Pela primeira vez no pós-Guerra Fria, Washington enfrenta um adversário capaz de devolver a guerra sistêmica contra as infraestruturas que sustentam seu poder no Oriente Médio.
O que mudou não foi apenas a intensidade da guerra, mas sua lógica. Ao ameaçar portos, refinarias, bases, rotas marítimas e redes vitais dos aliados dos Estados Unidos, o Irã rompe a assimetria que marcou as campanhas contra Iraque, Sérvia e Líbia e inaugura uma nova etapa da confrontação estratégica.
O fim da guerra de mão única
Durante mais de três décadas, os Estados Unidos conduziram campanhas militares sob uma vantagem estratégica raramente questionada: podiam destruir a infraestrutura que sustentava Estados inteiros sem expor, na mesma escala, a infraestrutura que sustentava a própria guerra.
Foi assim no Iraque, na Sérvia e, mais tarde, na Líbia. Pontes, refinarias, usinas, centros de comunicação, corredores logísticos e instalações industriais transformaram-se em alvos estratégicos para paralisar a capacidade material de resistência do adversário. Enquanto isso, as bases, os portos, as redes energéticas e os corredores que garantiam a projeção militar americana permaneciam relativamente protegidos. Essa assimetria permitiu a Washington converter a guerra contra infraestrutura em um instrumento de coerção geopolítica praticamente sem reciprocidade.
O conflito com o Irã rompe essa lógica. Pela primeira vez no pós-Guerra Fria, a potência que consolidou esse modelo enfrenta um adversário capaz de devolver a pressão estratégica contra as redes de energia, transporte, logística e circulação que sustentam seu poder regional. O que está em curso, portanto, não é apenas uma nova escalada militar. É uma ruptura na própria arquitetura da guerra. O monopólio americano da destruição sistêmica deixou de ser absoluto.
Essa vantagem não decorria apenas da superioridade tecnológica ou da supremacia aérea dos Estados Unidos. Ela era resultado de uma arquitetura estratégica muito mais profunda. As campanhas militares americanas eram planejadas para desorganizar o sistema material do adversário, enquanto o sistema que sustentava a própria guerra permanecia fora de alcance. A destruição concentrava-se sobre o território inimigo; a retaguarda da coalizão seguia operando praticamente sem interrupções.
Foi essa lógica que transformou a base material do poder em alvo estratégico. Refinarias, usinas, pontes, centros logísticos, redes elétricas e sistemas de comunicação deixaram de ser apenas bens civis ou ativos econômicos. Tornaram-se os meios pelos quais um Estado produz, abastece, transporta, coordena e reproduz sua capacidade de continuar combatendo. Destruir essa base material significava degradar a capacidade de reprodução do poder adversário sem a necessidade de ocupar integralmente seu território.
O problema para Washington é que essa lógica pressupunha uma condição fundamental: a impossibilidade de reciprocidade. A infraestrutura que sustentava a projeção militar americana permanecia protegida pela distância geográfica, pela superioridade militar e pela incapacidade dos adversários de devolver, em escala regional, o mesmo tipo de pressão estratégica. É exatamente essa condição histórica que começa a desaparecer no confronto com o Irã.
O Irã deslocou o centro de gravidade da guerra. Em vez de buscar uma simetria impossível entre forças convencionais, construiu uma capacidade de reciprocidade sistêmica. Mísseis de longo alcance, drones, forças aliadas distribuídas pela região e o controle sobre alguns dos principais corredores energéticos do planeta passaram a formar uma arquitetura capaz de pressionar não apenas tropas americanas, mas a base material que sustenta a presença dos Estados Unidos no Oriente Médio.
Essa mudança altera profundamente o cálculo estratégico. Bases militares, refinarias, terminais portuários, corredores marítimos, redes energéticas e instalações críticas deixam de ser apenas ativos da projeção de poder americana. Passam a integrar o próprio campo de batalha. Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, Washington precisa conduzir operações militares sabendo que a infraestrutura que garante sua projeção regional também pode ser convertida em alvo estratégico.
É justamente aí que reside a ruptura histórica. Durante décadas, os Estados Unidos monopolizaram a capacidade de transformar a infraestrutura do adversário em instrumento de coerção militar. O conflito com o Irã demonstra que esse monopólio deixou de existir. A guerra contra infraestrutura já não é uma ferramenta exercida em sentido único. Ela passa a produzir vulnerabilidades recíprocas e inaugura um ambiente estratégico muito mais instável, no qual destruir o sistema material do adversário significa, cada vez mais, expor o próprio sistema à retaliação.
Essa ruptura expõe a principal contradição da projeção militar americana no Oriente Médio. A capacidade dos Estados Unidos de projetar poder no Oriente Médio depende de uma extensa arquitetura material composta por bases militares, portos, aeroportos, corredores marítimos, redes energéticas e aliados regionais. Quanto mais sofisticada e integrada se tornou essa estrutura, maior foi sua capacidade de sustentar operações militares de longa duração. Ao mesmo tempo, porém, maior passou a ser sua exposição a ataques capazes de produzir efeitos muito além do campo de batalha.
Não se trata apenas de ameaçar instalações militares. O que passa a estar em disputa é o funcionamento do sistema que mantém a presença americana na região. Uma refinaria paralisada, um terminal portuário interrompido, um corredor marítimo bloqueado ou uma planta de dessalinização atingida deixam de produzir apenas danos materiais. Eles comprometem cadeias logísticas, pressionam mercados internacionais, elevam custos econômicos e reduzem a previsibilidade operacional sobre a qual sempre se apoiou a estratégia americana.
É essa mudança que redefine a natureza do conflito. A infraestrutura deixa de ser apenas o objeto da guerra para se transformar também em condição da própria guerra. A vantagem estratégica continua amplamente favorável aos Estados Unidos, mas já não opera em um ambiente de invulnerabilidade. Pela primeira vez em décadas, a potência que organizou sua superioridade sobre a destruição do sistema material do adversário precisa incorporar ao próprio cálculo militar a possibilidade de que esse sistema também se torne vulnerável.
As consequências dessa mudança ultrapassam o confronto entre Washington e Teerã. O que está em disputa não é apenas o resultado de uma campanha militar, mas o esgotamento de um padrão estratégico que marcou o pós-Guerra Fria. Durante mais de trinta anos, os Estados Unidos exerceram praticamente sozinhos a capacidade de converter a infraestrutura do adversário em instrumento de coerção sem enfrentar, na mesma escala, riscos equivalentes para a infraestrutura que sustentava sua própria projeção de poder.
O Irã não elimina a superioridade militar americana. Rompe, porém, o monopólio que permitia aos Estados Unidos transformar a base material do poder adversário em instrumento unilateral de coerção estratégica. Ao demonstrar capacidade de impor custos estratégicos sobre a arquitetura material que sustenta a presença americana no Oriente Médio, inaugura uma nova etapa da guerra contemporânea, na qual a destruição deixa de ser um fluxo unilateral e passa a produzir vulnerabilidades recíprocas. A infraestrutura continua sendo o principal centro de gravidade dos conflitos modernos, mas já não pertence exclusivamente ao arsenal das grandes potências.
É por isso que o conflito atual representa mais do que uma crise regional. Ele sinaliza uma inflexão histórica na forma como o poder militar é produzido, projetado e contestado no sistema internacional. O monopólio americano da guerra contra infraestrutura, construído ao longo de décadas de campanhas militares praticamente assimétricas, já não pode mais ser considerado absoluto. E quando um monopólio estratégico deixa de existir, não muda apenas o equilíbrio entre dois adversários. Muda a lógica da guerra.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-ira-rompe-o-monopolio-americano-da-guerra-contra-infraestrutura/