicação e para a apatia dos partidos da base governista. O governo se expressa por duas sínteses: uma articulação política desastrosa e uma comunicação incompetente.

O resultado era previsível: Lula e o governo se arrastando nas avaliações, com índices mais negativos do que positivos. O governo e os partidos da base são incapazes de traduzir em ganhos políticos os bons dados da economia, relativos à inflação, ao desemprego, ao crescimento do PIB, ao aumento da renda familiar e do poder de compra, aos programas habitacionais, ao Pé de Meia etc.

As últimas pesquisas vêm mostrando uma resiliente estagnação da intenção de voto em Lula e um crescimento consistente de Flávio Bolsonaro, depois que ele foi definido como candidato do bolsonarismo. A pesquisa Quaest de fevereiro mostra que a distância entre Lula e Flávio se encurtou para apenas 5 pontos nas simulações de segundo turno.

A estratégia do defensivismo político, em regra, conduz a derrotas. Somente em condições de extrema dificuldade e de grande adversidade de correlação de forças a estratégia se justifica. Não é o caso do governo, até porque ele é governo e tem vários instrumentos e meios de poder.

A passividade e a cautela do governismo foram assumidas desde os atos golpistas de 8 de janeiro. O campo governista terceirizou a luta em defesa da democracia, delegando a tarefa ao STF. Governo e partidos se acomodaram à manutenção das posições de poder conquistadas. Na medida em que o poder tem uma natureza expansiva, a mera manutenção se erode e a estratégia se torna defensiva e derrotista.

Com o defensivismo, as forças opositoras aumentam seus ataques, criando dificuldades crescentes ao governo que, por não ter comando político, reage com erros sucessivos. O mais notório foi a crise do Pix no início de 2025. Nas últimas semanas, o governo persiste na escalada de equívocos, a exemplo do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói e da taxação das importações de bens de capital e de outros itens.

São erros grosseiros e bisonhos, dignos de amadorismo. No caso da Acadêmicos de Niterói, houve uma evidente articulação entre o Planalto e a escola. Ainda no ano passado, a senhora Janja e duas ministras visitaram a escola. No caso do aumento do imposto de importação, era evidente, como a luz do sol, que o ato provocaria estragos enormes em ano eleitoral. Tudo isso revela que o governo opera sem análise de risco em suas decisões e ações. Move-se pelo impressionismo, espontaneísmo e amadorismo, princípios contrários à ação dirigente.

A oposição está auferindo o máximo de ganhos com os dois eventos, sem que os defensores do governo tenham argumentos razoáveis para defendê-lo. Pior: o governo se deixou contaminar pelos dois maiores escândalos do momento: o do INSS e o do Master.

No caso do INSS, entre outros alvos, o foco é Lulinha. O problema cresce de dimensão sem que o governo tenha uma gestão sobre o assunto. Ora, se Lulinha é inocente, deveria ter oferecido a abertura do sigilo bancário desde as primeiras menções. Se é culpado, revela que Lula e o PT não aprenderam nada com as acusações e escândalos do passado. Na CPMI, os petistas dormiram no ponto e permitiram a quebra do sigilo do filho do presidente.

No caso do Master, vários ativistas de esquerda classificaram as exigências de apuração do escândalo e de afastamento do ministro Toffoli da relatoria como lavajatismo. Quer dizer: o governo e os partidos da base perderam a agenda republicana de combate à corrupção, aos privilégios, aos penduricalhos e aos supersalários. A oposição vem se apropriando dessa agenda nas redes e nas ruas, criando um ambiente negativo para o governo que, quanto mais se alastra, mais difícil se torna de ser contornado.

Os ataques do bolsonarismo nas redes não têm resposta. Assim, as narrativas mentirosas assumem um estatuto de “verdades”. Com os atos de protesto do dia primeiro de março, a oposição ensaia uma retomada das ruas, fazendo crescer a pressão sobre o governo. Em São Paulo, foram mais de 22 mil pessoas na Avenida Paulista.

Com a chamada “Acorda Brasil”, as lideranças de direita retomaram a pauta da anistia a Bolsonaro e aos golpistas, pediram “Fora Lula”, “Fora Toffoli” e “Fora Alexandre de Moraes”, ligando o caso Master ao governo e ao STF. No caso Master, enquanto o governo agasalha em seus braços uma criança que não é sua e a acalenta, os artífices do escândalo — os governadores Ibaneis Rocha e Cláudio Castro e vários políticos do centrão, associados aos dirigentes do banco — saem à francesa, sem ser notados.

Nos discursos, os líderes da direita apelaram para a mobilização e o ativismo. Sustentaram que o Brasil “está indignado, inconformado com tudo o que está acontecendo”. “Eles têm medo da nossa voz”, disse o governador mineiro, que cortou em mais de 90% as verbas da prevenção das enchentes. Michelle Bolsonaro vem sendo esculpida como a imagem viva da dor e do sofrimento, por conta das “injustiças” praticadas contra o seu marido.

É preciso notar que, quando não há combate e enfrentamento, os pecadores se tornam santos, as mentiras se tornam verdades e os rapinantes são vistos como salvadores. Este é um processo que se alimenta de duas vertentes: a ofensiva das oposições e a passividade acovardada do governismo. As esquerdas precisam olhar não só para aquilo que a direita faz, mas também para aquilo que elas não fazem.

Enquanto Bolsonaro, da cadeia, vem montando chapas em vários estados, o governo, com todo o aparato de poder, se mostra lerdo e confuso, sem liderança, sem comando, embasbacado, empacado em vários estados, à mercê das tensões particularistas de vários políticos e grupos. Quando falta comando e liderança, o particularismo dos interesses egoístas provoca a erosão dos projetos gerais orientados para o bem público. O combo de erros e a passividade do governo hoje agrava o risco não só de uma derrota grave no Senado e nos governos estaduais, mas da própria reeleição de Lula.

Foto: Ricardo Stuckert/PR

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-governo-na-defensiva