Como uma narrativa falsa sobre fechamento esconde décadas de desindustrialização.
Você já ouviu que o Brasil precisa “se abrir mais” para crescer?
Essa narrativa é repetida constantemente por economistas, formadores de opinião e policy makers como se fosse verdade absoluta.
O problema é que o Brasil já se abriu — e dramaticamente.
As tarifas caíram de 50% nos anos 1980 para 7,5%-8% hoje. Mas ninguém fala sobre isso. E ninguém explica por que, mesmo após décadas de abertura comercial, o país continua exportando pouco e crescendo menos ainda.
A razão é simples: o problema nunca foi a tarifa. O problema sempre foi — e continua sendo — a destruição da nossa capacidade produtiva.
Então hoje vou mostrar por que o debate sobre “Brasil fechado” é uma cortina de fumaça que esconde o verdadeiro desafio do país: reconstruir uma estrutura industrial capaz de competir globalmente em setores de alta tecnologia.
Vamos mergulhar!
O indicador que todo mundo usa está errado desde o início.
O debate costuma começar com a razão entre exportações + importações sobre o PIB.
Por esse critério, o Brasil aparece com um “grau de abertura” entre 30%-35%, o que parece baixo comparado a economias menores e mais integradas.
Mas esse indicador não mede política comercial — ele mede estrutura produtiva e tamanho de mercado interno.
Estados Unidos e Japão também têm razões baixas de comércio sobre PIB.
Não porque sejam protecionistas, mas porque são economias grandes com mercados internos vastos.
Usar esse número para dizer que o Brasil é “fechado” é conceitualmente equivocado e metodologicamente preguiçoso.
O que esse indicador realmente revela é outra coisa: a incapacidade estrutural do Brasil de exportar bens complexos e tecnológicos.
A tarifa média brasileira já caiu 85% — e ninguém te contou isso.
Se você quer medir abertura comercial de verdade, olhe para o nível médio de tarifas de importação.
E aqui está o fato que destrói toda a narrativa ortodoxa: a tarifa média brasileira era de aproximadamente 50% nos anos 1980. Hoje está entre 7,5% e 8%.
Isso representa uma queda de mais de 85% em três décadas — uma liberalização profunda, rápida e historicamente significativa para qualquer país de renda média.
Mesmo considerando picos tarifários em setores específicos (10%-12%), o Brasil opera com uma tarifa média apenas ligeiramente acima da média dos emergentes. \
Em termos históricos e comparativos, isso caracteriza uma economia amplamente aberta do ponto de vista tarifário.
A liberalização comercial já aconteceu. O Brasil já se abriu.
Insistir no contrário é ignorar os dados ou manipulá-los intencionalmente.
O Brasil exporta pouco porque produz pouco do que o mundo quer comprar.
Aqui está a verdade incômoda que ninguém quer admitir.
O baixo coeficiente de comércio sobre PIB não reflete fechamento. Reflete a destruição da nossa base industrial e tecnológica. O Brasil exporta pouco porque não consegue produzir bens manufaturados complexos em escala global. Ponto.
A pauta exportadora brasileira permanece brutalmente concentrada em:
- Commodities agrícolas e minerais
- Produtos agroindustriais de baixo ou médio valor agregado
- Recursos naturais com mínima transformação
Esses setores são importantes, mas têm limites claros para impulsionar produtividade, renda e inserção dinâmica no comércio global.
Não é coincidência que países com altos coeficientes de comércio sobre PIB exportem máquinas, equipamentos, químicos, eletrônicos e conhecimento incorporado — não soja e minério de ferro.
A abertura veio antes da capacidade produtiva — e esse foi o erro fatal.
Economias que se inserem com sucesso em cadeias globais de valor fazem isso porque construíram capacidades produtivas complexas antes de se expor à concorrência internacional desenfreada.
O Brasil fez o oposto.
Abriu a economia de forma rápida e profunda nos anos 1990 sem ter construído previamente uma base industrial robusta.
→ Sem instrumentos adequados de política industrial.
→ Sem proteção estratégica para setores nascentes.
→ Sem coordenação macroeconômica para sustentar o upgrading produtivo.
O resultado foi previsível: exposição precoce da indústria nacional à concorrência externa, desindustrialização acelerada, perda de capacidade tecnológica e aprisionamento em uma inserção externa baseada em recursos naturais.
A abertura não gerou competitividade. Gerou destruição.
Reduzir tarifas não resolve o problema — reconstruir capacidades sim.
Insistir que o Brasil precisa “se abrir mais” é perder completamente o foco do verdadeiro desafio.
O país não precisa de tarifas ainda mais baixas. Precisa reconstruir uma estratégia de desenvolvimento produtivo que permita produzir e exportar bens complexos, sofisticados e intensivos em tecnologia. Isso exige:
- Política industrial ativa e coordenada
- Investimento massivo em P&D e inovação
- Formação de capital humano especializado
- Financiamento de longo prazo para projetos industriais
- Proteção seletiva e temporária para setores estratégicos nascentes
Sem enfrentar esse núcleo estrutural do problema, nenhuma métrica de abertura comercial mudará o lugar do Brasil na economia mundial.
O país continuará exportando commodities enquanto importa tecnologia, aprisionado em uma armadilha de baixa complexidade e baixo crescimento.
Em síntese: o Brasil não é fechado — é desindustrializado.
Quando se olha para o que realmente importa em política comercial — o nível de proteção tarifária — o Brasil não é uma economia fechada.
O que o país é, na verdade, é uma economia com baixíssima densidade produtiva e tecnológica. Uma economia cuja inserção externa reflete suas fragilidades estruturais profundas. Uma economia que abriu suas portas antes de construir o que precisava para competir.
O debate sobre “abrir ou fechar” é uma distração conveniente.
Esconde décadas de escolhas equivocadas, interesses consolidados e fracasso sistemático em construir capacidades produtivas.
Enquanto continuarmos presos a essa narrativa falsa, o Brasil permanecerá onde está: exportando recursos naturais e importando futuro.
E a cada ano que passa, reconstruir essa capacidade fica mais difícil e mais caro.
A próxima vez que alguém disser que o Brasil precisa “se abrir”, pergunte: abrir para quê? Para exportar mais soja? Ou para finalmente construir a indústria de alta tecnologia que nunca tivemos coragem de criar?
P.S. “Mas Paulo, se o Brasil já se abriu e continuou travado, qual é a saída?” Essa é exatamente a pergunta que respondo em profundidade no curso “Brasil, uma Economia que Não Aprende” dentro da Escola de Complexidade Econômica. Lá eu mostro não apenas o diagnóstico, mas as estratégias concretas que países como Coreia do Sul e China usaram para construir capacidade produtiva ANTES de se expor. → Quero entender a saída real para o Brasil
P.P.S. — Se este é um dos primeiros textos que você lê aqui, visite minha [página de boas-vindas clicando aqui. Separei presentes que vão te ajudar a entender desenvolvimento econômico de verdade — incluindo meu livro completo “Brasil, uma economia que não aprende” (grátis).
FONTE: https://paulogala.substack.com/p/o-mito-que-mantem-o-brasil-atrasado?r=2nelwz&utm_campaign=post&utm_medium=web&triedRedirect=true