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O índice que prova: Brasil está regredindo.

11 posições perdidas enquanto o mundo avança.

Saiu o ranking atualizado do Economic Complexity Index (ECI), e ele conta uma história brutal sobre a economia brasileira.

Enquanto você lia sobre PIB crescendo, inflação controlada e exportações recordes de commodities, algo muito mais importante estava acontecendo: a estrutura produtiva do Brasil regrediu.

Caímos da posição 38 para 49 no ranking global de complexidade econômica entre 2014 e 2024. Isso não é ruído estatístico. É uma década perdida na corrida que realmente importa—a capacidade de produzir bens sofisticados que o mundo quer comprar.

Hoje vou te mostrar o que o ECI revela sobre o Brasil, por que essa métrica importa mais do que PIB, e o que os países que estão vencendo estão fazendo diferente de nós.

Vamos mergulhar nisso!

O ECI mede o que realmente importa: conhecimento produtivo incorporado.

O Economic Complexity Index não mede o tamanho da sua economia—mede a sofisticação dela.

Pense assim: exportar minério de ferro é fácil.

Qualquer país com depósitos minerais consegue fazer isso. Mas produzir semicondutores, turbinas de avião, equipamentos médicos de precisão?

Isso exige uma rede densa de conhecimento produtivo, instituições, fornecedores especializados e trabalhadores qualificados que levam décadas para se construir.

O ECI captura exatamente isso—a diversidade e sofisticação dos produtos que um país consegue exportar competitivamente. E como estruturas produtivas mudam devagar, a métrica é melhor observada em horizontes longos. Por isso olhamos 2014–2024.

E o que essa década revelou? Que enquanto o Brasil falava de transformação, outros países estavam executando.

Taiwan passou a Alemanha e agora é a #2 economia mais complexa do mundo.

Em 2024, Taiwan assumiu a segunda posição no ranking global, atrás apenas do Japão.

Isso não aconteceu por acaso.

Taiwan construiu sistematicamente clusters de semicondutores (TSMC), componentes eletrônicos e equipamentos de precisão.

A Coreia do Sul subiu para #4 pelo mesmo motivo—apostou em setores de altíssima complexidade como semicondutores, baterias e displays.

A mensagem é clara: os países que lideram o ECI investiram décadas em capacidades produtivas sofisticadas. Eles não esperaram “vantagens comparativas naturais” aparecerem.

Eles as construíram deliberadamente.

Enquanto isso, a Alemanha caiu do pódio (#3 para #5), e o Brasil caiu 11 posições (38 para 49).

A diferença? Taiwan e Coreia estão subindo a escada da complexidade. Brasil e Alemanha estão, na melhor das hipóteses, parados—e na pior, descendo.

China subiu como foguete: de #30 para #21 em uma década.

Aqui está a parte que deveria te tirar o sono.

A China, que todo mundo ainda trata como “fábrica do mundo de produtos baratos”, subiu 9 posições no ECI em apenas 10 anos.

Hoje está na posição #21—e continua subindo.

Como? Investimento massivo em setores estratégicos: veículos elétricos, baterias, painéis solares, semicondutores, equipamentos ferroviários de alta velocidade, drones, robótica.

A China não está apenas produzindo mais—está produzindo coisas mais complexas. E fazendo isso em escala industrial que nenhum outro país consegue replicar.

Enquanto o Brasil comemorava safras recordes de soja, a China estava construindo a BYD, a CATL e a SMIC.

Enquanto discutíamos reforma tributária, eles estavam dominando cadeias globais de tecnologia verde.

A trajetória é clara: em 10-15 anos, a China estará entre as 10 economias mais complexas do mundo.

E nós? Provavelmente ainda discutindo se devemos ou não ter política industrial.

América do Sul está em queda livre—com raras exceções.

Os dados sul-americanos são deprimentes.

Brasil caiu de 38 para 49.

Argentina de 46 para 52.

Venezuela de 83 para 104 (colapso total).

A única exceção? Uruguai, que subiu de 58 para 50—e mesmo assim continua atrás de onde o Brasil estava em 2014.

Por que isso importa? Porque confirma o diagnóstico que muitos economistas heterodoxos vêm fazendo há anos: reprimarização.

A América do Sul está voltando a ser exportadora de matérias-primas, perdendo capacidades industriais e tecnológicas construídas no século XX.

E não, isso não é “só o mercado funcionando”.

→ É política econômica.

→ É câmbio sobrevalorizado.

→ É falta de financiamento para inovação.

→ É infraestrutura sucateada.

→ É educação técnica abandonada.

→ É um sistema tributário que pune manufatura e premia exportação de commodities.

Enquanto isso, países como Vietnã (76 para 57), Indonésia (77 para 69), Camboja (122 para 93) e até El Salvador (73 para 63) estão fazendo o caminho inverso—construindo capacidades manufatureiras e subindo no ranking.

Eles estão fazendo o que a Coreia do Sul fez nos anos 70, o que Taiwan fez nos anos 80, o que a China fez nos anos 2000.

E nós? Estamos fazendo o que a Argentina vem fazendo há 70 anos: regredindo.

Arábia Saudita e Emirados Árabes falharam—apesar dos bilhões investidos.

Aqui tem uma lição importante sobre o que NÃO funciona.

Arábia Saudita e Emirados Árabes gastaram centenas de bilhões tentando diversificar suas economias e subir no ECI. Construíram cidades futuristas, zonas francas, parques tecnológicos, universidades de classe mundial.

E mesmo assim, quase não se moveram no ranking.

Por quê? Porque você não constrói complexidade econômica do zero com dinheiro do petróleo.

Você constrói complexidade com uma base industrial existente que pode ser sofisticada gradualmente. Você precisa de empresas manufatureiras, fornecedores locais, engenheiros com experiência prática, instituições técnicas enraizadas.

Taiwan não virou potência em semicondutores da noite para o dia. Levou 40 anos de política industrial deliberada, começando com eletrônicos simples nos anos 70.

A lição para o Brasil? Temos uma base industrial—mas estamos deixando ela morrer. E uma vez que ela morre, reconstruir é infinitamente mais difícil e caro do que preservar e sofisticar o que já existe.

O que países vencedores estão fazendo que o Brasil não está.

Vamos ser diretos sobre o que separa países que sobem no ECI dos que caem.

Política industrial ativa. Taiwan, Coreia do Sul, China, Vietnã—todos têm estratégias explícitas de quais setores desenvolver. Eles não esperam “o mercado decidir”. Eles direcionam crédito, incentivos fiscais, compras governamentais e P&D para setores estratégicos.

Investimento em educação técnica e P&D. Coreia do Sul investe 4.8% do PIB em P&D. Taiwan 3.5%. China 2.4%. Brasil? 1.2%—e caindo. Sem engenheiros, sem pesquisa aplicada, sem inovação, você não sobe em complexidade.

Câmbio competitivo sustentado. Países do Sudeste Asiático mantêm câmbio desvalorizado para proteger manufatura nascente. Brasil deixa o real se valorizar toda vez que commodities sobem, matando a indústria.

Integração em cadeias globais de valor—mas com upgrading. Vietnã começou montando tênis e camisetas. Hoje monta iPhones e produz componentes eletrônicos. Eles entraram em cadeias globais, mas com estratégia de subir na cadeia. Brasil entrou em cadeias globais nos anos 90—e desceu na cadeia.

Pragmatismo acima de ideologia. Taiwan é capitalista mas tem empresas estatais estratégicas. China é “comunista” mas tem mercados competitivos brutais. Coreia do Sul usou chaebols (conglomerados privados) com direcionamento estatal. Funcionou porque o objetivo era claro: desenvolver capacidades produtivas sofisticadas. Não ideologia, resultados.

Brasil tem duas escolhas: acordar ou aceitar a irrelevância produtiva.

Aqui está a verdade incômoda que o ECI 2024 expõe: o Brasil está perdendo a corrida da complexidade econômica—e perdendo feio.

Enquanto Taiwan, Coreia, China, Vietnã, Indonésia e até Marrocos constroem capacidades produtivas do século XXI, nós estamos regredindo para o século XIX: exportadores de minério, soja e carne.

Você pode aceitar isso. Pode acreditar que “somos competitivos em agro” e que isso basta. Pode continuar comemorando superávits comerciais construídos em cima de commodities enquanto a estrutura produtiva apodrece.

Ou você pode reconhecer que complexidade econômica é destino. Países complexos são ricos, resilientes, inovadores. Países simples são pobres, vulneráveis, irrelevantes.

A escolha é nossa. Mas o relógio está correndo. E cada ano que passa sem uma estratégia séria de transformação produtiva é mais um ano de distância dos países que estão vencendo—e mais um passo em direção à irrelevância permanente.

Os dados de 2024 estão aí. A pergunta é: vamos finalmente prestar atenção?

Se você quer acompanhar dados, rankings completos e visualizações interativas do ECI 2024, acesse o Observatory of Economic Complexity (OEC). E se esta newsletter te fez pensar diferente sobre desenvolvimento econômico, compartilhe com alguém que precisa ler isso.

FONTE: https://open.substack.com/pub/paulogala/p/o-indice-que-prova-brasil-esta-regredindo?utm_campaign=post-expanded-share&utm_medium=web