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O mundo que a guerra revela

A capa da The Economist e o Brasil diante do novo tabuleiro energético global.

A mais recente capa da The Economist traz um título que, sozinho, já é uma tese: ‘Never interrupt your enemy when he is making a mistake.’ A frase, atribuída a Napoleão Bonaparte, foi escolhida para retratar a postura da China diante da guerra americana contra o Irã. Não é um elogio a Pequim. É um diagnóstico sobre Washington.

A revista ouviu diplomatas, assessores, acadêmicos e ex-autoridades chinesas, e o que encontrou foi uma unanimidade rara: a China vê a guerra como um erro estratégico grave dos Estados Unidos e deliberadamente se mantém à margem. Não por fraqueza, nem por indiferença. Mas porque seus líderes entendem que o tempo corre a seu favor.

A leitura de Pequim se organiza em três camadas. A primeira é que a guerra acelera o declínio americano. Os Estados Unidos atuam por impulso, sem estratégia clara, à semelhança da Grã-Bretanha do século XIX, que exibia força militar sem direção política. Trump ignorou especialistas, fez ameaças erráticas e pode enredar Washington em anos de conflito no Oriente Médio, exatamente quando a China quer que o foco americano esteja o mais longe possível da Ásia.

A segunda camada é a validação da aposta de Xi Jinping na autossuficiência. A dependência global do petróleo do Golfo Pérsico confirma, do ponto de vista chinês, a sabedoria de décadas de diversificação energética: reserva estratégica de 1,3 bilhão de barris, expansão nuclear, solar, eólica e manutenção do carvão doméstico como base de segurança. A guerra prova que quem não controla sua matriz energética não controla seu destino.

A terceira é a abertura de oportunidades. Contratos de reconstrução no Golfo, exportação de tecnologia verde para países que querem independência dos combustíveis fósseis do Oriente Médio, e uma janela para negociar com um Trump politicamente enfraquecido, buscando concessões em tarifas, controles de exportação e, no limite, uma sinalização favorável sobre Taiwan.

O ponto cego de Pequim e a lição que o mundo precisa tirar

A análise da The Economist, porém, não poupa a China. Identifica um ponto cego estratégico relevante: Pequim subestima o risco de uma América que atua como potência ‘rogue’, destruindo a própria ordem internacional que ela mesma construiu e na qual a China prosperou. Um mundo em desordem corrói o modelo exportador chinês e ameaça a legitimidade do Partido Comunista, que repousa sobre crescimento econômico e estabilidade.

Mas a lição mais duradoura do conflito não é sobre a China nem sobre os Estados Unidos. É sobre soberania energética. Os países que chegaram a esta crise com matriz diversificada, reservas constituídas e tecnologia própria estão navegando com relativa tranquilidade. Os demais estão pagando a conta em energia cara, volatilidade cambial e dependência política de atores que não controlam.

É aqui que o Brasil precisa, urgentemente, olhar para si mesmo. E o que vê, se olhar com honestidade, é ao mesmo tempo encorajador e alarmante.

O que o Brasil tem: uma posição invejável

Digamos com clareza, sem ufanismo e sem falsa modéstia: o Brasil é um dos países mais bem dotados do mundo em termos de recursos energéticos. Isso não é retórica. É dado verificável.

Nossa matriz elétrica é mais de 85% renovável, uma raridade entre economias de porte comparável. O pré-sal nos colocou entre os maiores produtores mundiais de petróleo, com óleo de alta qualidade e custo de extração competitivo. Inventamos o etanol em escala industrial e hoje estamos na fronteira do combustível sustentável de aviação. O Nordeste brasileiro, especialmente o litoral do Rio Grande do Norte e do Ceará, reúne condições de irradiação solar e velocidade de ventos que rivalizam apenas com o norte do Chile e o sul da Austrália. São vantagens absolutas, não comparativas.

O Brasil chegou ao momento mais crítico da transição energética global na melhor posição de partida entre os países emergentes de grande porte. Isso é um fato. O que ainda não é fato é que saibamos usar essa posição com inteligência estratégica.

O que ainda falta: a distância entre recurso e estratégia

Ter o recurso e saber transformá-lo em poder são coisas distintas. A China entendeu essa diferença nos anos 2000 e agiu com disciplina ao longo de décadas. Identificou suas vulnerabilidades, investiu sistematicamente em autossuficiência, diversificou sua matriz e construiu alavancas de pressão próprias. O Brasil, com fundamentos naturais superiores, ainda insiste em exportar o insumo bruto e importar o valor agregado de volta.

O exemplo mais concreto é constrangedor: instalamos gigawatts de energia eólica e solar, mas grande parte dos equipamentos, painéis, inversores, torres e naceles, ainda vem de fora, com predominância crescente da China. É uma ironia estratégica que não podemos continuar ignorando. O país com mais sol e mais vento do mundo paga royalties tecnológicos para aproveitar seus próprios recursos.

A política de conteúdo local nas licitações do setor elétrico precisa ser levada a sério, com metas críveis e incentivos reais à manufatura doméstica. Isso não é protecionismo anacrônico. É o que todos os países que hoje dominam essas tecnologias fizeram em algum momento da sua trajetória industrial.

Petróleo e renováveis: parceiros, não adversários

Persiste no debate público brasileiro uma falsa oposição entre petróleo e energia limpa, como se defender o pré-sal fosse incompatível com apoiar a transição energética. Essa visão é equivocada e economicamente cara.

O fluxo de caixa robusto do pré-sal é precisamente o que pode financiar a industrialização verde brasileira. Uma Petrobras estrategicamente orientada tem capacidade de ser agente ativo nessa transição, investindo em biocombustíveis avançados, hidrogênio verde, infraestrutura de transmissão e tecnologias de captura de carbono. O petróleo brasileiro, com uma das menores pegadas de carbono na extração entre os produtores relevantes do mundo, tem mercado garantido por pelo menos mais duas décadas enquanto a transição se consolida globalmente.

Abrir mão dessa receita prematuramente, sem ter construído os substitutos industriais, seria um erro histórico. O desafio real é de governança: usar os recursos do presente para financiar a competitividade do futuro, sem confundir dividendos de curto prazo com investimento estratégico de longo prazo.

O Nordeste como fronteira industrial, não como exportador de insumos

A tese do Brasil Equatorial, que defendo há anos, aponta para algo maior do que a venda de elétrons baratos para a Europa via cabos submarinos. Se nos limitarmos a isso, estaremos repetindo o erro histórico de todas as nossas commodities anteriores: o açúcar, o café, o minério de ferro. Exportamos o insumo, importamos o produto, e o valor agregado ficou sempre em outro lugar.

A energia abundante e barata do Nordeste precisa, antes de tudo, atrair indústrias eletrointensivas para o próprio território brasileiro. Produção de hidrogênio verde para uso interno e exportação seletiva. Fabricação de amônia verde para substituir fertilizantes importados, uma vulnerabilidade brutal que a guerra na Ucrânia já nos expôs. Data centers alimentados por energia renovável. Manufatura de equipamentos para a própria cadeia renovável.

O Rio Grande do Norte e o Ceará têm condições objetivas de se tornar o que o Texas representou para a economia americana nos anos 1970: uma plataforma energética que irradia industrialização muito além das suas fronteiras regionais. Mas isso exige que o Estado brasileiro trate essa fronteira com a seriedade de uma política industrial de Estado, não como pauta setorial de momento.

A regulação como ativo competitivo

Nada disso acontece sem marcos regulatórios funcionais. E aqui está um dos nossos maiores gargalos. O hidrogênio verde ainda não tem marco legal consolidado. O armazenamento de energia enfrenta indefinições tributárias que travam investimentos bilionários. Os contratos de longo prazo para exportação de energia enfrentam insegurança jurídica. Os data centers verdes aguardam regras claras de incentivo.

Cada mês de atraso regulatório é investimento que migra para o Chile, para Marrocos, para os Emirados Árabes ou para a Austrália. Países que, em muitos casos, têm recursos inferiores aos nossos, mas regras mais claras e processos decisórios mais ágeis. No atual contexto de reconfiguração global das cadeias de energia, velocidade regulatória é vantagem competitiva tanto quanto irradiação solar.

A janela não é eterna

A guerra no Irã, as tarifas de Trump e a reconfiguração das cadeias globais de energia criam uma janela de oportunidade rara para países como o Brasil. Mas janelas fecham.

A China entendeu isso nos anos 2000 e agiu. O Brasil tem hoje melhores fundamentos naturais do que a China tinha então. O que ainda falta é a mesma clareza estratégica sobre o que queremos ser no mundo energético das próximas décadas.

A The Economist encerra seu artigo com uma advertência que vale também para nós: há um futuro em que a América abraça o caos e a China se fecha sobre si mesma. E há um futuro em que quem soube construir soberania energética real, com industrialização, tecnologia e regulação inteligente, ocupa o espaço que ambas deixaram. Esse futuro pode ser nosso. Mas exige decisão agora.

Foto: Reprodução

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-mundo-que-a-guerra-revela