Acordo anunciado por Donald Trump com a Otan evidencia a projeção militar dos EUA.
O anúncio de um acordo que garantiria aos Estados Unidos acesso “irrestrito, total e permanente” à Groenlândia e ao espaço estratégico do Ártico lança luz sobre a orientação securitária e militarizada da política externa de Washington sob o comando de Donald Trump. Ao tratar como praticamente concluído um entendimento com a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) envolvendo um território autônomo sob soberania da Dinamarca, o governo norte-americano reforça uma lógica de imposição estratégica apresentada como cooperação militar e defesa hemisférica.
Por José Reinaldo Carvalho
A ideia central que sustenta essa iniciativa parte do pressuposto de que a segurança dos Estados Unidos depende da ampliação de sua presença militar em regiões sensíveis, ainda que isso implique maior instabilidade para outros atores. A Otan surge, mais uma vez, como instrumento operacional dessa estratégia, sendo mobilizada inclusive em cenários que envolvem disputas com a China e a Rússia, sob a justificativa de evitar qualquer presença econômica ou militar desses países no Ártico.
As declarações de Donald Trump durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos foram diretas. “Os detalhes estão sendo negociados agora. Mas, essencialmente, é acesso total. Não há fim, não há prazo”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, deixando evidente que, para Washington, os limites políticos e jurídicos do acordo ficam subordinados à primazia de seus interesses geopolíticos.
A Otan, fiel ao papel que desempenha desde sua criação, atua como elemento legitimador dessa expansão no Ártico. O secretário-geral da aliança, Mark Rutte, declarou que caberá aos comandos militares definir rapidamente os novos requisitos de segurança para a região. “Não tenho dúvidas de que podemos fazer isso muito rapidamente. Certamente, espero que seja em 2026, talvez até mesmo no início de 2026”, disse, naturalizando uma aceleração do processo de militarização.
É provável que Donald Trump intensifique a tática de pressão máxima para fins securitários ao longo de seu segundo mandato, no esforço para recuperar a hegemonia e apresentando-se como ator dominante nas disputas geopolíticas em curso.
No entanto, a reação de outras potências não tardou. A China respondeu prontamente. “A China se opõe à prática de fazer alegações infundadas e usar o país como pretexto para ganhos egoístas”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, ao comentar os desdobramentos envolvendo a Groenlândia. O representante chinês reforçou a posição de Pequim com base no direito internacional: “A China sempre acreditou que os propósitos e princípios da Carta da ONU devem ser respeitados na condução das relações entre os países”.
A Rússia também contestou a narrativa da Otan que aponta Moscou como ameaça aos interesses estadunidenses no Ártico. O governo russo classificou essa leitura como uma estratégia para gerar alarme e justificar o aumento da presença militar na região. Segundo a diplomacia russa, a aliança liderada pelos Estados Unidos estaria promovendo uma escalada perigosa na região sob “falsos pretextos” relacionados a ameaças russas ou chinesas, contribuindo para o agravamento desnecessário das tensões.
Como se vê, a estratégia anunciada por Donald Trump não se sustenta sem a intensificação deliberada do confronto com a Rússia e a China. A consolidação de um acesso permanente norte-americano ao Ártico pressupõe uma disputa dura e prolongada com essas potências, que não representam ameaça aos Estados Unidos nem ao hemisfério ocidental, mas detêm interesses legítimos na região. A Rússia possui vínculos geográficos, históricos e econômicos no Ártico, enquanto a China atua de forma reconhecida em pesquisa científica, logística e cooperação internacional ligada às rotas polares. Ao enquadrar essas presenças como riscos estratégicos, Washington opta conscientemente por deslocar o eixo da região da cooperação para o enfrentamento, convertendo o Ártico em mais um espaço de tensão geopolítica.
A reação europeia, por sua vez, carrega um evidente paradoxo. Governos que agora demonstram preocupação com o ímpeto expansionista de Trump foram, em diferentes momentos recentes, parceiros diretos de Washington em intervenções militares, além de participarem na guerra por procuração da Ucrânia contra a Rússia. Trata-se de países que também possuem ambições globais e interesses estratégicos, o que limita a credibilidade de uma postura puramente defensiva.
Nesse contexto, a tensão em torno da Groenlândia não pode ser reduzida a um embate entre democracias responsáveis e um líder isolado. O que se observa é uma disputa clássica entre grandes centros de poder do capitalismo avançado, que competem por áreas de influência, posições estratégicas e capacidade de projeção militar em escala global.
A Otan ocupa um papel central nessa engrenagem. Ao mesmo tempo em que busca preservar uma aparência de coesão política, a aliança funciona como espaço de negociação e fricção entre interesses norte-americanos e europeus. O acordo anunciado por Trump reflete esse equilíbrio instável: não resolve a questão da soberania da Groenlândia, carece de transparência e serve, sobretudo, para reorganizar temporariamente as relações entre aliados que disputam liderança dentro do mesmo campo estratégico.
A Groenlândia, território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca, permanece como objeto dessa disputa, com participação limitada nas decisões que afetam diretamente seu futuro. A retórica da segurança no Ártico opera como justificativa para o aumento da presença militar de grandes potências, aprofundando rivalidades que pouco dialogam com os interesses dos povos locais ou com a estabilidade internacional.
O episódio evidencia que, por trás de discursos diplomáticos e gestos pontuais de conciliação, a relação entre Estados Unidos e União Europeia é marcada por convergências e rivalidades que se alternam em um cenário de reconfiguração das relações de poder, agravado pela crise do capitalismo e pela intensificação das disputas geopolíticas em regiões estratégicas.
Diante desse quadro, torna-se cada vez mais urgente a construção de uma nova governança global baseada no respeito ao direito internacional, no diálogo multilateral e na solução pacífica de controvérsias. A preservação da paz exige a união dos povos e das nações comprometidas com sua soberania e independência, livres de pressões e ameaças de potências como os Estados Unidos, em favor de uma ordem internacional mais equilibrada, cooperativa e justa.
Foto: @WEF
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-novo-golpe-de-trump-acesso-permanente-a-groenlandia-e-poder-absoluto-no-artico