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“O mundo requer uma união dos meios de comunicação do Sul Global”, diz Patricia Villegas

Presidenta da Telesur fala sobre a realidade da Venezuela diante do risco de agressão imperialista e prega alianças midiáticas.

247 – A presidenta da Telesur, Patricia Villegas Marín, enviou um vídeo ao seminário promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em Salvador, dedicado ao debate sobre integração midiática do Sul Global. Patricia afirma que a Venezuela vive um processo de transformação social e política que tem sido sistematicamente distorcido pelos grandes conglomerados de mídia. “Tem-se dito tanto e ao mesmo tempo não se disse nada sobre sua verdadeira realidade”, afirmou. Ela descreve o país como estratégico devido às riquezas minerais, à posição geográfica entre o Caribe, a Colômbia e o Brasil e ao papel regional que exerce.

Segundo a presidenta da Telesur, a crise vivida pela Venezuela nos últimos anos foi resultado de uma ofensiva múltipla contra sua economia. “Houve um ataque direto a toda a estrutura de produção e distribuição do país, que acarretou uma enorme crise que impactou diretamente grandes camadas da população”, disse. Ela destaca que, durante esse período, o país também enfrentou invasões de mercenários, tentativas de assassinato contra o presidente Nicolás Maduro e pressões externas coordenadas pelo governo dos Estados Unidos.

Patricia afirma que, apesar disso, a Venezuela recompôs seu aparato produtivo, revitalizou a indústria petrolífera e viu o retorno de parte dos migrantes que haviam deixado o país durante o período de maior vulnerabilidade econômica.

Trump e a nova escalada militar no Caribe

Em sua análise, Patricia denuncia a escalada militar promovida pelos EUA no Caribe. “Levamos já três meses desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou ataques a embarcações que transportariam drogas desde o Caribe para seu país”, afirmou.

Ela contesta a justificativa usada por Washington e lembra que organismos internacionais, como a ONU, apontam que as principais rotas do narcotráfico na região passam pelo oceano Pacífico, e não pelo Caribe. Apesar das pressões simultâneas sobre México, Colômbia e Brasil, Patricia sublinha que apenas a Venezuela foi alvo de acusações que envolvem diretamente a figura de seu chefe de Estado.

Cotidiano sob ameaça e mobilização popular

Mesmo diante do intenso deslocamento militar dos EUA na região, a jornalista diz que a vida cotidiana segue seu curso, ao passo que o país se prepara para possíveis agressões. Segundo ela, as Forças Armadas organizam patrulhas e planos de resposta enquanto parte da população se alista como voluntária. Ao mesmo tempo, a presença militar norte-americana no Caribe aumentou, acompanhada de visitas oficiais de autoridades dos EUA ao entorno do território venezuelano.

A guerra comunicacional e a batalha pela verdade

Patricia dedica parte central de sua fala ao tema da comunicação. Ela afirma que a disputa geopolítica contra a Venezuela é acompanhada por uma intensa guerra cognitiva, que constrói visões distorcidas sobre o país e sobre Maduro. “Resulta muito pouco eficiente que hoje alguns meios do Ocidente tenham uma mínima quota de rigor diante de fatos que ameaçam a paz não de um país, mas de toda uma região do mundo”, disse.

Segundo ela, o debate dentro dos próprios EUA, marcado por divergências entre republicanos sobre novas guerras, abre brechas para que a versão venezuelana ganhe espaço.

Patricia descreve ainda o modelo comunicacional adotado no país — “ruas, redes, meios, paredes e rádio-bodega”, traduzido como comunicação direta, popular e territorial — que se tornou fundamental para disputar narrativas fora dos grandes conglomerados.

Telesur e as alianças internacionais do Sul Global

A presidenta da Telesur destaca que a disputa comunicacional exige cooperação entre meios alternativos e públicos de diferentes países. “O mundo requer uma união comunicacional do Sul Global que defenda a humanidade”, afirmou.

Como exemplo, cita a cobertura da Telesur em Gaza: “Com três e até quatro equipes simultâneas, demos cobertura a esta fase do genocídio e nos tornamos uma voz replicada pela imprensa pública e alternativa do Sul Global.”

Para Patricia, o fortalecimento das alianças e a permanência nas grandes histórias ignoradas pela mídia hegemônica são essenciais para enfrentar o poder das corporações de comunicação e construir uma visão crítica e plural do mundo.

Ela conclui dizendo que a comunicação é uma prática humana essencial e que, organizada, se converte em força política real: “Diante da constatação da mensagem com a realidade, não há fake ou etiqueta que possa destruí-la.”

Foto: Divulgação

FONTE: https://www.brasil247.com/midia/o-mundo-requer-uma-uniao-dos-meios-de-comunicacao-do-sul-global-diz-patricia-villegas